Crítica | Música, Amigos e Festa

estrelas 4

A cena musical eletrônica vive seu melhor momento. DJs estão se tornando superstars e trabalhando com artistas de todos os gêneros, festivais lotados estão arrastando multidões e hits de house, electropop, dubstep e outras vertentes marcam presença nas paradas de todo o mundo. É o momento da música eletrônica, depois de tantos anos de batalha para se firmar como gênero musical e vencer todo e qualquer preconceito – mesmo que essa ainda seja uma briga sem data para acabar.

Com título carismático, convidativo e que dialoga muito bem com a filosofia e o comportamento dos admiradores da música eletrônica, We Are Your Friends (“Nós somos seus amigos”, nome de uma música do duo francês Justice com a banda inglesa Simian) chega, então, no momento certo, acompanhando o boom do estilo – a inserção de imagens reais de festivais como Tomorrowland entre uma cena e outra é prova disso. Infelizmente, Nós Somos Seus Amigos foi traduzido para o genérico Música, Amigos e Festa.

O queridinho dos EUA, Zac Efron, é Cole, um jovem de vinte e poucos que toca de graça em uma boate de Los Angeles e quer se tornar um grande astro da EDM – Electronic Dance Music –, ciente de que precisa de um grande hit para alavancar sua carreira. Correndo atrás de dinheiro e dividindo alegrias e frustrações com três amigos inseparáveis, Cole acaba fazendo amizade com o famoso DJ James Reed (vivido pelo sempre ótimo Wes Bentley), e percebe que essa poderá ser sua porta de entrada para a indústria musical.

Max Joseph, em sua estreia como diretor e roteirista de longa-metragem, demonstra conhecer muito bem a geração atual, seu comportamento e a cena eletrônica. A edição ágil, que nos faz lembrar em muitos momentos os lyric videos musicais que vemos na internet, dá um dinamismo impressionante ao filme, deixando-o divertido e muito bonito de se ver. A criatividade de Max é louvável e se faz muito especial em diversas sequências de destaque, como a inicial, em que os rapazes vão à uma universidade divulgar uma boate; a que Cole ensina, como um tutorial para os que não são adeptos da música eletrônica, como agitar uma festa – esse é um dos melhores momentos do filme –; e a noite em que ele e James tomam PCP, droga sintética que faz o jovem ver tudo a sua volta se transformar em desenho animado.

A equipe por trás de Música, Amigos e Festa demonstra mais uma vez ter feito o dever de casa quando reparamos no deleite que é sua trilha sonora e em como ela se relaciona com as cenas do longa. Como apreciador e seguidor da música eletrônica – principalmente do house –, fico muito feliz de ver o som de artistas como Deorro, Justice, Hayden James, AlunaGeorge, Years & Years, Fake Blood e outros explodir na tela – o que (ainda) é tão raro. Além disso, temos uma espécie de fan service com aparições de DJs importantes da cena, como Alesso, Dillon Francis e Nicky Romero. Tudo isso demonstra o cuidado que a equipe teve em retratar esse universo e isso é excelente. É um filme de gente que sabe do que está falando.

Entretanto, é importante deixar claro que Música, Amigos e Festa tem falhas. A história de Cole e seus amigos não é sobre o ofício de ser DJ, as dificuldades do mercado ou da indústria musical. Ainda que tenhamos um ou outro diálogo provocante sobre esses assuntos (James diz que Cole tem um discurso babaca e falso sobre a profissão, dá uma cutucada de leve na sociedade atual com “Só faltou uma hashtag” e explica a importância da honestidade ao fazer música), a discussão fica apenas na superfície, porque esses não são os principais objetivos. Música, Amigos e Festa é um coming of age, ou seja, uma história de amadurecimento, que apenas possui pano de fundo musical. É importante ir para o filme com esse esclarecimento em mente, até porque, mesmo com problemas e o excesso de tramas do roteiro, ele funciona – nem que seja na maior parte do tempo.

Ainda que contemple muitos assuntos e não aprofunde muito nenhum, o filme dialoga bem com a geração Y e seus problemas característicos: a ansiedade; a pressa em realizar algo melhor, de ser melhor, de alcançar objetivos; a sensação de estar sem rumo, mesmo em meio à oportunidades (retratada através de Sophie, personagem de Emily Ratajkowski); a busca pela felicidade profissional e pessoal.

Depois de um clímax de tirar o fôlego com a música de Cole criada especialmente para o filme, é interessante notar os caminhos inteligentes que Max decide seguir no desfecho de Música, Amigos e Festa: não vemos os personagens alcançarem seus objetivos por completo, porque não temos um ponto final nessa história. Em uma linda sequência ao som de I Can Be Somebody de Deorro – uma das melhores canções de house de 2015, que fala justamente sobre o que os personagens estão buscando: ser alguém –, vamos acompanhando suas decisões: as consequências dos acontecimentos e de suas atitudes, os rumos que decidiram tomar e a contemplação do futuro que está bem à frente deles. Afinal, a analogia que o roteiro faz, da vida com os drops da música eletrônica, é certeira: o melhor momento, de qualquer coisa, é aquele, logo antes de começar.

Música, Amigos e Festa (We Are Your Friends) – EUA, 2015
Direção:
Max Joseph
Roteiro:
Max Joseph, Meaghan Oppenheimer
Elenco:
Zac Efron, Emily Ratajkowski, Wes Bentley, Shiloh Fernandez, Alex Shaffer, Jonny Weston, Jon Bernthal.
Duração: 96 min.

ANDRÉ DE OLIVEIRA . . . . Estudante de Letras e aspirante a jornalista. Ainda se impressiona com o fato de curtir, na mesma intensidade, do cult ao pop; do clássico ao contemporâneo; do canônico ao best-seller. Usa camisa do Arctic Monkeys — sua banda favorita —, mas nada impede que esteja tocando Nicki Minaj no fone de ouvido. Termina de ler Harry Potter e começa um Dostoévski. Assiste Psicose e depois dá play em Transformers. Não tente entender. @andreoliveeira