Crítica | Mutação (1997)

Filmes sobre monstros são estruturas narrativas banalizadas pela indústria cultural. Depois dos anos 1970, praticamente todas as produções que trataram do assunto buscaram emular Alien – O Oitavo Passageiro, de Ridley Scott. Há muitos que conseguem alcançar um resultado razoável. Tem os que estão acima da média. Alguns são ruins, outros horrorosos. Mutação, do criativo Guillermo del Toro faz parte da linhagem dos que estão acima da média. Aliás, bem acima da média, haja vista a temática banal tratada com uma história de primeira linha e uma direção segura e eficiente.

Em seus 105 minutos, o filme narra os seguintes fatos: uma epidemia se alastra por Nova Iorque e se torna responsável por ceifar a vida de muitas crianças. Depois de tantas pesquisas e tentativas, nada dá certo. Para resolver o problema, o setor responsável pela erradicação de pragas chama a Dra. Susan Tyler (Mira Sorvino), cientista que junto ao Dr. Peter Mann (Jeremy Northam), cria a Geração Judas, criatura que mescla elementos do louva-deus e do cupim, combinação que se delineia como eficiente agente biológico dentro do ambiente das baratas, tendo a função de dizimá-las.

Logo mais, os cientistas são laureados pela mídia. O problema é sanado temporariamente. A prova de que ainda há questões mal resolvidas surgem três anos depois. Dois jovens aventureiros levam para Susan alguns insetos encontrados no subsolo da estação de metrô. Ela compra as criaturas e começa a sua avaliação, quando se dá conta dos conflitos próximos a se estabelecerem. Paralelo ao trajeto da cientista, agora casada com Dr. Peter, temos o jovem autista Chuy (Alexander Goodwin) e seu pai Manny (Giancarlo Giannini), homem que trabalha engraxando sapatos na estação onde os insetos estão se desenvolvendo.

Da janela do seu quarto, o menino contempla alguém que chama de Sr. Sapatos engraçados, o que na verdade é uma das criaturas que passaram a mimetizar os humanos: as suas asas, quando fechadas, lembram o rosto humano, por isso, tais monstros circulam entre as pessoas com discrição, sem demonstrar a estratégia de implantação de uma colônia que destruirá a humanidade. Não demora a Susan e Peter se juntarem com o detetive Josh (Josh Brolin) e o policial Norton (Charles Dutton) na investigação que pretende descobrir quem anda cometendo os terríveis crimes nas imediações do metrô. É quando eles descobrem que as baratas modificaram a sua estrutura genética e ao invés de durar mais uma geração, multiplicaram-se e continuaram a reprodução, mimetizando os seres humanos e constituindo-se como gigantescas ameaças carnívoras.

Conscientes do grave problema, Susan e todos os envolvidos citados anteriormente precisam buscar uma solução, principalmente depois que as histórias se cruzam e o pequeno Chuy torna-se uma vítima das criaturas aterrorizantes. A espécie intitulada de Judas, ao buscar o mimetismo como forma de adaptação, trai não apenas as baratas dizimadas nos corredores dos esgotos, mas também se impõe como ameaça para os seres humanos que as criaram.

A história descrita não é novidade alguma na seara audiovisual. Filmes e séries constantemente abordam a natureza em conflito com a humanidade, num feixe de narrativas que geralmente tecem críticas sociais interessantes. Em Mutação, Guillermo Del Toro apresenta o sucessor do bem recepcionado Cronos e antecede a atmosfera sombria de A Espinha do Diabo. Tributário dos clássicos A Mosca, Alien e O Predador, a aventura de horror do cineasta mexicano possui brilho próprio e consegue avançar dentro de suas próprias capacidades dramáticas, sem depender exclusivamente dos efeitos especiais para funcionar.

Lançado em 1997, Mutação é a demonstração de como funciona o laboratório do cineasta, espaço de criação dos monstros que habitam o seu eficiente imaginário cinematográfico, repleto de “bestas” assustadoras. Aprendiz de maquiagem e efeitos especiais com Dick Smith, responsável pelo setor no inesquecível O Exorcista, Del Toro sinalizou o interesse pela geração deste ambiente de criaturas fantásticas desde a adolescência. Ao passo que Mutação se desenvolve, percebemos como este tipo de história fascina o cineasta, tamanha a semelhança temática e visual com outras narrativas lançadas posteriormente.

Mutação (Mimic) — Estados Unidos, 1997.
Direção: Guillermo Del Toro
Roteiro: Guillermo del Toro, Matthew Robbins
Elenco: Charles Dutton, F.Murray Abraham, Giancarlo Giannini, Jeremy Northam, Josh Brolin, Mira Sorvino, Norman Reedus
Duração: 105 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.