Crítica | Mulher-Maravilha – Vol. 2: Direito de Nascença (Novos 52)

estrelas 5,0

A Mulher-Maravilha sempre foi um dos personagens da DC mais ricos e fascinantes, mas estranhamente pouco explorado em termos da mitologia que vem “embutida” em sua criação, ou seja, sua ligação com a mitologia grega. Com a chegada do projeto Novos 52 e com a contratação do sensacional Brian Azzarello para escrever os roteiros, o mergulho na mitologia aconteceu de verdade, algo que fica comprovado nesse Volume 2: Direito de Nascença.

A jovem engravidada por Zeus, Zola, foi capturada por Hades ao final do volume anterior. Não havia dúvidas que a equipe formada pela Amazona, Hermes e Lennox (esse também um filho bastardo de Zeus e meio-irmão de Diana) desceria ao inferno para trazer a garota de volta, não é mesmo? E, para se prepararem, eles primeiro vão ao encontro de Eros para que ele os leve a Hefesto, deus ferreiro, criador das mais variadas armas, para que ele torne possível a aventura nas entranhas da Terra. Depois de descobrir o destino dos homens que nascem dos ventres das Amazonas (confesso que, aqui, Azzarello exagerou na inocência da moça) e de um arroubo libertário, Diana Prince se acalma e parte para lidar com o diminuto, mas poderosíssimo Hades, equipada de escudo, espada e as pistolas de Eros (que têm o mesmo efeito das flechas mitológicas, em jogada sensacional do roteiro).

A ação é ininterrupta e bem construída. É linear, mas nem por isso deixa de ser inteligente e engajante ao nos levar ao inferno e, ato contínuo, ao paraíso, ou, mais precisamente, ao topo do Monte Olimpo, onde o grupo precisa enfrentar Hera, Apolo e Ártemis ainda. Isso mostra que um roteirista não precisa ficar inventando moda, com vilões literalmente tirados da cartola, para trabalhar de maneira original um personagem clássico. Basta voltar à fonte, à origem e empregar sua criatividade reinventando conceitos e utilizando-os em narrativa que soma ação com mistério e reviravoltas.

No entanto, o trabalho de Azzarello não seria tão sensacional não fosse sua narrativa casada com os quase inacreditáveis visuais criados por Cliff Chiang na arte.

Já comentei esse aspecto em minha crítica do volume anterior, mas nunca é demais enfatizar: o que o artista faz aqui é fenomenal em termos de caracterização não só da Mulher Maravilha e Zola, como também e especialmente dos deuses do Olimpo. Chiang retrabalhou o clássico uniforme da heroína, trocando o dourado pelo prateado e tornando o vermelho mais mudo, emprestando mais sobriedade à heroína, reduzindo o apelo às curvas – mas sem deixar de mostrá-la de forma sexy – e trazendo-a para níveis mais palatáveis de poder que, claro, ganha outros contornos agora que aprendemos, no primeiro volume, que ela também é filha bastarda de Zeus. Zola, apesar de ter pouco destaque nesse segundo volume, aparece como a única “pessoa normal”, mas cheia de traços marcantes, especialmente a barriga já avantajada (poucos dias se passaram no “mundo normal”, mas meses se passaram no inferno).

Mas Chiang não se contenta só com a dupla principal. Cada um dos demais personagens, notadamente as figuras mitológicas, são reinventados brilhantemente. Já falei de Hermes, Poseidon, Hades e Hera antes, mas, agora, as porteiras são abertas e vemos Hefesto, o deus “monstruoso” em toda sua glória, em uma perfeita síntese de traços mitológicos e sua profissão, com braços sempre em brasa incandescente. O mesmo vale para Eros, retratado como um homem de traços efeminados, Apolo (que já aparecera no primeiro volume), o deus sol que tem pele escura, Ártemis, a deusa da lua, com seu brilho lunar, Deméter, que parece ser a literal encarnação da natureza (ela é a deusa da “terra cultivada” na mitologia), além de um nova ponta de Ares, o deus da guerra, visto como um senhor de pés descalços e terno claro, com calças ensanguentadas, talvez a mais discreta e ao mesmo tempo mais eficiente das retratações. E isso sem contar com a sempre presente Éris (Strife), a deusa da discórdia, funcionando como um “Grilo Falante” às avessas e retratada quase como uma cantora grunge.  E o mesmo vale para sua recriação do inferno de Hades e do cão Cérbero, o primeiro visto como uma recriação fria e sem vida de cidades humanas e mitológicas e, o segundo, como três cadelas humanoides (corpo de mulher, cabeça de cachorro demoníaco), ambos surpreendendo pelo inusitado.

Em suma, a dupla Azzarello e Chiang acertaram em cheio o tom de Mulher-Maravilha, retrabalhando o material clássico da heroína e dando contornos épico a essa nova saga. O segundo volume expande os conceitos estabelecidos em Sangue e abre novos e possivelmente excitantes caminhos para Diana Prince. Sem dúvida, uma das melhores reimaginações dos Novos 52.

Mulher Maravilha – Vol. 2: Direito de Nascença (Wonder Woman – Vol. 2: Guts)
Conteúdo: Mulher-Maravilha #7 a 12, de março a agosto de 2012
Roteiro: Brian Azzarello
Arte: Cliff Chiang
Cores: Matthew Wilson
Editora: DC Comics
Editora no Brasil: Panini Comics
Páginas: 142

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.