Crítica | Museu

O furto do Museu Nacional de Antropologia da Cidade do México, ocorrido no Natal de 1984, é o de menos no singelamente intitulado Museu, longa mexicano que tem nesse evento famoso em um dos mais belos museus do mundo seu chamariz. Mas não se enganem, o momento em si é uma tensa sequência na projeção, mas ele não só ocorre muito cedo, como ocupa relativamente poucos minutos.

É que o segundo longa de Alonso Ruizpalacios está muito mais preocupado em lidar com as motivações – ou melhor, a mais completa ausência delas – de jovens de família sólida, em uma tentativa de mergulhar na psiquê de uma geração. O ponto focal é Juan Nuñez (Gael García Bernal), estudante de veterinária com conexão com o referido museu desde criança, mas que parece não ter rumo na vida. Ele se revolta contra a comemoração do Natal da forma “iangue” em uma daquelas insatisfações padrão de pessoas que muito mais seguem o que outros acham do que pensam por si próprios. Seu nacionalismo, seu pensamento anti-capitalista é aguado, simplista, sem a menor tentativa de profundida.

E o roteiro, que ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim de 2018, aplica essa forma rasa de ver a situação sócio-política também aos museus em geral, que Juan acredita serem instituições maléficas que arrebanham obras de arte do mundo por meio de saques dos mais variados povos. É assim que a fita começa, com a história da construção e inauguração do Museu de Antropologia, e a suposta usurpação de uma escultura monolítica de outra região do México. Esse subtexto (que nem é tão “sub” assim) perpassa constantemente a vida desperdiçada de Juan. Com o museu sempre presente em sua memória, talvez por pura falta do que fazer, ele engendra o furto, tragando seu amigo Benjamin Wilson (Leonardo Ortizgris) para o feito.

Talvez eu esteja simplificando as motivações de Juan, mas elas não são muito mais complexas do que isso, o que é parte do contexto que Ruizpalacios cria. Parece muito mais uma molecagem impensada (que dá certo!) do que um plano com começo, meio e fim, revelando até mesmo um grau de ingenuidade gigantesco quando ele tenta vender as peças para Frank Graves (Simon Russell Beale), um colecionador britânico. Chega a ser risível a incongruência e a ironia do raciocínio político de Juan sobre a natureza dos museus e sua concordância em vender os artefatos para um “gringo”, algo que ele esboça compreender, mas que não fala mais do que uma breve frase em protesto quase mudo.

Estruturalmente, a narrativa nos faz seguir Juan do começo ao fim, com Bernal muito bem em seu papel, emprestando ao personagem um necessário ar perdido que parece mantê-lo sempre distante da realidade. E Ruizpalacios não perde tempo em entrar na sequência do furto amador, mostrando os detalhes intrincados da estratégia de Juan fazendo belo uso do silêncio total e de uma fotografia noturna de interior de Damián García que faz ótimo uso das superfícies reflexivas que criam quase que uma atmosfera de sonho, de viagem lisérgica, talvez.

No entanto, depois das sequências em Acapulco, na mansão de Graves, o filme começa a arrastar-se, em uma tentativa do roteiro de reiterar, em imagens, o quanto Juan está realmente perdido em si mesmo. O problema é que isso não só havia ficado muito claro ao longo da projeção, como essa “esticada” na história não traz nada de absolutamente novo, cansando muito mais do que acrescentando algo diferente do que minutos extras que poderiam ter sido cortados sem que a história sofresse. Ao contrário até: ao estender a duração para mais de duas horas, apresentando o suposto clímax ainda na primeira metade, o roteiro co-escrito por Ruizpalacios e Manuel Alcalá começa a rodar em falso, por vezes derrapando em um drama de “juventude transviada” sem um propósito claro.

Mas, mesmo com seus problemas, Museu carrega uma pessoalidade forte, com Juan no centro da atenções como representante de uma geração perdida e deslocada, sem saber exatamente o que quer e, por outro lado, sem vontade de descobrir. É quando essa passividade ganha o centro do palco que o filme funciona melhor, mas há pouco de substância além disso para “preencher os espaços” de uma narrativa vagarosa.

Museu (Museo, México – 2018)
Direção: Alonso Ruizpalacios
Roteiro: Manuel Alcalá, Alonso Ruizpalacios
Elenco: Gael García Bernal, Leonardo Ortizgris, Simon Russell Beale, Lynn Gilmartin, Alfredo Castro, Ilse Salas, Leticia Brédice, Lisa Owen, Bernardo Velasco
Duração: 128 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.