Crítica | Mulher-Maravilha: Hiketeia

estrelas 4,5

Hiketeia é uma graphic novel da Mulher-Maravilha originalmente lançada em 2002 em formato capa dura nos EUA e que marcou a primeira vez que Greg Rucka esteve à frente da heroína, um ano antes de assumir a revista mensal dela por três anos (a partir da edição #195 do Vol. 2). E não poderia haver melhor introdução de uma forma de encarar tão icônica personagem do que Rucka faz aqui, já que ele trabalha com a percepção do leitor sobre a Mulher-Maravilha em uma história introspectiva, econômica em ação, mas rica em discussões.

Sem maiores delongas, o autor nos apresenta à “hiketeia”, que seria um juramento grego de honra milenar em que o suplicante (aquele que precisa de ajuda) jura submissão ao suplicado em troca de proteção. Danielle Wellys é uma jovem que, depois de matar alguns bandidos, é perseguida por ninguém menos do que o Batman, o que a leva a recorrer à Mulher-Maravilha por proteção, iniciando o ritual de “hiketeia”. E, então, Greg Rucka faz a pergunta: um juramento desses, que liga tão fortemente suplicante ao suplicado, deveria ser absoluto e passar por cima da justiça comum?

Não se trata, aqui, de interpretações diferentes do que é Justiça, como já vi alguns comentarem sobre a obra de Rucka. Tanto o Batman quanto a Mulher-Maravilha, a partir de seus próprios métodos, acreditam no mesmo tipo de Justiça. Batman quer levar Danielle para ser julgada assim como Diana faria com a jovem se soubesse de sua existência antes do juramento. Afinal, ela fez justiça com as próprias mãos, assassinando homens de um tenebroso círculo de exploração sexual que haviam sido responsáveis pela morte de sua irmã mais nova.

mulher_maravilha_hiketeia_capa_plano_criticoComo observadoras desse juramento, há as Erínias (ou Fúrias), que penalizam a parte de desobedecer o trato, deixando muito claro que a hiketeia é sobre o suplicado (no caso, a Mulher-Maravilha) muito mais do que é sobre o suplicante, pois há que haver uma resistência psicológica forte para deixar de fazer o que é legalmente correto para fazer aquilo que é moralmente correto. A situação coloca a heroína literalmente entre a cruz e a caldeirinha e ela sofre tentando equilibrar os dois lados, tentando não julgar e ao mesmo tempo esperando franqueza de Danielle, algo que demora a vir. Afinal, o que Danielle pede é que ela enfrente o Batman, alguém que Diana sabe que normalmente está sempre do lado correto de um embate e que, no frigir dos ovos, é seu amigo ou, pelo menos, um colega de trabalho de longa data.

E o autor constrói sua graphic novel como uma tragédia grega clássica, usando as Erínias como uma versão do coral que comenta a história para nós, leitores. Claro, ele faz com que os seres mitológicos também interfiram na narrativa, especialmente no final, mas o fato é que, estruturalmente, estamos diante de algo que poderia ser visto como algo que Sófocles escreveria hoje, se fosse autor de quadrinhos de super-heróis. E quem espera lutas homéricas entre os dois heróis, não as encontrará aqui. Sim, há o famoso momento – usado até na capa – em que a Mulher-Maravilha coloca Batman debaixo da sola de sua bota vermelha, mas o foco não é esse o que acontece depois dessa sequência é ainda mais importante, com Batman tentando usar a hiketeia a seu favor.

O que fica quando a leitura acaba é o dilema, a dúvida e a forma como a Mulher-Maravilha lida com uma situação impossível. Ela não pode quebrar o juramento – e não porque haja consequências para ela, mas sim simplesmente porque ela fez o juramento – , mas ela sabe que Danielle deveria ir à Justiça. De certa forma, Batman também não pode quebrar seu juramento de levar vilões à Justiça, mesmo entendendo a hiketeia. Aqui, os super-heróis quase que se anulam e, lógico, com isso, as atenções precisam voltar-se à Danielle, a única que efetivamente pode resolver a questão.

A arte de J.G. Jones é inspirada e consegue a façanha de contar a história sem muito auxílio dos balões de texto de Rucka. Ele trabalha páginas sem a diagramação convencional, justapondo quadros de maneira dinâmica, mas nunca confusa, que permitem um grande aproveitamento narrativo. Ele raramente faz uso de splash pages, preferindo um tratamento menos explosivo e mais intimista que combina com a história. Em termos anatômicos, ele explora as curvas da Mulher-Maravilha e às vezes exagera nas poses e nos volumes, mas isso só é realmente mais saliente quando Diana está em trajes civis. Quando ela está em seu uniforme de Mulher-Maravilha, esses leves problemas desparacem. Há, também, um trabalho muito rico de preenchimento de espaços de segundo e terceiro planos, com uma bela distribuição de elementos e personagens de fundo em cada quadro e, por sua vez, os quadros em cada página. A finalização de Wade von Grawbadger empresta um verniz mitológico para a heroína e as cores de Dave Stewart acentuam o dilema, equilibrando muito bem a luz da presença de Diana com a escuridão representada pelas Eríneas e pelo “beco sem saída” da situação em si.

Hiketeia é um excelente exemplar do que se pode fazer com quadrinhos de super-heróis mainstream sem que seja necessário recorrer a pancadarias incessantes. Trata-se de uma história que gera discussões prolíficas e que sabe justificar bem os dois lados do conflito. Greg Rucka não poderia ter começado de forma mais brilhante sua jornada à frente da guerreira amazona.

Mulher-Maravilha: Hiketeia (Wonder Woman: The Hiketeia, EUA – 2002)
Roteiro: Greg Rucka
Arte: J.G. Jones
Arte-final: Wade von Grawbadger
Cores: Dave Stewart
Letras: Todd Klein
Editora original: DC Comics
Data original de publicação: junho de 2002
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: janeiro de 2003
Páginas: 100

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.