Crítica | Mulher-Maravilha: Terra Um – Volume Um

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estrelas 5,0

A coleção de graphic novels da série Terra Um, da DC Comics, procura reimaginar seus heróis clássicos, dando-lhes novas origens e abordando seus respectivos começo de carreira. No entanto, com exceção dos dois volumes dedicados ao Batman, capitaneados por Geoff Johns, a coleção vinha falhando em trazer algo consistentemente bom, mesmo considerando os volumes de Superman por J. Michael Straczynski e os dos Jovens Titãs, por Jeff Lemire.

Mas Grant Morrison vem quebrar essa maldição, fazendo dupla com Yanick Paquette na arte para recontar a origem da Mulher-Maravilha. Quem conhece Morrison, sabe a tendência que esse grande escritor tem de revolucionar os personagens que escreve, emprestando toques filosóficos e metalinguísticos como o que ele fez com o Homem-Animal e com Batman. Mas, não é o que ele faz aqui. Sua pegada em Mulher-Maravilha é mais convencional, na falta de um adjetivo melhor, mas não menos interessante ou cativante. Ele pega o símbolo que a personagem se tornou ao longo de suas quase oito décadas de existência, coloca toda sua iconografia no liquidificador e derrama uma história de origem que respeita o clássico, volta a temáticas do começo de carreira dela e a apresenta para uma nova geração.

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Com algumas modificações aqui e ali – basicamente na gênese biológica da Mulher-Maravilha e na etnia de Steve Trevor – a história poderia muito bem ser da continuidade comum da heroína e não um Elseworlds como é o propósito da série Terra Um. A proposta é voltar lá para a década de 40, quando Charles Moulton (William Moulton Marston) criou a heroína e a colocou nas páginas de três publicações em rápida sucessão, e lidar com toda a questão da submissão e emancipação da mulher, com a submissão sendo esquecida muitas vezes por fãs mais novos, por desconhecerem Moulton e sua percepção do papel da mulher na sociedade, algo que, felizmente, transcendeu à sua criação, ganhando pernas próprias e importantíssimas, bem mais do que ele própria imaginava.

Assim, não é sem querer que Morrison, claramente dirigindo a abordagem criativa de Paquette, insere elementos visuais que brincam com a submissão feminina (Moulton era casado com uma mulher que aceitava abertamente que ele tivesse um caso com outra e que, não sem querer, tornou-se modelo para a heroína) e com o sadomasoquismo, com a Mulher-Maravilha por diversas vezes sendo retratada presa por correntes, além do uso provocador de imagens sensuais, que exploram o corpo feminino. Uma leitura perfunctória até poderia levar à conclusão que Morrison e Paquette fazem apologia do que escrevem e desenham aqui, mas isso está longe de ser verdade quando começamos a ver a abordagem feminina que os dois emprestam a todo o volume, com fortes críticas à sociedade patriarcal com os flashbacks para um passado remoto em que as Amazonas foram subjugadas por Hércules e seus homens.

Como uma história de origem, Morrison não deixa nada de fora e lida desde uma era remota pré-Ilha Paraíso, passando pelos ritos de passagem de Diana como a maior guerreira de sua tribo, até seu primeiro contato com um humano que acaba acidentalmente parando por lá e que é resgatado e mantido escondido por ela em uma caverna e sua chegada ao quase mítico – para ela – “mundo dos homens”. Curiosa e heroica, Diana manobra as regras de combate para conseguir acesso ao “avião cisne” de sua adversária, uma versão mais palatável do avião invisível e parte para conhecer o mundo fora daquele ambiente literalmente paradisíaco em que vive, encantando-se com o que ela vê.

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Em termos narrativos, a história é contada com a estrutura de prólogo, com Hipólita e sua subjugação por Hércules e em uma séries de flashbacks a partir da captura de Diana por suas irmãs amazonas que, durante seu julgamento, relata o que viu e fez fora da Ilha Paraíso. Trata-se de uma história tão importante em termos de diálogos como em termos visuais, com um trabalho genial de Paquette em usar transições de quadros a partir da simbologia da amazona, como seu “W” ou o laço da verdade para dividir as páginas. Além disso, mantendo a sensualidade das amazonas e da Mulher-Maravilha, ele retira eventuais musculaturas exageradas, compensando com o tamanho das personagens em relação a seus pares – especialmente os homens – fora de Themiscira, criando um choque visual que realmente funciona muito bem. A eterna sidekick Elizabeth “Etta” Candy tem papel até mais importante do que o de Steve Trevor aqui, como a contra-partida muito humana de uma deusa em partes iguais poderosa e inocente.

E, em meio a isso tudo, Morrison e Paquette estudam a função da personagem dentro e fora da história que é contada, indiretamente lidando com a meta-linguagem e nos mostrando que a Mulher-Maravilha, muito mais do que um instrumento de luta e vingança contra o mundo dos homens, é alguém com o objetivo de criar a ponte entre mundos, entre gêneros. Há, talvez, um excesso de didatismo no final expositivo entre ela e Hipólita na arena em que Diana é julgada, mas a estrutura mais contemplativa de toda a graphic novel favorece esse encerramento que abre caminho, claro, para futuros novos volumes da heroína na Terra Um.

O primeiro volume de Mulher-Maravilha: Terra Um é uma grande história introdutória da heroína que funciona como uma moderna e, ao mesmo tempo, respeitosa forma de novos leitores a conhecerem e de antigos verem uma amálgama que oferece o que há de melhor no universo da heroína. Realmente uma história imperdível.

Mulher-Maravilha: Terra Um – Volume Um (Wonder Woman: Earth One – Volume One, EUA – 2016)
Roteiro: Grant Morrison
Arte: Yanick Paquette
Cores: Nathan Fairbairn
Letras: Todd Klein
Editoria: Eddie Berganza
Editora original: DC Comics
Data original de publicação: abril de 2016
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: dezembro de 2016
Páginas: 130

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.