Crítica | Mulher-Maravilha – Vol. 1: Sangue (Novos 52)

estrelas 4

Terceiro vértice da Santíssima Trindade super-heroística da DC Comics, a Mulher-Maravilha, no alto de seus 73 anos, é uma personagem fascinante nas mãos certas. Criada como uma resposta aos super-heróis masculinos que tomavam de assalto os quadrinhos na década de 30, a Amazona foi imaginada por William Moulton Marston, o inventor do detector de mentiras (que seria a base para o laço mágico da heroína) como um novo tipo de herói, alguém que derrotaria seus inimigos com “amor”. A história bem sabe que a Mulher-Maravilha desenvolveu-se bem mais do que essa premissa simples, ganhando firmeza na mitologia do universo DC e tornando-se um de seus personagens mais importantes, ainda que, em comparação com seus colegas Batman e Superman, extremamente mal-aproveitada em outras mídias.

O tempo passa, a Amazona sobrevive – às vezes por pouco – a diversas reformulações e chegamos, finalmente, aos Novos 52, projeto ousado – ou batido, depende de seu ponto de vista – da editora para recomeçar seu universo do zero. É óbvio que a heroína não podia ficar de fora. Considerando que, apesar das diversas modificações que sofreu ao longo das décadas, dois aspectos mantiveram-se razoavelmente constantes, sua ligação com a Ilha do Paraíso e seu status de filha da Rainha Hipólita, Brian Azzarello (do excelente 100 Balas) embarcou justamente nessa premissa, respeitando substancialmente tudo o que veio antes, mas apimentando a relação entre mãe e filha.

Tudo começa com a misteriosa tentativa de assassinato de uma jovem (Zola) por dois centauros magicamente criados. Hermes, porém, interfere e é ferido, mas não sem antes conseguir com que a jovem seja teletransportada para o apartamento de Diana Prince, em Londres. Não demora e uma batalha entre a Mulher-Maravilha e os monstrengos começa, com vitória da Amazona, claro. Descobre-se que Zola está grávida de ninguém menos do que Zeus e que Zeus está sumido. Hera, por um lado, quer matar a menina e seu nascituro e, por outro, o desaparecimento do deus máximo do panteão grego gera um vácuo de poder cobiçado por todos: Hera, Poseidon, Hades, Apolo e, de certa forma, Ares.

A história não é terrivelmente original – a infidelidade de Zeus é, provavelmente, o aspecto mais lugar-comum de toda a mitologia grega e de todas as obras artísticas baseadas nela – mas Azzarello lida muito bem com isso, criando dinâmicas muito boas entre a heroína e a mortal grávida e entre as duas e Hermes, além de caracterizar Hera, a raivosa mulher traída, de maneira espetacular. Além disso, a viagem à Ilha do Paraíso leva a consequências drásticas depois de uma revelação muito interessante sobre o passado da Rainha Hipólita. A forma como a Mulher-Maravilha lida com o que acontece, porém, poderia ter sido melhor explorada e aprofundada, pois a gravidade do assunto deveria ao menos criar um período de luto para a heroína que, muito ao contrário, salta para a ação ininterrupta quase que como se nada tivesse acontecido. Sim, é bem verdade que o roteiro não poderia perder páginas e páginas remoendo a questão, mas a solução narrativa é simplista demais nesse aspecto.

De toda forma, o trabalho de Azzarello impressiona ao conjugar simplicidade com profundidade dramática e incontáveis menções ao universo mitológico da Amazona. Além disso, o autor empresta um caráter merecidamente épico à aventura de Diana Prince que muito provavelmente dará diversos frutos nos próximos volumes.

E, se o roteiro bem azeitado já não não fosse o suficiente, temos, ainda, a estupenda arte de Cliff Chiang que empresta muito personalidade à Amazona e à Zola sem torná-las meros objetos como vemos em muitas artes de super-heroínas por aí. A Mulher-Maravilha continua usando seu corset vermelho e continua bela, mas vemos uma guerreira, não uma frágil mulher que está li só para fazer marmanjo babar. Mas o grande destaque da arte vai para a originalidade de recriação do panteão de deuses gregos. Cada um é completamente diferente do outro e todos absolutamente originais, ainda que estranhamente consigamos aceitá-los como vindos da mesma origem. Apolo é um negro de olhos brilhantes, uma espécie de antítese para as estátuas gregas de mármore que o representa pelo mundo ocidental. Hera é uma deusa que se veste apenas com uma capa feita de penas de pavão, exalando sensualidade e uma raiva incontida a cada quadro em que ela aparece. Poseidon é uma colossal mistura de seres marinhos e anfíbios. Ares é um senhor bem vestido, com sangue na bainha da calça. E, finalmente, temos Hades, o diabo, representado magnificamente por uma criança com armadura negra e um rosto formado de velas acesas e em processo de derretimento avançado. Extasiante a arte de Mulher-Maravilha.

Mostrando a que veio, o vértice mais esquecido da Trindade da DC é bem capaz de superar seus parceiros em termos narrativos. Mulher-Maravilha por Azzarello mostra a que veio e merece a atenção dos fãs.

Mulher-Maravilha – Vol. 1: Sangue (Wonder Woman – Vol. 1: Blood)
contendo Mulher-Maravilha #1 a 6, de setembro de 2011 a fevereiro de 2012
Roteiro: Brian Azzarello
Arte: Cliff Chiang
Editora: DC Comics
Editora no Brasil: Panini
Páginas: 139

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.