Crítica | “Music” – Madonna

Madonna é uma sobrevivente do pop, artista com trajetória respeitável que teve o desafio de se manter relevante diante da concorrência e da evolução tecnológica que transformou todas as esferas da sociedade, inclusive a música eletrônica, um de seus terrenos de atuação. Depois da experimentação de Ray of Light, a cantora precisava se superar. Como sempre tentou não se repetir ao longo de seus trabalhos, haja vista a sua alcunha de camaleônica, Madonna enveredou pelo imaginário country na concepção do trabalho em questão, Music, uma produção que trouxe hits memoráveis e consolidou a fase de manutenção de artista para as plateias do novo milênio.

Music não é vigoroso como o álbum anterior, tampouco o teor político corrosivo do trabalho posterior, American Life, lançado em 2003, mas também não deixou de lado as questões de gênero, críticas sociais e a relação entre a música e a dança, temas comuns na trajetória da cantora desde os anos 1980. O álbum na verdade é mais um investimento de Madonna no terreno da cultura pop, na época, um terreno tomado pela febre juvenil promovida por Britney Spears e Christina Aguilera.

Desta maneira, a artista precisava manter a sua relevância e continuar a produzir. Music é um pouco disso, numa soma com o lado mais ameno de Madonna apenas trabalhando com o que gosta, sem pretensões de chocar o mundo ou promover polêmicas desnecessárias. O álbum foi produzido numa época de tranquilidade, com Madonna exercendo a sua profissão juntamente com a responsabilidade da maternidade. No geral, um aviso de que ainda estava em plena forma, com resposta do público por meio de um sonoro “sabemos que você ainda é relevante”, afinal, o sucesso comercial do álbum é uma prova cabal da afirmação.

Oitavo álbum de estúdio, Music tratou de temas como o machismo, o amor e a dança, além da necessidade de “mulheres com atitude” na sociedade.  Na época, o processo de gravação da envolvente comédia dramática Sobrou Pra Você atrasou, o que modificou a agenda de produção e lançamento do material. Depois de Ray of Light, o público aguardava a nova aposta da “rainha do pop”. Beautiful Stranger tinha sido lançado como promoção do novo episódio da franquia de Austin Powers, mas as pessoas ainda queriam ver mais.

Ansiosa, Madonna alegou que “se sentia um animal pronto para sair da gaiola”, pois estava vivendo uma vida muito discreta. A ousada artista “sentia falta de algumas coisas, por exemplo, de apresentar, dançar e estar na estrada”. O resultado da ânsia foi Music. Em seus 44 minutos e 40 segundos (edição padrão), o álbum foi produzido por Mark Stent, Guy Sigsworth, Talvin Singh, Mirwais Ahmadzai, William Orbit e Madonna. Com arranjo de cordas de Michel Colombier e teclados futuristas de Ahmadzai e Orbit, ambos também nas guitarras e programação, a produção reflete ecos do pop em simbiose com o dance-pop, country-pop, folk e rock.

Music foi o primeiro single do álbum. Com subtexto bem imbricado com a condução do arranjo, a faixa versa sobre o poder de união proporcionado pela música, com som seco, uso de vocais eletronicamente manipulados e som seco. Para Madonna, ao entoar a canção, a música é capaz de superar divisões de raça, gênero e sexualidade. Há também ecos do groove, mistura de batidas hiperativas e pungência da percussão, num som bem próximo ao conceito de eletropop.

What It Feels Like for a Girl, composição de Madonna com David Torn e Guy Sigsworth, segue um caminho progressivo promovido por sintetizadores e presença do trance em contato com o hip hop. Na canção, a artista versa sobre a possibilidade das garotas no que tange ao uso de jeans e cortes curtos de cabelo, em suma, ter atitude e ser dona de si. O videoclipe dirigido por Guy Ritchie talvez tenha sido a única “polêmica do pacote”, mas algo esquecível pouco depois, tal como o próprio videoclipe, produção menor no currículo da cantora.

Don’t Tell Me é um dos melhores momentos do álbum. O country, símbolo do american way of life e supremacia do homem branco, geralmente tomado pelo sentimento patriarcal, ganha uma roupagem satírica. Ao longo da canção composta por Joe Henry, numa faixa acompanhada por violões suaves e linhas discretas de teclados. O tom da faixa é a necessidade de postura firme e cheia de “atitude”, com mescla do rock e country-pop. O álbum ainda é acompanhado pelo ritmo acelerado e as vozes obscuras de Impressive Instant; o groove introspectivo de I Deserve It; a crítica ao homem que se aproveita de mulheres oprimidas em Runaway Lover; os violões eletrônicos da belíssima Gone; além das razoáveis Amazing, Paradise (Not for Me) e Nobody’s Perfect.

A capa foi concebida com as fotos de Jean Baptiste Mondino, numa ode ao campo. Madonna resgata elementos do imaginário western e o resultado foi um belo material visual. Sendo assim, sem exorbitantes controvérsias, Music foi lançado em 2000, promovido posteriormente na Drowned House Tour, espetáculo que englobou um show focado também em Ray of Light, álbum que não teve uma turnê como plataforma de divulgação. Com visual esplendoroso, reflexões intrigantes e estrutura bem concebida, o show é um dos menos interessantes na carreira da cantora, um misto de tédio com Madonna sem nenhum carisma nos palcos. O magnetismo com o público retornou apenas na turnê seguinte, mas isso é assunto para o nosso próximo texto.

Aumenta: Music.
Diminui: Impressive Instant.

Music
Artista: Madonna
País: Estados Unidos.
Elenco: 18 de setembro de 2000.
Gravadora: Warner Bros, Maverick.
Estilo: Pop, música eletrônica, country e dance pop.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.