Crítica | Música, Maestro!

Música, Maestro! tem muita cara de Fantasia, mas não é Fantasia. Sob os mesmos termos de seus antecessores, Você Já Foi à Bahia? e Alô, Amigos, outro filme “pacote” (conjugado de diversos curtas) chegaria aos cinemas pelos estúdios Disney, continuando a manter a política da empresa em não arriscar muito durante a década de 40, devido a Segunda Guerra Mundial e seu contexto. Mas antes de filmes “pacotes” serem a tendência da Disney, a obra-prima Fantasia já havia sido produzida. Por que esses seriam diferentes? Fantasia é um filme “de arte”, feito para ser a arte e nada mais. O apuramento estético, audiovisual, sustentando uma obra de animação por duas horas. Música, Maestro não sabe o que quer ser. Há segmentos claramente inspirados no filme de 1940, enquanto outros poderiam ser curtas despretensiosos da companhia, sem muito apelo além do estilo cartunesco e entretido. A única coisa possível de ser dita que permeia todas as partes do filme é a existência de música, mas a mesma sempre apresentada de novas formas, em diferentes situações, que não se encaixam muito bem. É como se juntasse diversos ingredientes, saborosos em suas próprias propostas, mas desconexos em discurso, proposta e/ou tom.

A começar, é notável, após pesquisas pelo mundo digital, que o filme tenha um primeiríssimo segmento que caiu na obscuridade. Ele ainda pode ser encontrado por aí, mas muitas versões do filme em diferentes regiões não o possui, devido a um corte feito pela própria Disney em relação aos momentos que envolvem tiros. The Martin and the Coys é, afinal, depois de muita procura, indistinto e uma péssima maneira de se começar um pacote de curtas. É uma história de amor, como outras que também estrelariam o filme, mas a narrativa cantarolada não é das mais afiadas e muito menos a qualidade da animação. Não que seja ruim. Walt Disney nunca deixaria passar algo ruim. Só que é extremamente complicado ovacionar algo tradicionalmente operante quando a belíssima Blue Bayou surge em seguida, nos encantando e nos fazendo, pela primeira vez, questionar o tom do longa-metragem. No final das contas, a segunda parte de Música, Maestro! era, originalmente, planejada para fazer parte de Fantasia, dando corpo ao argumento que isto é muito mais poético e belo do que se estava esperando do filme, dado o primeiro segmento.

A gosto ou contragosto, o que sucede Blue Bayou é uma divertida celebração da juventude, de sua música popular, sendo a primeira contribuição de Benny Goodman e sua orquestra no longa-metragem. All the Cats Join In é entusiasmada, fruto de sua época, com traços mais simples mas igualmente formidáveis. As cores são extremamente vivas e combinam perfeitamente com toda a aura criada, aliada a um pano de fundo (ou superfície) musical difícil de sair da cabeça. Mas faz sentido que esse segmento seja, assim como foi antecedido, sucedido por outra composição muito menos lúdica? Without You é uma balada de amor, cantada por Andy Russel, tão exuberante quanto Blue Bayou, moldada por uma chuva excepcionalmente bem animada, de encher os olhos, distante por uma janela que deixa passar a iluminação exata a fazer nossa cabeça explodir de maravilhamento. Já imaginou ver isso nos cinemas? Uma canção muito melodramática, mas uma animação unicamente hipnótica. Todavia, novamente um curta sem relação alguma com o tom do anterior aparece. Tendo em vista a despreocupação de Disney em criar uma obra uníssona, o ideal é tentar entender os fragmentos como segmentos extremamente segmentados.

Continuando com a sequência de componentes deste pacote, Casey at the Bat é a recitação do poema homônimo de Ernest Thayer, exagerado e irônico, um dos que mais me vêm à cabeça quando repenso no longa, o que é sempre um bom sinal. Continuando o vai e vem de distintas intencionalidades, Two Silhouettes nos joga para dentro de uma dança, performada por dois atores reais, mas representada em tela por duas silhuetas coloridas, realçante de uma poesia sonora. Mas cadê a risada galhofa de antes? Já Peter and the Wolf não é tão “atacado” quanto Casey at the Bat, All the Cats Join In e The Martin and the Coys. A mais famosa das dez partes do filme, esta traz um contar de histórias mais convencional, colocando Peter e seus amigos animais em oposição a um temível lobo, uma figura assustadora. O design do animal é amedrontador e os animadores fazem um bom trabalho em realçar a posição de perigo que o grupo se encontra. O único problema, porém, é a explicação de que cada instrumento musical representaria um personagem diferente. A exposição dessa característica é desnecessária, visto que a trilha sonora fala por si só.  Curiosamente, o que se sucede é mais uma peça sem narrativa, diferenciada na jocosidade, uma criação relativa à personificação dos instrumentos musicais, os quais, de um modo ou outro, foram os protagonistas de Peter and the Wolf, da mesma forma que são os protagonistas de After You’ve Gone.

Se Música, Maestro! peca em não trazer uma veia certeira na ritma, luxuosa na diversidade de detalhes e não na disparidade das diferenças (graves lacunas no tom), ao menos somos recompensados com dois curtas finais exuberantes. Em encantamento, nada se equipara a conclusão do filme, inesquecível em partes, esquecível no todo. Johnnie Fedora and Alice Bluebonnet é um romance mágico na sua própria natureza. O vocal feito pelas Andrews Sisters é gracioso e a narrativa encantadora: a busca irrefreável de um chapéu pela sua amada, parceira dentro da vitrine, inalcançável ao ser vendida. Johnnie, apesar de ser um mero acessório para cabeças humanas – e animais – possui muita expressividade. A história mais Disney deste filme da Disney, a qual não poderia ter sido melhor sucedida. Sendo assim, o grand finale é The Whale Who Wanted to Sing at the Met. Muito provavelmente o estúdio de animação tem com esse trabalho uma de suas produções mais cruéis e emocionantes, ao mesmo tempo. A história do cachalote, cantor de ópera, que sonhou em cantar para o mundo, encantando-o e comovendo-o, nos encanta e nos comove. Nelson Eddy utiliza sua talentosa voz para, impressionante, dar vida a todas os personagens do curta. Seja em qualquer lugar, mesmo que os ingressos para Música, Maestro! não atraiam muito público, os ingressos para The Whale Who Wanted to Sing at the Met, em um mundo justo, estão esgotados desde 1946. Bravo!

Música, Maestro! (Make Mine Music) – EUA, 1946
Direção: Jack Kinney, Clyde Geronimi, Hamilton Luske, Joshua Meador, Robert Cormack
Roteiro: James Bordrero, Homer Brightman, Erwin Graham, Eric Gurney, T. Hee, Sylvia Holland, Dick Huemer, Dick Kelsey, Jesse Marsh, Tom Oreb, Cap Palmer, Erdman Penner, Harry Reeves, Dick Shaw, John Walbridge, Roy Williams
Elenco: Nelson Eddy, Dinah Shore, Benny Goodman, The Andrews Sisters, Jerry Colonna, Sterling Holloway, Andy Russel, David Lichine, Tania Riabouchinskaya, The Pied Pipers, The King’s Men, The Ken Darby Chorus
Duração: 75 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.