Crítica | Mundo Proibido (1992)

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Ralph Bakshi é um animador único. Ele não trabalha com a melhor arte do mundo, mas tem um apelo visual bem… evidente. Recebe alguns elogios por American Pop, e particularmente gosto bastante de sua direção em longas como O Gato Fritz, e não é por eu ser um enorme fã de Robert Crumb, mas por inserir sua própria identidade em algo que já tem uma personalidade forte. Seu trabalho é sujo, mas a forma como desenvolve algumas artes conceituais para o design de produção é impressionante. Mas todos podem cometer erros, e o maior erro de Bakshi foi imperdoável, sem contar que conseguiu arrastar o pobre Brad Pitt em começo de carreira para essa desgraça que provavelmente o fez questionar sua decisão de ser ator.

Mundo Proibido começa sua “história” em 1945, com as famílias recebendo as tropas no aeroporto. O detetive Frank Harris (Pitt) é recebido por sua mãe, e já está aí o primeiro erro, porque Frank nunca atua como um verdadeiro detetive, sem contar que tem ideias sem sentido como comprar uma moto e convidar a mãe para um passeio no deserto de Las Vegas. Esse passeio, obviamente, termina em desastre, quando um casal dirigindo bêbado bate de frente com o veículo de Frank. Todos vão pelos ares e Frank procura sua mãe aos berros como se estivesse no meio de um bombardeio. Eu nem preciso lembrar que esse comportamento de soldado com estresse pós-traumático também não retorna em momento algum do resto do filme, foi só para essa cena em particular. Essa falta de comprometimento com algo básico, chamado roteiro, é o único compromisso assumido pelo longa. E pode se segurar que vai piorar.

Depois do acidente, da maneira mais repentina possível, Frank é abduzido por um pequeno cientista animado. É tudo tão brusco e sem razão que não tem outro jeito de explicar. Nada disso foi apresentado que qualquer forma antes, o mundo animado surge do nada. Finalmente estamos no Mundo Proibido, onde as regras não fazem sentido algum, como já sabemos. Logo na primeira troca de diálogos entre Frank e o cientista, são jogadas informações ao vento, sobre viagem entre realidades paralelas e outras mil coisas que não tem — quem diria — qualquer envolvimento com o que vem depois. É exposição vazia, nada vai te ajudar a entender o que está acontecendo.  

Paralelamente, vemos um quadrinista chamado Jack (Gabriel Byrne), que foi parar na prisão depois de matar um homem por tê-lo encontrado na cama com sua mulher (vale mencionar que essa informação é entregue casualmente depois de um cara na fila da loja de quadrinhos perguntar sobre o acontecido com a mesma tranquilidade como a de alguém que pergunta pela hora). Ao contrário de Frank, que precisou de uma tecnologia inovadora dos seres que habitam o mundo animado, Jack vai parar do outro lado porque um personagem o puxa direto de uma página na qual estava trabalhando. Então dá pra entrar no Mundo Proibido se eu simplesmente desenhá-lo? Ok, vai para a lista de perguntas sem resposta.

Eu não vou perder tempo explicando o resto da trama porque ela simplesmente não existe. Frank e Jack não tem ligação alguma e tudo que acontece no mundo animado é só uma desculpa para mostrar o visual maneiro (por isso o nome original “Cool World”, talvez), que é genuinamente bem criativo com seus prédios estilizados e as sombras que lembram algo que poderia ter vindo da mente de Tim Burton, só que nem isso conseguem fazer direito. A animação de todos os habitantes do mundo animado é tão genérica que em certa cena, envolvendo uma boate movimentada, todos os personagens dançando são o mesmo, com o mesmo movimento. É engraçado ver como não conseguiram algo simples como animar um carro, já que ele só pode ser visto assim à distância. De perto, ele volta a ser um carro comum.

Além disso, o que são as bizarras inserções de sons e animações que chegam a assustar quem assiste? Como uma cabeça flutuando em um canto, ou uma cena de perseguição que acontece em cima de outra cena. É como se tivessem montado o filme em cima da hora, deixando várias camadas sobrepostas na ordem errada e esquecido de revisar. Esse é um dos ENORMES problemas técnicos, eu nem entrei em detalhes sobre a animação não casar com o cenário estático do fundo, resultando naquele efeito horrível de personagens escorregando para os lados. É triste ter que comparar mais uma vez, mas ele pediu por isso: Mundo Proibido tenta demais ser uma versão mais adulta e sombria de Uma Cilada para Roger Rabbit, inserindo até uma versão barata de Jessica Rabbit, chamada aqui de Holli Would (sutil), dublada e interpretada mais para frente por uma Kim Basinger que precisava pagar as contas.

E pagar as contas é importante para todos, principalmente Brad Pitt, que parecia pronto para desistir de tudo em todas as suas cenas. É de um nível altíssimo de vergonha alheia assistir Pitt tentando fumar um cigarro animado, que tremia incontrolavelmente, e nem era um cigarro antropomórfico, era só questão de um péssimo trabalho do departamento técnico em manter algo parado na mão de um ator. Por que não deram logo um cigarro normal para ele? Ou nem dava um, para começo de conversa!

Olha, eu já estou ficando nervoso só de pensar nesse filme. Até agora nada faz sentido, não entendi porque a morte de uma pessoa do mundo real transforma a mesma em um desenho no Mundo Proibido. Isso quer dizer que temos mais pessoas mortas neste mundo ou essa regra foi criada em cima da hora como o resto do filme? Jamais saberei, e isso porque não tenho fibra moral ou mental para me aprofundar na insanidade desse filme, que não agrada como ação, a comédia não faz rir e quando tenta ser sério e realista, sai como bobo e forçado. É o maior tiro no pé da carreira de Bakshi, uma mancha que ficou no currículo e não dá para esquecer. É quase ofensivo ao ver como não parecem ao menos ter se importado.

Mundo Proibido (Cool World) — EUA, 1992
Direção: Ralph Bakshi
Roteiro: Michael Grais, Mark Victor
Elenco: Gabriel Byrne, Brad Pitt, Kim Basinger, Michele Abrams, William Frankfather, Maurice LaMarche, Joey Camen, Deirdre O´Connell
Duração: 102 minutos (mas parece infinito).

ROBERTO HONORATO . . . Criado pela TV, minha família era o programa dos Muppets e minha segunda casa era a locadora (era fácil de chegar, só precisava atravessar a rua). Não me incomodava rebobinar todas as fitas, e nem podia, já que assistia o mesmo filme várias vezes. E quando não é cinema, o cheiro de quadrinhos me chama de longe e preciso gastar dinheiro que não tenho. E nunca esqueça: #sixseasonsandamovie