Crítica | Mulher-Maravilha (Com Spoilers)

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estrelas 4

  • Leiam, aqui, a crítica sem spoilers e, aqui, o Entenda Melhor com referências e easter-eggs do filme.

O filme solo da Mulher-Maravilha carrega pelo menos três ônus nas costas que aumentam sobremaneira e talvez injustamente sua responsabilidade de ser mais do que precisava ser: é o primeiro longa da mais importante super-heroína dos quadrinhos; é apenas o segundo longa de super-heróis a ser dirigido por uma mulher (e de longe o de maior orçamento) e, talvez mais importante ainda, é a derradeira chance da Warner/DC mostrar que seu Universo Cinematográfico pode funcionar além do confinamento sombrio e não muito inspirado a que ficou restrito até agora. Em outras palavras, há muito em jogo em cima do sucesso de bilheteria e de crítica do filme, mais do que é normal se esperar de uma obra assim.

Além disso, depois do massacre crítico a que foram sujeitos Batman vs Superman e Esquadrão Suicida, os fãs da DC precisavam de algo que levantasse sua moral e auto-estima, combalidas ao ponto de cozinharem as mais estapafúrdias teorias da conspiração anti-DC e pró-Marvel possíveis, como se os críticos cinematográficos fossem a Legião do Mal, sempre minando a Liga da Justiça. E, antes que esses mesmos fãs venham com pedras na mão em razão dessa minha afirmação, apenas olhem em volta e relembrem o furor raivoso com que muitos lidaram com os comentários maciçamente negativos, mesmo quando o crítico era cuidadoso ao abordar primordialmente os aspectos técnicos das citadas obras. A reação enfurecida que descartava o valor dos críticos é, agora, exatamente o contrário (já que a obra foi bem recebida pela crítica), com um amor nunca antes demonstrado pelos mesmos críticos que há meses eram monstros insensíveis e incompetentes, o que só comprova a necessidade que muitos têm de ter sua opinião validada de uma forma ou de outra e a incapacidade de muitos em aceitar, civilizadamente, opiniões contrárias às suas.

Então, foi debaixo desse fogo cruzado intenso e dessa enorme responsabilidade que Mulher-Maravilha estreia mundialmente e, felizmente, em grande parte, o trabalho de Patty Jenkins consegue cumprir suas tarefas com louvor. Se havia dúvidas sobre Gal Gadot como a personagem-título, elas já haviam sido dissipadas em BvS e, agora, são completamente obliteradas. Se havia alguma dúvida sobre a competência de Jenkins por ela ser razoavelmente inexperiente, com apenas um (ótimo) longa no currículo, ela é soterrada aqui. Se havia trepidação sobre mais um filme do Universo Estendido DC perdido em suas ambições inalcançáveis, não há nada a temer. Mulher-Maravilha é o filme que, se não veio trazer um sopro de novidade, definitivamente veio mostrar que uma super-heroína pode carregar seu próprio filme solo facilmente nas mesmas costas que carregam as responsabilidades mencionadas.

A luz

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Mulher-Maravilha é um filme de origem, não há como fugir disso. E, aqui, o roteiro de Allan Heinberg, baseado em argumento dele mesmo e também de Zack Snyder e Jason Fuchs, nos apresenta à Temiscira e às amazonas de maneira irretocável, bebendo da mitologia original da criação de William Moulton Marston, como Diana ter sido “feita” de barro, algo que sua mãe Hipólita (Connie Nielsen), a rainha, diz para ela para evitar abordar elemento que só foi introduzido nos quadrinhos mais recentemente, que transformaram Diana em filha de Zeus nos sensacionais arcos de Brian Azzarello durante os Novos 52. Vemos um paraíso imaculado, povoado unicamente por mulheres vivendo em paz, mas treinando para a guerra. A pequena Diana (Lilly Aspell), deslumbrada com seus pares adultos, quer porque quer ser treinada como guerreira, mas sua mãe a impede, ainda que sua tia, a general Antíope (Robin Wright) desobedeça as ordens e a treine de toda forma.

E, na medida em que já aprendemos sobre o espírito inocente, mas valente da futura Mulher-Maravilha, aprendemos sobre a origem das amazonas por intermédio de um artifício narrativo inteligente que disfarça o didatismo como uma história de ninar para o futuro terceiro vértice da Santíssima Trindade da DC. É assim que somos introduzidos, pela primeira vez, ao conceito dos deuses do Olimpo e da fúria de Ares, o deus da guerra, que acaba com seus pares, sendo derrotado por Zeus que, mortalmente ferido, cria Temiscira, uma ilha protegida do mundo, e as Amazonas como uma forma de manter o vilão em xeque. O que é interessante é notar que, ao mesmo tempo que esse breve momento entre mãe e filha serve para educar o espectador sobre o que seria mostrado ao final da projeção, ele também funciona como uma forma de trabalhar a percepção de mundo por Diana.

Se Temiscira é uma ilha protegida do olhar externo, Diana é uma joia super-protegida por sua mãe, conhecedora, claro, de sua herança genética como filha de Zeus. Ela quer manter sua filha como uma ilha dentro de uma ilha e o resultado disso é uma pureza e uma inocência que são carregadas para Diana adulta, já na forma de Gal Gadot, que interpreta o mundo de maneira literal, sempre lidando com absolutos, sem gradações. Essa forma típica da juventude de percepção de mundo é trabalhada maravilhosamente bem por Gadot, que mantém seu ar de deslumbre com tudo o que vê, com tudo o que aprende, com tudo o que descobre. Ela é a encarnação da pureza e da inocência, da luz mesmo, que nos encanta imediatamente naquele paraíso secreto.

Mas o paraíso está perdido – ou quase – e essa pureza e inocência são ameaçadas com a chegada do espião americano Steve Trevor (Chris Pine), que despenca dos céus na costa da ilha e é salvo por Diana somente para que ela descubra a violência e a morte que o Homem traz consigo: um batalhão alemão, que perseguia Steve, invade Temiscira e, no processo, Diana aprende sobre a morte, sobre a valentia de um estranho e sobre o que ela nasceu para fazer. Com sua tia morta e com a revelação de que o mundo está em guerra, Diana não titubeia em enfrentar sua mãe e, armada com a espada Matadora de Deuses, um escudo, o laço da verdade e uma armadura cerimonial, além da tiara com o símbolo de Antíope, ela parte para o mundo dos homens para achar e matar Ares, que ela tem certeza é o responsável por todo o caos em que as nações se encontravam. A equação é simples: se Ares é o deus da guerra, responsável pela queda dos deuses do Olimpo, então sua morte eliminaria a guerra.

É por isso que é importante entender de verdade a forma insular como Diana foi criada em sua ilha e como o roteiro trabalha bem esse aspecto. Ela não é como as outras amazonas, que viveram a grande guerra liderada por Hipólita. Ela é escudada do conhecimento duro e cru e conhece o mundo em tese, levando a mitologia ao pé da letra. O raciocínio “infantil” que ela tem sobre Ares é a forma pura de se encarar uma situação impossível e isso não retira da personagem sua inteligência e muito menos sua bravura. O filme é, acima de tudo, afinal de contas, a história da perda da inocência de uma jovem mulher que, por acaso, é a Mulher-Maravilha.

Patty Jenkins já mostra personalidade aqui, nesse crucial terço inicial. Ela sabe exatamente o que precisa mostrar e o que precisa esconder, mas nunca trata o espectador como bobalhão, como alguém que nunca tenha ouvido falar da heroina. Sua montagem é delicada, calma, sem arroubos frenéticos mesmo quando lida com a excelente sequência da invasão da ilha. Ao lidar com a ação e com a violência, ela sabe igualmente esconder o que precisa para garantir a universalidade da fita, sem mascarar os horrores da guerra a partir das feições de Diana lidando com um dilúvio de novas informações. O uso da câmera lenta, algo que Jenkins herda de Zack Snyder, não tenho dúvida, é também reservado para os momentos de pancadaria e, mesmo assim, aqueles envolvendo as amazonas. São momentos cirúrgicos que valorizam as sequências e, em sua grande maioria, têm propósito narrativo, como quando vemos – pelo olho de Diana – a morte da primeira amazona.

A paleta de cores da exuberante fotografia de Matthew Jensen (mais conhecido por seu trabalho na TV, mas que foi o responsável pela fotografia de Poder Sem Limites e do mais recente Quarteto Fantástico) é um colírio para olhos que esperavam o peso das escolhas sombrias e azuladas de Snyder. Mas, também, há uma funcionalidade nas cores claras – mas nunca fortes – usadas por Jensen, que é criar o forte contraste funcional com o mergulho na escuridão que Jenkins faz aqui. Na medida em que Diana entra cada vez mais em contato com o mundo real, menos cores, menos claridade o filme passa a ter, em uma escolha óbvia, mas mesmo assim sábia da manipulação da temperatura da projeção que usa a fotografia para comentar estados de espírito, mais do que para apenas emprestar um duvidoso elemento “autoral”.

As sombras

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O par criado imediatamente por Diana e Steve ainda na Ilha Paraíso (a ilha nunca é chamada assim e a Mulher-Maravilha também é sempre somente Diana, mas não há mal algum em tomar essa liberdade, não é mesmo?) é de se aplaudir. Gadot e Pine têm química instantânea e não só porque os dois são jovens e bonitos, mas sim porque eles compartilham uma entrega a seus respectivos personagens. A Diana de Gadot é a inocência pura que deseja mais do que tudo aprender sobre o mundo e Pine é a experiência mundana que deseja mais do que tudo a inocência de Temiscira. São, de certa forma, os proverbiais opostos que se atraem e a atração, aqui, é natural e bem abordada – sem pressa – por Jenkins, ao ponto de certa forma causar genuína tristeza a morte de Steve ao final, ainda que fosse algo realmente necessário dentro da mitologia estabelecida no Universo Estendido DC.

Quando eles partem da ilha para o mundo dos homens, a viagem de descoberta da jovem Diana realmente começa. Sem a proteção de seus pares, ela, agora, precisa viver sua vida independente e, no processo, lidar com o bombardeio sensorial que é esse universo fora do escudo mascarador de Zeus (foi só eu, ou a magia usada ali poderia justificar a existência do ridiculamente mítico “avião invisível” em futura continuação?). Agora, Diana é “apenas” uma mulher em um mundo comandado pelos homens. Um mundo feio, destruído e em constante conflito. Nesse ponto, o roteiro de Heinberg mais do que acerta novamente ao introduzir de vez os elementos cômicos, algo que já havia sido usado nas sequências da “banheira” e do barco entre Steve e Diana. A introdução da simpática Etta (Lucy Davis) na história ajuda bastante nas de certa forma batidas, mas bem utilizadas cenas de escolha de “roupas adequadas” para a guerreira amazona, com uma bem vinda piscadela para a clássica série setentista estrelando Lynda Carter, seguida de uma cena em um beco de Londres que perfeitamente recria sequência equivalente em Superman – O Filme, de Richard Donner. É o legado sendo usado de forma inteligente e não intrusiva para contar uma história.

É em Londres que a história, então, ganha seus contornos finais: Steve e Diana têm suas ideias negadas e eles são proibidos de fazer qualquer coisa contra a Alemanha que possa ameaçar ao armistício. Mesmo com a ajuda de Sir Patrick (David Thewlis), que faz jogo duplo (triplo, pois ele é Ares, claro) como defensor da paz e patrocinador do grupo montado por Trevor, a missão é impossível: ir até uma base alemã atrás das linhas e destruir o gás criado pela Doutora Maura ou Doutora Veneno (Elena Anaya), a mando do beligerante General Ludendorff (Danny Huston).

Nesses aspectos – no grupo de Trevor e nos dois vilões – vemos os primeiros problemas da fita, ainda que eles de certa forma sejam mitigados pelo foco constante em Diana, que agora é “Prince”. Jenkins, ainda mantendo um passo cadenciado e paciente, emprega muito tempo na introdução do otomano Sameer (Said Taghmaoui), do irlandês Charlie (Ewen Bremner) e do nativo americano Chefe (Eugene Brave Rock) dando a entender que eles serão importantes na narrativa. No entanto, ainda que eles funcionem aqui e ali como alívios cômicos e comentário social (o massacre dos indígenas é abordado rapidamente como parte do aprendizado de Diana), eles são, em conjunto ou separadamente, desperdiçados completamente na história. Imaginem o mesmo filme sem esses três personagens e pensem o que mudaria de verdade. A resposta será muito provavelmente um grande “nada” e o colorido que eles agregam não justifica a metragem de celuloide empregada para eles.

No caso dos dois vilões – a Doutora Veneno e o General Ludendorff – eles são rasos como o proverbial pires, praticamente caricaturas vilanescas que são tratados de maneira derivativa pelo roteiro. A Doutora Veneno não tem praticamente função alguma, pois teria sido bem mais honesto simplesmente usar cientistas genéricos de jaleco branco para criar os gases que ela cria. Sua presença na história, assim como os amigos de Trevor, é o equivalente a uma figuração de luxo. Ludendorff, por outro lado, funciona como uma tentativa válida, mas mal executada, de se desviar a atenção sobre a verdadeira identidade de Ares. Jenkins erra ao pesar demais no uso estilo “vilão de James Bond” de Huston, que, talvez consciente de seu papel caricatural, atua como uma panache quase hilária. Por outro lado, ela acerta ao lidar com David Thewlis e seu Ares quando ele é revelado a Diana finalmente na torre da fábrica de gás venenoso (mais sobre isso adiante).

Mas nada tira o brilho da escolha da Primeira Guerra Mundial como pano de fundo para a ação. Ainda que a Mulher-Maravilha dos quadrinhos tenha sido criada durante a Segunda Guerra e que sua famosa série de TV tenha toda a primeira temporada passada durante esse conflito, a lógica do uso do primeiro conflito mundial é perfeita. Não só é o primeiro grande momento destrutivo da História da Humanidade, o que combina com a suspeita inocente de Diana sobre Ares, como também permite o uso da guerra química e de cavalos, o primeiro elemento ajudando a sacramentar o horror da guerra e, o segundo, a permitir uma transição suave – ou quase – entre o que Diana conhece e o que ela tem à disposição nesse novo mundo.

E é nesse cenário de destruição, em plena Terra de Ninguém, que o mais importante momento da obra de Patty Jenkins acontece: o nascimento de uma super-heroína. Poucos momentos em filmes de origem de super-heróis foram tão eficientes em encapsular essa gênese quanto na belíssima sequência da trincheira em que Diana se transforma em Mulher-Maravilha ao largar seu manto, subir a escada e, sozinha, enfrentar o inimigo. Em termos comparativos, seria perfeitamente possível parear o poder dessa sequência com a primeira aparição pública do Superman no filme de Richard Donner, em que o herói salva Lois Lane do helicóptero ou quando Tony Stark sai da caverna com sua Mark I em Homem de Ferro. Falo, aqui, não necessariamente de fidelidade ao material fonte, mas sim de fidelidade espiritual a tudo que os quadrinhos clássicos representam. Diana, de vermelho, dourado e azul, armada apenas de um escudo e uma espada, além de seus braceletes, não titubeia em desviar de sua missão principal e mergulhar de cabeça em um conflito que não é seu, mas que é sim seu. Essa é a essência do herói. E ela está toda aqui, nesses breves minutos que continuam na também ótima sequência de retomada do vilarejo.

A paleta de cores amarela e dourada de Jensen dá lugar, então, ao azul predominantemente, respeitando o horror da guerra que até emudece a vitalidade da armadura de Diana, mas não sua determinação. Vemos um exemplo evidente da funcionalidade da fotografia sombria que pontuei mais acima. O escurecimento é inversamente proporcional à claridade de pensamento de Diana. Quando mais a ela é revelado, menos cor o filme passa a ter, o que evita que sombrio seja sinônimo de “escuro”, como muitos tendem a confundir por aí.

A escuridão

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No terceiro ato, depois que a relação entre Diana e Steve chega a seu ponto algo de forma elegante e discreta, singela mesmo, Patty Jenkins começa a perder o controle de seu filme, colocando-o nos trilhos do convencional e, pior, do genérico. O primeiro sinal disso é a forma como o bombardeio do vilarejo com o gás experimental da Doutora Veneno é tratado. Uma fumaça laranja, um (apenas um) corpo no chão e uma Diana desnorteada, mas não tanto. Tudo aquilo que fora encapsulado na sequência da trincheira se perde aqui.

Mas há uma recuperação de fôlego depois que ela finalmente liquida o general alemão, na certeza de que ele é Ares. Sua frustração vendo que nada mudou logo abre espaço para o surgimento de seu verdadeiro nêmesis, o até então tão solícito e simpático Sir Patrick. O uso das janelas para separar Diana de Ares durante a conversa que eles têm foi uma boa ideia da diretora, que mantém o ar de mistério e ameaça acesos, ainda que, neste ponto, o roteiro de Heinberg exagere no didatismo, não deixando absolutamente nada para dedução do espectador. Essa mania de explicar o óbvio em detalhes excruciantes subestima o público e arrasta o filme que já é longo e cuja duração começa a ser sentida a partir deste ponto.

Diana não precisava que ninguém desenhasse para ela o que está acontecendo, que a lenda de Ares como sendo o único responsável pelas mazelas da humanidade é só isso mesmo: algo conveniente para ser contado por uma mãe super-protetora para sua filha querida. Se consideramos o crescimento da personagem até o ponto em que Ares finalmente se revela, o texto expositivo de Heinberg chega a ser um insulto à inteligência dela e, por tabela, a nossa.

Mas a grande verdade é que estes dois pontos que levantei acima nem são as maiores fraquezas do terceiro ato. O maior pecado do roteiro e da execução de Jenkins é a luta pasteurizada final entre a Mulher-Maravilha e Ares com sua armadura dos quadrinhos. Aqui, a estrutura aventuresca e jovial do filme cede espaço para uma pancadaria entre deuses que simplesmente não combina com tudo o que veio antes. Sim, há uma circularidade lógica nos eventos, mas a forma como o roteiro lida com Ares e o liquida em questão de minutos com explosões, veículos sendo arremessados e um “raio” mágico tirado completamente da cartola coloca o filme perigosamente no território do genérico, do apressado e do formulaico. Não que o resto da estrutura do roteiro não acompanhe a estrutura de outros filmes de origem de super-heróis, pois acompanha em detalhes, sem realmente apresentar nada de novo neste termos. No entanto, Jenkins havia, até aqui, sido bem sucedida em transformar o óbvio, o clichê em um espetáculo para os sentidos, em uma injeção de ânimo no subgênero dos filmes de super-herói que também deve muito à enérgica e mais do que convincente atuação de Gal Gadot.

No entanto, quando tudo ao final se resume a uma escuridão quase que total com troca de socos titânicos em uma montagem abrupta, com planos de milissegundos e uma resolução do tipo “acabou seu tempo, acaba isso aí” embebida em CGI que deixa a desejar, vemos o filme da produtora tomando de assalto o filme da diretora. Vemos o discreto toque pessoal perder força e a linha de produção entrar de sola, subestimando um vilão razoavelmente bem construído e, pior, subestimando a fantástica heroína que a fita estabelece.

Como se isso não bastasse, o roteiro não resiste e dá a Steve Trevor um espaço que ele não precisava ter. Calma que eu explico. A escolha estrutural de Jenkins, nesse tumultuado final é entregar dois finais sucessivos, o primeiro em relação à Trevor e, o segundo, ao conflito divino. Ainda que não houvesse outra solução que não a morte do personagem, ela toma uma enorme porção deste final, quase que efetivamente repartindo o tempo entre ele e Diana. E o filme é de Diana. É, afinal de contas, o primeiro filme solo de uma super-heroína. Os holofotes precisavam estar nela e não – mesmo que momentaneamente – na história secundária. A montagem sucessiva chega a quase criminosamente dar a entender que a Mulher-Maravilha só é o que é em função de Trevor.

A odisseia continua

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Apesar dos pesares, Mulher-Maravilha é o filme que Warner/DC precisava e que os fãs ansiavam e é quase o filme que a septuagenária heroína merecia. Ele estabelece um vislumbre de caminho a ser seguido se o Universo Estendido DC efetivamente quiser desvencilhar-se da pegada equivocada que teve até agora, que correu demasiadamente para criar algo compartilhado que mais parece uma colcha de retalhos costurada de olhos fechados.

Na mesma linha, a mitologia construída aqui, com calma e compassadamente – de certa forma espelhando o filme de origem que vimos em O Homem de Aço – engrandece o todo ao mesmo tempo que dá um passado e uma dimensão aos heróis da DC no cinema. Patty Jenkins e Gal Gadot pavimentam um futuro potencialmente brilhante, mas que, para chegar lá, a produtora precisa de paciência e determinação, evitando agir no afogadilho ou apostando apenas no nome de seus queridos personagens ou no taco de cineastas estabelecidos.

Mulher-Maravilha (Wonder Woman) — EUA, 2017
Direção: Patty Jenkins
Roteiro: Allan Heinberg (baseado em argumento de Zack Snyder, Allan Heinberg e Jason Fuchs)
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Connie Nielsen, Robin Wright, Danny Huston, David Thewlis, Said Taghmaoui, Ewen Bremner, Eugene Brave Rock, Lucy Davis, Elena Anaya, Lilly Aspell, Lisa Loven Kongsli, Emily Carey
Duração: 141 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.