Crítica | Mulheres do Século 20

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estrelas 4,5

Mike Mills trouxe para o cinema, em 2010, uma obra sensível e bastante honesta sobre a relação entre pai e filho; o filme que deu o Oscar a Christopher Plummer: Toda Forma de Amor. Seis anos depois, o diretor e roteirista mergulharia em outro estudo familiar, agora tendo uma relação entre mãe e filho, adicionando discussões sobre feminismo e as muitas formas de ser mulher ao longo das décadas, considerando três gerações de mulheres — sem vínculo parental entre si — que fazem parte da vida de Jamie, adolescente interpretado pelo simpático e talentoso Lucas Jade Zumann.

O diretor afirmou que o filme é um tipo de autobiografia. As mulheres representadas por Annette Bening (que está excelente nesse filme! Um pecado ela ter sido ignorada na indicação ao Oscar), Elle Fanning (apagada demais, embora isso tenha sido “proposital”, pois entendemos que sua personagem é dessa forma) e Greta Gerwig (que demora um pouco a mostrar serviço, mas engata e acaba conquistando o espectador) são, segundo o diretor, representações de figuras que marcaram sua infância, especialmente sua mãe.

O roteiro não só acompanha de maneira inteligente o crescimento de Jamie — crescimento que vemos apenas em termos ideológicos e culturais, não em idade, o que pode parecer estranho no começo, mas deve-se admitir que foi uma boa escolha do diretor –; mas também do espaço geográfico, das mudanças sociais na Califórnia e em todos os Estados Unidos. Acontecimentos como marchas pelos Direitos Civis (da mesma safra, ver Eu Não Sou Seu Negro para ampliar essa discussão), a libertação sexual dos anos 1960, o final do movimento hippie e a verdadeira entrada do movimento punk e sua chegada e derivações nos EUA são abordados e mostrados na obra através de fotografias, que servem como contexto histórico, relevo para o roteiro e composição mais “modernosa” (e isso não é demérito) da estética do filme.

Existe uma narração de Jamie e dos outros personagens, que contam seus destinos, quase como uma confissão carinhosa para o espectador. A forma como o fator humano é mostrado no longa tem sua maior força nessas vozes, que não deixam de mostrar suas fraquezas, seus erros, seus exageros e arrependimentos muitas vezes não assumidos. Sabendo o que acontece com eles, temos ali a história de uma vida, o caminho percorrido por essas mulheres (e homens!) até sua morte. E acreditem, não haverá um espectador que já tenha passado da adolescência e que não se sinta tocado ou veja algo de suas próprias vidas representado nesse filme; coisas como um amor de infância perdido; como uma grande amizade que se afasta e jamais entra em contato depois; como influências e ideias de uma certa idade que mais tarde se dissiparão e darão lugar a novos pensamentos. Lembra um pouco a mensagem da canção A Lista, de Oswaldo Montenegro.

A nota filosófica do roteiro e sua aparência metafísica não é gratuita. Tampouco aparecem jogadas as vertentes do feminismo no momento em que ganhavam espaço e eram discutidas. Cenas deliciosamente constrangedoras como as da palavra “menstruação” tornam-se um dos pontos da obra que deve dividir opiniões, assim como dividiu as pessoas naquela mesa, mas o impacto da discussão para aquele contexto é grande. Falar sobre o corpo, sobre sexo, sobre vontades e sobre como nos sentimos a respeito de determinadas coisas é uma das linhas do texto, e a delicadeza com que o roteiro coloca isso é impressionante.

Não há mortes ou grandes empurrões trágicos para que as ideias de gerações inteiras sejam exploradas e bem tratadas através de falas, de uma excelente trilha sonora que vai do jazz ao punk e que terminam em relações com No Teatro da Vida (1937), Casablanca (1942), Um Estranho no Ninho (1975) e até um trecho perfeitamente bem inserido de Koyaanisqatsi – Uma Vida Fora de Equilíbrio (1982), para marcar, na película, uma era de mudanças estruturais no país que apenas a palavra não dava conta. Aliado a um trecho de discurso do presidente Jimmy Carter, temos em um plano belissimamente composto e cuidadosamente fotografado, homens e mulheres, de diferentes idades, etnias e condições sociais, dividindo um espaço e tendo ideias e vivências diferentes sobre o que viam, ouviam e experimentavam naquele momento.

Mulheres do Século 20 não fala apenas sobre mulheres. Fala do ser humano em um mundo que se transforma constantemente. Das pessoas que atravessam décadas e percebem que o mundo não é mais aquele com o qual estavas acostumadas — especialmente pessoas que tem filhos — e muitas vezes não sabem o que fazer com tanta informação nova.

Nessas muitas fases, às vezes demarcadas por cartelas pretas mostrando trechos de livros ou datas de nascimento das principais personagens, vemos como a diversidade de ideias e valores aumentam e se reescrevem com o passar dos anos. E como é cada vez mais fácil e ao mesmo tempo mais difícil SER e CONVIVER. O filme nos expõe situações onde isso é um problema, uma benção e uma realidade em construção. Cada um de nós estará em uma dessas categorias, partindo daí a nossa relação com o que é mostrado e a nossa reflexão sobre o tema.

Não… isso não é pouca coisa.

Mulheres do Século 20 (20th Century Women) — EUA, 2016
Direção: Mike Mills
Roteiro: Mike Mills
Elenco: Annette Bening, Elle Fanning, Greta Gerwig, Billy Crudup, Lucas Jade Zumann, Alison Elliott, Thea Gill, Vitaly Andrew LeBeau, Olivia Hone, Waleed Zuaiter, Curran Walters, Darrell Britt-Gibson, Alia Shawkat, Nathalie Love
Duração: 110 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.