Crítica | Mundos de H.P. Lovecraft: A Tumba

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Com roteiro de Steven Phillip Jones e arte de Octavio Cariello, esta adaptação do conto A Tumba, de H.P. Lovecraft é um imenso mar de possibilidades interessantes barradas por uma divisão desnecessária do quadrinho em capítulos e por um ponto de vista demasiadamente racional/psicológico para uma história que faz questão de tornar fugaz a linha que divide a realidade da imaginação.

Assim como no original, tudo começa no hospício onde está Jervas Dudley, aqui, o Instituto Mental Castle Country, em Rhode Island, no início de 1953. Mas o narrador desta vez é subtraído de seu posto, sendo colocado apenas como um paciente-modelo que não larga seus livros e que discute psicologia e psiquiatria com o seu médico. Até esse ponto, não há exatamente muita coisa ruim na interpretação de Phillip Jones para o conto. Primeiro, porque este comportamento não nega aquilo que o Jervas Dudley realmente é. Segundo, porque é perfeitamente possível imaginá-lo no hospício fazendo esse tipo de discussão ou, no máximo, com uma espécie de domínio de personalidade, como a interpretação para Norman Bates, internado na 4ª Temporada de Bates Motel.

Mas as coisas começam a parecer estranhas quando um ponto importante da relação do leitor com o protagonista é retirado, focando no Doutor, em uma ligação para o papai Dudley e em um objeto (um busto) que só deveria mesmo aparecer no final da história. Esta revelação precoce retira praticamente toda a dubiedade que Lovecraft tanto se esforçou para construir em sua história e nos entrega alguém que, segundo a interpretação de Jones, não está louco e realmente viveu tudo aquilo que diz, sendo o Doutor alguém de “mente fechada”, que não consegue lidar com o mundo espiritual. Colocar certezas absolutas em uma história que trabalha com as névoas da dimensão dos vivos e dos mortos é um erro tremendo. O resultado é uma versão onde momentos instigantes aparecem em cena — a infância de Jervas, seu crescimento na floresta e as visitas à tumba da família Hyde –, mas são afastados constantemente por bolsões de ciência e medicina que só fazem mesmo irritar o leitor, não acrescentando nada à história.

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Menos psicologia e mais Lovecraft cairiam muito melhor a esta adaptação.

Pelo menos a discussão sobre variações da realidade é mantida aqui. Também, pudera. Sendo o enredo todo suplantado pela racionalidade da “ciência da mente”, essa discussão, claro, recebe um bom destaque e, na parte final da história, nos convida a olhar as experiências narradas por Jervas através de um ângulo que deveria ter sido utilizado desde os primeiros quadros da adaptação. É só nesse momento — curiosamente, onde, no original, as coisas se tornam bastante didáticas — que a HQ brinca com as muitas possibilidades de olhar para o relato do jovem “perturbado” e “cheio de imaginação” que tenta, por diversos meios, fazer com que as pessoas acreditem nele — embora não esteja assim tão fervorosamente empenhado nesta versão.

Quem assume bem o lado espiritual da trama é o desenhista Octavio Cariello. Como sua arte é em preto e branco, o recurso para trabalhar a “irrealidade” vem aqui como uma finalização mais sutil (ou nenhuma finalização) dos desenhos, dando um bom contraste e expondo cenários que tanto podem ser reais para alguns, quanto produto de imaginação para outros. É através da arte, também, que temos uma boa construção de Jervas, não tanto em sua infância, mas de forma bastante sólida em sua vida adulta. Se a visão de Phillip Jones irrita por ter um roteiro constantemente quebrado, com retornos ao escritório do Doutor e pausas nos momentos mais deliciosamente macabros, a arte de Cariello nos dá a impressão de exotismo durante todo o tempo, alimentando ao menos uma parte do mistério necessário neste tipo de quadrinho. A verdadeira parte boa desta adaptação pela Caliber Comics é o projeto artístico. Uma pena, porque é um dos contos mais fáceis de Lovecraft para se adaptar (embora adaptar Lovecraft nunca seja uma tarefa fácil) para uma mídia como a Nona Arte. Uma oportunidade desperdiçada.

Worlds of H.P. Lovecraft #4: The Tomb (EUA, 1997)
Publicação original: Caliber Comics
Roteiro: Steven Phillip Jones (baseado no conto de H.P. Lovecraft)
Arte: Octavio Cariello
Letras: Tim Eldred
27 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.