Crítica | Mulher-Maravilha: A Verdadeira Amazona (2016)

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estrelas 4

SPOILERS!

Coragem. Esta seria a palavra que eu atribuiria a Jill Thompson quando se propôs a reescrever a origem da Mulher-Maravilha da era de George Pérez, não apenas mudando pequenos detalhes ou acrescentando informações da infância da personagem, mas revolucionando a forma como a enxergamos. É importante salientar que esta graphic novel não é parte da cronologia oficial da heroína, logo, podemos classificar esta reescrita como mais UMA das versões que temos dela nas linhas alternativas ou possíveis dentro da DC Comics. Mas é também importante apontar que não se trata de uma simples versão alternativa. Esta, com certeza, irá fazer muita gente se incomodar e se recusar a acreditar que Diana tenha feio algumas coisas aqui representadas. As resoluções dramáticas da autora não são fáceis. A coragem que citei no início não foi apenas um apontamento gratuito. Ela é realmente decisiva aqui.

Algo simples de se pensar e que normalmente deixamos passar é o fato de que a Mulher-Maravilha não foi sempre uma mulher. Moldada na areia e tendo recebido dons dos deuses, Diana foi a grande sensação de Themyscira, encantando por anos não só a rainha Hipólita, mas todas as Amazonas a sua volta. E este é basicamente o primeiro grande detalhe em A Verdadeira Amazona. Inspirando-se na origem que vemos em Deuses e Mortais, Jill Thompson se debruça sobre as fases de crescimento da princesa; sobre o aprimoramento de suas habilidades e a relação dela com mãe, irmãs, natureza e deuses. A história tem, inicialmente, uma explicação sobre como as Amazonas passaram do mundo dos homens para a Ilha Paraíso e depois foca unicamente no cotidiano das escolhidas, futuramente marcadas por um “novo e belo fruto” que se tornaria amargo após certa idade.

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Nesta realidade, Hércules é contratado para “conter” as Amazonas.

O confronto com Hércules e a guerra que vemos na segunda fase da Mulher-Maravilha ganha ares mais sociais e historicamente mais apurados em A Verdadeira Amazona — em armamentos, motivação para um conflito e organização das cidades na Grécia Antiga. Daí em diante, passamos para a “grande conquista” de Hipólita e seguimos com o crescimento de Diana, seus primeiros passos, as primeiras palavras, travessuras, brincadeiras e… bem, algo que eu pelo menos não tinha imaginado, dado os valores morais e éticos que a personagem apresenta quando adulta, o oposto da infância fofa e diligente de Brace Yourself. Nesta guinada de comportamento vemos uma Diana sendo mimada, respondona, birrenta, chorona, rebelde, mal educada mesmo. E é neste ponto que a história começará a dividir os leitores. Confesso que torci o nariz para este ponto da trama, mas logo me acostumei com a toada e a leitura fluiu sem maiores problemas até o grande torneio, na reta final da graphic novel.

O tempo passa. Na juventude, Diana percebe que de todas as Amazonas da ilha, apenas uma parece não gostar dela. E como uma ideia fixa mista de paixão, a princesa fará de tudo para conquistar as graças da jovem Alethea, prometendo mudar de comportamento, o que parece dar certo e acalentar o coração do leitor, pelo menos até a última prova do torneio, onde a princesa se utiliza de uma trombeta divina para soltar monstros, distrair as irmãs e chegar à coroa primeiro, pensando em ganhar a admiração de sua “pretendente” (coloco entre aspas porque a nuance libidinosa é clara, mas o texto não torna isso um evento, a coisa vai mais para o lado de uma personagem mesquinha tentando “comprar” o carinho de alguém que não gosta dela).

O que vem a seguir é complicado de se aceitar. Por mais que o leitor tenha, até aquele momento, se encantado com a bela arte aquarelada de Jill Thompson, toda cheia de detalhes nas vestimentas (com cores específicas para cada Amazona, dependendo de sua posição naquela sociedade), músculos e expressões, cidade, criaturas e deuses; a derrocada desta Diana é dolorosa.

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As várias Dianas.

É mais difícil ainda aceitar que a versão que temos em nosso mundo de uma salvadora é, na verdade, alguém tentando expurgar algo terrível feito em sua terra natal. Ainda bem que a história termina na chegada da personagem ao mundo dos homens e toda a carga que isso representa para ela fica apensa como uma sugestão para o leitor. Uma coisa é preciso reconhecer: o roteiro dá todas as ferramentas necessárias para que nós entendamos essa sociedade, seus costumes e quem é (e o que se tornou) a princesa Diana neste Universo. Nem todos irão gostar do que vão ler, porque mexe muito com o imaginário e os conceitos morais que temos da personagem, mas se pararmos para pensar com calma a respeito, apesar do choque, esta resolução tem um princípio válido.

Desafiadora, A Verdadeira Amazona é uma saga que nos convida a ressignificar uma personagem importante dos quadrinhos, mostrando que em algum momento, todos cometeram algum erro e que, com a motivação correta, é possível restaurar a confiança dos que foram afetados negativamente e trilhar um caminho distinto, após ter “pagado pelos seus erros”. Claro que este exercício de revisão não é simples. Contudo, apesar do gosto amargo que deixa, é possível surgir, em algum momento, um encanto por esta corajosa versão de Jill Thompson para a Mulher-Maravilha que, a rigor, não é a “verdadeira amazona”. Ela apenas quer substituir uma.

Mulher-Maravilha: A Verdadeira Amazona (Wonder Woman: The True Amazon) — EUA, novembro de 2016
Roteiro: Jill Thompson
Arte: Jill Thompson
Letras: Jason Arthur
Editoria: Jim Chadwick, Jessica Chen
126 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.