Crítica | Museu de Cera (1953)

estrelas 3

Museu de Cera é um daqueles tipos de filmes clássicos que não envelhecem com o tempo, independente das imitações ou homenagens realizadas ao longo da história posterior ao seu lançamento. Novidade em 1953, haja vista a primeira exibição em 3D pelo grupo Warner, bem como o design de produção com recursos que valorizavam a sua paleta de cores, o filme foi dirigido por André DeToth, tendo como base o roteiro de Crane Wilbur, numa trama macabra que lotou plateias nos Estados Unidos.

Um dos atrativos da obra é o mestre do horror Vincent Price, ator que ao lado dos renomados Bela Lugosi, Boris Karloff, Lon Chaney e Christopher Lee, ocupou espaço sofisticado no Olimpo do Terror, espaço simbólico que demarcou a produção cinematográfica do gênero nos anos 1940 e 1950. De voz marcante e tom imperativamente macabro, Price foi um competente interprete de várias obras de outro mestre do terror, desta vez o literário, Edgar Allan Poe, referência no gênero. Culto, Price estudou História da Arte e até tentou Mestrado na Universidade de Londres, mas uma oportunidade de participação numa peça teatral mudou os rumos da sua carreira, para o bem do ator, tão quanto do seu público fiel.

Em Museu de Cera ele interpreta o sagaz e inteligente escultor de belíssimas obras de cera. Ambientando em Nova York no início do século XX, a obra apresenta o cotidiano de Henry Jarrod (Vincent Price), um homem culto que possui um museu com estátuas de cera que reproduzem grandes personalidades históricas. O problema é que a situação financeira não está das melhores e isso preocupa os negócios.

Certo dia ele é traído pelo seu sócio, Matthew Burke (Roy Roberts), um homem interessado unicamente nos lucros e age desonestamente, provocando um incêndio tendo em mira o valor do seguro. O que ele não sabia é que um renomado e rico crítico de arte (Paul Cavanagh) havia ficado tão fascinado durante uma visita que prometeu financiar o local depois que retornasse de uma viagem.

No incêndio, não foram apenas as peças de cera que sucumbiram: o escultor também estava dentro, torna-se uma vítima desfigurada e transforma-se como pessoa. Com rosto desfigurado e mãos atrofiadas, ele se torna um assassino vingativo obcecado em reconstruir as suas obras, nem que para isso precise utilizar seres humanos. Nesta ciranda de vingança, mortes misteriosas começam a acontecer na cidade, concomitante ao desaparecimento dos cadáveres no necrotério.

Sem a capacidade de reproduzir, o personagem de Price se dedica a dar continuidade ao seu legado tornando-se mentor de dois novos escultores: Igor (Charles Bronson) e Leon (Nedrick Young), surdo e ex-presidiário, respectivamente, dupla à margem da sociedade numa época semelhante ao contemporâneo, repleta de preconceitos sociais. Nesta nova jornada o mentor cria a Câmara dos Horrores, uma ala reservada para a reprodução de crimes famosos, numa tentativa eficiente de saciar o desejo do público por espetáculos violentos.

Uma dupla de policiais, instigada depois de um depoimento de uma visitante que alega ser uma das estátuas, uma espécie de reprotudibilidade perfeita de uma amiga sua morta recentemente, inicia a investigação para tentar solucionar os crimes. É a partir dai que a narrativa começa a caminhar para o seu tom policialesco, com bastante suspense e adrenalina em doses suaves.

Um dos maiores trunfos é o desempenho dramático do protagonista. Seu lado macabro lembra O Fantasma da Ópera e Darkman – Vingança sem Rosto, de Sam Raimi. Convincente no papel de um homem que após uma tragédia, torna-se um assassino insano e obcecado pela vingança, Price entrega uma performance psicótica e bem elaborada de um personagem que evolui dentro da sua condição humana para desumana, sangrenta e desfigurada.

O sucesso comercial estava ligado ao aparato tecnológico, mas foi algo que se potencializou graças ao apelo da campanha de marketing realizada pelo estúdio. Charles Bronson, famoso pela série Desejo de Matar, teve em Museu de Cera o seu primeiro filme do currículo. Na interpretação de um personagem surdo, o ator sequer menciona uma palavra, mas já demonstrou talento suficiente para entregar o papel de auxiliar do crime.

Com 88 minutos de duração, quem não teve a oportunidade de contemplar o 3D foi o cineasta André DeToth, cego de um olho. Outro que não pode usufruir do devido sucesso da obra foi o ator Nedrick Young, pois o seu nome teve de ser retirado dos créditos por conta das perseguições de cunho macarthista.

Museu de Cera (House of Wax) – EUA, 1953.
Direção: André DeToth
Roteiro: Crane Wilbur
Elenco: Vincent Price, Frank Lovejoy, Phyllis Kirk, Carolyn Jones, Charles Bronson, Paul Picerni, Roy Roberts, Angela Clarke, Dabbs Greer
Duração: 88 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.