Crítica | Mulher-Maravilha: Deuses e Mortais (1987)

estrelas 4,5

Após a Crise nas Infinitas Terras (1985 – 1986), a DC Comics deu início à “Era Moderna” de seus personagens, recontando as histórias de origem já nesse “Novo Universo”. A Trindade continuou sendo o carro-chefe da editora e duas dessas três partes conheceram o início de fases imensamente bem recebidas pelo público e pela crítica, como Superman de John Byrne (Coração de Aço) e a Mulher Maravilha de George Pérez (Deuses e Mortais). O Batman teve pelo menos um excelente ponto de recontagem, realizado por Frank Miller (Ano Um), mas diferente de seus outros grandes companheiros de editora, não teve propriamente dito uma “Grande Era” como herança da Crise.

Nesse ínterim a DC definiu Janice Race como editora do novo título da Mulher Maravilha e foi com ela que o escritor Greg Potter passou meses trabalhando, buscando novos conceitos para o título vindouro. Com a chegada de Pérez ao time criativo — ele seria desenhista e argumentista, mas os diálogos (o roteiro, propriamente dito) ficaria nas mãos de Potter, que escreveu as duas primeiras edições de Deuses e Mortais, passando a bola para Len Wein, que seguiu até o final do arco –, as discussões caminharam para uma aproximação maior com a mitologia grega, tom que serviu, inclusive, para moldar o inimigo principal da Mulher-Maravilha já em sua primeira aventura: Ares, o deus da guerra.

Janice Race não chegou a editorar nenhuma versão pronta das Amazonas neste reboot. Ela foi substituída por Karen Berger, que ficaria no cargo até a edição #24, mas voltaria depois, acompanhada de algum outro editor ou passando dois ou três números novamente sozinha.

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Monte Olimpo, 1.200 a.C.: os deuses discutem a criação de uma nova raça.

A história começa com algo que pode parecer “solto e sem sentido” para leitores mais desatentos, mas que terá enorme importância na narrativa. 30.000 a.C. Um homem das cavernas é expulso de sua tribo por ter perdido uma mão. Ele encontra um abrigo onde vive uma mulher, grávida, que lhe oferece alguma simpatia. Ele a mata violentamente. A alma da mulher e da criança são salvas pelos deuses e, milênios depois, é utilizada, no meio de tantas outras, para dar vida às Amazonas, nascidas de almas de mulheres que foram mortas de forma violenta por homens.

O conceito por trás da criação das Amazonas é imensamente interessante. Pérez e Potter fizeram um excelente trabalho ao dar voz e personalidade aos principais deuses, semi-deuses e criaturas mitológicas, todos com um um papel e uma opinião diferente sobre o que deveria ser a “nova raça” que habitaria entre os humanos. E qual o propósito de sua criação. Neste ponto, também é preciso muita atenção para que não se caia na armadilha de que Ares resolveu “do nada” destruir a humanidade e se opôs violentamente contra as Amazonas. Percebam que logo no início da história ele já quer descer entre os homens e semear a guerra e a destruição, enquanto os outros deuses querem criar uma raça que serviria tanto para melhorar a convivência entre os homens quanto para guiar-lhes para o caminho da sabedoria e da adoração aos deuses. Esse ponto crítico também é notável: a existência e dependência dos deuses em relação aos seus adoradores.

Fortemente influenciado pelas ilusões artísticas do holandês Maurits Cornelis Escher, Pérez desenhou o Olimpo de maneira muito peculiar, sem noção daquilo que é “em cima” ou “em baixo”. É possível ver também sua proximidade com modelos arquitetônicos da Grécia clássica, com colunas dóricas, jônicas e coríntias, misturadas com modelos modernos. Isso serve de leve contraste para com a ilha de Themyscira e de grande contraste para com a arquitetura da segunda metade do século XX, para onde Diana é enviada a fim de encontrar o núcleo de ação de Ares na Terra e impedir que a ação do deus da guerra fosse executada, condenando tanto o mundo dos homens quanto o mundo dos deuses à absoluta decadência. Há também um inteligente compasso de leitura, com diagramação plural em todas as edições, uso de distintas separações em quadros/página e alguns elementos surreais, algo que a finalização de Bruce D. Patterson e as cores sóbrias e muito bem escolhidas de Tatjana Wood deixaram ainda melhores.

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Ares, o deus da guerra, é envolvido pelo Laço da Verdade.

Os conflitos entre os deuses e a difícil relação de Diana com a Rainha Hipólita (não de maneira hostil, mas com limitações e ordens que prendem o espírito livre da princesa, um claro “conflito de gerações”) garantem plena atenção do leitor, que não tem um único momento menor no texto, especialmente após Len Wein assumir o posto, na edição #3. Ele é o principal responsável pela interação orgânica entre a Ilha Paraíso e a terra dos homens, dando uma boa noção para o público de como o ódio humano, a violência e especialmente a guerra conseguiram se unir aos anseios de Ares e estenderem um terreno muito fértil para que o deus seguisse com a sua preparação de destruição. Esta, porém, não é o única relação que fazemos. Noções de hierarquia, divisão de tarefas, libido, ciúmes e traços amorosos também fazem parte deste mundo, com exemplos trágicos de perdas, separações e inimizades que formam, inclusive, o time de deuses apoiadores das Amazonas na guerra contra Ares, um deus bastante odiado por sua comunidade.

O final da história, com a “tomada de consciência” do deus da guerra e posteriormente, a primeira aparição da terceira Mulher-Leopardo ou Cheetah III* (a inescrupulosa arqueóloga Barbara Ann Minerva, que será a inimiga da aventura seguinte) são pequenas rusgas — a primeira, por parecer “simples” demais para Ares mudar assim de opinião, mesmo com o Laço da Verdade; e a segunda, pela quebra de tom narrativo — no meio de tantas boas performances do texto e da arte. Deuses e Mortais é uma história capaz de fazer qualquer leitor olhar a Mulher Maravilha e seu universo mitológico de maneira completamente diferente. Não é à toa que figura entre os melhores começos de série (e de Eras) para grandes heróis de toda a existência da DC Comics.

* As mulheres que vestiram o manto da Mulher-Leopardo antes de Barbara Ann Minerva foram Priscilla Rich (Wonder Woman #6, de 1943, criada por William Moulton Marston e H.G. Peter) e Deborah Domaine (Wonder Woman #274, de 1980, criada por Gerry Conway e José Delbo).

Mulher Maravilha: Deuses e Mortais (Wonder Woman Vol.2 #1 – 7: Gods and Mortals) — EUA, fevereiro a agosto de 1987
No Brasil: Biblioteca DC – Mulher-Maravilha: Deuses e Mortais (Panini, 2008)
Roteiro: Greg Potter, George Pérez (#1 e 2) / Len Wein, George Pérez (#3 – 7)
Arte: George Pérez
Arte-final: Bruce D. Patterson
Cores: Tatjana Wood
Letras: John Costanza
Capas: George Pérez
Editoria: Karen Berger

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.