Crítica | Munique (2005)

Nos minutos iniciais de Munique, o nome de diversas cidades surge em uma tela escura e, logo após, Munique aparece em vermelho, diferente das demais palavras, que são brancas. O momento é simples, mas revela precisamente as intenções de Steven Spielberg na obra. O atentado durante as Olimpíadas de Munique de 1972, que vitimou dez atletas israelenses e cinco terroristas palestinos, é apenas mais um caso entre tantos outros ocasionados pela guerra da Palestina, que parece jamais ter fim. Ou, como o personagem Steve diz em determinado momento, “essa guerra sempre existiu, sempre pelo mesmo deserto, a diferença é que agora a levamos para Copenhague”.

Dito isso, fica claro como o povo ocidental lembra dos conflitos no Oriente Médio apenas quando um ataque ocorre em Paris, Nova Iorque ou Londres, cidades com enorme apelo mundial. Porém, para os povos árabes, essa é uma realidade difícil de ser superada, com culpados de todos os lados. Aliás, surpreendentemente, Spielberg deixa explícito em Munique como o estado de Israel comete exatamente os mesmos atos terroristas de seus adversários, algo ressaltado pela sequência que intercala fotos de atletas e terroristas que seriam mortos no decorrer da projeção, todos vítimas de algum ataque. Ou seja, temos aqui um dos longas mais maduros da carreira de Steven Spielberg.

O filme mostra a missão secreta do governo de Israel para retaliar onze pessoas ao redor do mundo depois que terroristas palestinos assassinaram atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique. O time é encabeçado por Avner (Eric Bana), que busca terminar a operação para poder retornar para sua família recém formada.

Mesmo com as reflexões citadas, vale ressaltar que a veia blockbuster de Spielberg está tão presente aqui quanto em outros trabalhos seus, no entanto, sem interferir na temática, revelando-se na parte técnica. Ciente de que tem um filme longo em mãos, o diretor utiliza uma montagem dinâmica, com vários cortes em momentos mais tensos, como nos assassinatos de encabeçados pela equipe israelense, e vários movimentos de câmera, principalmente, travellings laterais e zoom in, impedindo que a obra pareça “parada”. Além disso, a estratégia busca criar uma atmosfera de tensão e euforia, a mesma sentida pelos personagens. Veja, por exemplo, como Avner, gradativamente, adquire gosto por seu trabalho, ingressando em um ciclo de violência difícil de ser quebrado.

Aliás, esse ciclo traz como conseqüência para o protagonista a neurose, uma vez que, tendo cometido tantos assassinatos e provocado tanta gente importante, ele pensa estar sendo observado constantemente. Para criar essa atmosfera, Spielberg aumenta o brilho de luzes que invadem ambientes, de postes e faróis de carros, transmitindo a sensação de vigilância constante. Mantendo-se na parte técnica, vale ressaltar a excepcional direção de arte e figurinos, recriando com perfeição o clima da década de 70 com um alto nível de detalhes.

Ademais, é importante notar que o longa foi produzido após os atentados do 11 de setembro, algo que Spielberg faz questão de lembrar ao mostrar as Torres Gêmeas na última cena do longa, criando uma clara conexão entre sua obra e o ocorrido. O governo de George W Bush utilizou o atentado terrorista em Nova Iorque para iniciar uma guerra no Iraque, jogando os Estados Unidos em mais um ciclo violento, assim como ocorreu com Israel após o ataque de Munique; portanto, Spielberg faz essa ligação entre os dois casos para destacar como a violência só gera mais violência, tecendo uma crítica sutil ao governo Bush.

Analisando sob a ótica dos personagens, matar um terrorista gera outro mais violento e rancoroso. Portanto, a questão que Munique levanta é: um dia essa guerra terá fim? Inclusive, o roteiro de Tony Kushner e Eric Roth tem mérito por não retratar os palestinos como vilões clássicos, pelo contrário, conhecemos aqui suas motivações, parecidas com a dos israelenses, e seus anseios. Em determinado momento, questionada sobre a postura de Israel, a mãe de Avner diz: “independente do que foi preciso, independente do que será preciso, nós temos um lugar na terra, finalmente”; exatamente o que os palestinos buscam.

Além disso, Munique impacta pelo arco de seu protagonista, Avner. Além da atuação consistente de Eric Bana, que transmite muito através de sua composição física, como o cansaço e neura do personagem, o roteiro cria um arco para ele que combina bem com o tema, evidenciando os efeitos negativos da guerra na vida de alguém. O famoso melodrama de Spielberg dá lugar aqui ao pessimismo e até mesmo a crise de identidade. Lembrado por seus superiores apenas pela fama de seu pai, Avner não vê mais em Israel um lar, até porque, para participar da operação, ele deixa de ser considerado cidadão, encontrado conforto apenas em sua família. Portanto, mesmo em meio a tanta violência, Spielberg mostra, através de Avner, como a guerra por território é estúpida, uma vez que um lugar violento jamais será um bom local para se estabelecer. Só é uma pena que personagens coadjuvantes não tenha recebido o mesmo tratamento.

Aliás, o diálogo final do longa, em que Avner convida Ephraim para jantar e este nega pela recusa do protagonista em voltar para Israel, representa a postura do país com povos considerados “de fora”, tomando uma postura agressiva com pessoas que apenas buscam um local para criar raízes em paz. Em Munique, Spielberg está mais maduro do que nunca, apresentando ponderações imparciais e duras, reflexões estas que faltam para os senhores da guerra que não conseguem escapar do ciclo da violência.

Munique (Munich) – EUA, 2005
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Tony Kushner, Eric Roth
Elenco: Eric Bana, Daniel Craig, Ciaran Hinds, Mathieu Kassovitz, Geoffrey Hush, Ayelet Zurer, Hans Zischler, Mathieu Amalric, Gila Almagor, Lynn Cohen, Michael Lonsdale, Marie-Joseé Crose
Duração: 164 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.