Crítica | My Hero Academia – 1ª Temporada

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Já não é nenhuma novidade que o Ocidente possui características muito diferentes das do Oriente. Com o mundo globalizado, porém, ambas as culturas acabam se convergindo, resultando em uma mescla extremamente rica. Boku no Hero Academia é uma série animada que resulta dessa sinergia. O anime possui inúmeras características de sua mídia e de seu país de origem, mas também tem uma forte influência da forma de contar histórias e desenvolver personagens do Ocidente.

Em um mundo onde a maioria da população possui algum tipo de peculiaridade, ter um grande super-poder é o que todos desejam, pois esse é o único caminho para entrar na grande Academia de Heróis. Ser um aluno da UA é o maior desejo de Midoriya Izuku, o protagonista de nossa história, e de todos os outros jovens de sua idade. Para Midoriya ser um herói é praticamente impossível, já que o menino não possui nenhum tipo de peculiaridade. Isso faz com que ele se transforme em um verdadeiro aficionado pelos justiceiros. Deku, como o menino é apelidado, cataloga todos os heróis que conhece em seu caderno, onde faz questão de destacar suas forças e limitações. Diferente de Midoriya, Katsuki Bakugou, o maior antagonista de Deku, possui um poder que sempre o coloca em destaque. Entrar na Academia de Herói é seu maior objetivo, e ele não está disposto a dividir sua glória com um menino sem poderes.

Essa é a maior relação que My Hero Academia irá nos entregar, o antagonismo de Midoriya e Bakugou não deixa de ser desenvolvido em nenhum dos 13 episódios da primeira temporada. Essa rivalidade irá ser de extrema valia para a dupla, que com ela irá desenvolver seu poder e, acima de tudo, sua personalidade.

Outro grande personagem apresentado pela série animada é All Might, o maior herói em atividade. Tido por muitos como a personificação da paz, ele é o grande ídolo de Midoriya e ao longo da temporada, irá desenvolver uma relação de mestre e aprendiz com o menino. Cabe aqui um pequeno comentário sobre um grande acerto da série com esse personagem. Durante todos os episódios os espectadores ouvem que os heróis profissionais são a maior esperança da Terra. Fica difícil de acreditar nisso, já que as poucas vezes que os vemos atuar é apenas para resolver pequenos conflitos. Só no final da primeira temporada que somos jogados para o mesmo lugar dos personagens e nos encontramos completamente amedrontados. Esse temor acaba quando o maior símbolo de esperança entra em cena, e nessa cena conseguimos entender plenamente quem é All Might e seus amigos heróis.

Midoriya não possuir nenhum tipo de poder é o fato que mais intriga no começo da série. Por mais que a “meritocracia” seja algo que tanto me faz torcer o nariz, o conceito de conseguir por dedicação e estudo ainda é uma coisa que encanta, e ver um jovem não se importando com suas adversidades e buscando seu sonho é muito interessante. Viver em uma sociedade em que ter um super poder é comum, e o nosso protagonista não possuir nenhum, também é uma característica que nos aproxima dele. Ser uma minoria no mundo de Deku, e principalmente no nosso, é um grande desafio e a série lida (a seu modo) muito bem com esse assunto.

Ter uma trama curta, de apenas 13 episódios, é algo muito saudável para a animação. Esse número limitado faz com que ela vá direto ao ponto, característica que não é muito comum para outros animes. My Hero Academia, mais do que tudo, é um resultado de um mercado que está evoluindo e aprendendo a lidar com um público que não quer ficar preso a uma série de 200 episódios, sendo que grande parte desses são fillers. Sem enrolação, a série consegue nos apresentar personagens com arcos diretos, até as lutas são mais rápidas, o enfrentamento surge, se desenvolve e acaba, sem muitos diálogos pomposos.

O roteiro da animação não cansa de nos apresentar clichês. A dupla antagonista, o herói mestre, o protagonista dedicado são alguns dos poucos “lugares comuns”. Não me incomoda o uso desses, um artifício narrativo só se torna um clichê porque ele é bom, e quando bem usado ele ainda consegue ser muito efetivo. Além de apresentar clichês, My Hero Academia também os quebra. Em muitos momentos, pensamos que a trama irá para um lado, quando na verdade o roteiro de Kôhei Horikoshi e Yôsuke Kuroda segue um caminho completamente diferente. Isso faz com que o espectador não se sinta acomodado com o que lhe é apresentado. Gosto também quando o roteiro faz questão de explicar o porquê ele resolveu um conflito da maneira mais comum. Explicar um clichê dentro de sua narrativa é algo novo.

A direção de arte dos orientais é algo que não costuma falhar. Salvo algumas exceções, o animes possuem características muito bem estabelecidas. Boku no Hero Academia segue esse padrão. A série tem uma animação que se sai muito bem em todos os momentos. Nos cômicos, o segundo plano se altera para cores fortes e o personagem ganha expressões hilárias. Na ação, o time de animadores liderados por Kenji Nagasaki entregam-nos movimentos fluídos e, principalmente, uma noção espacial difícil de se ver nas animações do nosso lado do globo. A trilha sonora de Yuki Hayashi é um grande destaque do anime, sem ela a maioria das entradas esplêndidas de All Might não teriam todo o seu impacto. A trilha também possui um papel decisivo em batalhas, ditando o ritmo e até a emoção do espectador.

O único detalhe que incomoda em toda a animação é a objetificação das personagens femininas em alguns poucos momentos da trama. Acredito que isso não pode deixar de ser relatado como algo extremamente ruim. O mercado de animes, que tem tentado entender seu público, custa a aprender que objetificar personagens femininas não soma em absolutamente nada de bom para trama, muito pelo contrário, só a coloca em um grupo de milhares de outros animes que foram extremamente irresponsáveis ao fazer isso. É triste ver uma série que dá destaque a um personagem que faz parte de uma minoria, não olhar para o seu próprio mundo e assim dar força a um discurso que vai totalmente contra aquilo que é o mote de sua narrativa.

My Hero Academia é o resultado de diversos fatores. A mistura de culturas e o entendimento parcial de um novo público talvez sejam os que mais se destacam dentre todos os outros. Com uma trama abarrotada de clichês bem executados, personagens com relações que se expandem e com quebras de expectativas que nos pegam desprevenidos, a série baseada no mangá de Kōhei Horikoshi merece ser vista por qualquer tipo de público.

My Hero Academia (Boku no Hero Academia) – 1ª Temporada (Japão, 3 de Abril de 2013)
Criado por: Kōhei Horikoshi
Direção: Kenji Nagasaki
Roteiro: Yōsuke Kuroda, Kôhei Horikoshi
Música: Yuki Hayashi
Elenco: Daiki Yamashita, Nobuhiko Okamoto, Kaito Ishikawa, Ayane Sakura, Yûki Kaji, J. Michael Tatum, Toshiki Masuda, Christopher Sabat.
Duração: 13 Episódios de 22 minutos.

PEDRO CUNHA . . . Com corpo e alma de Hobbit, sou um eterno Padawan e aprendiz. Amigo dos ursos, dos elfos e das águias. Nativo de Krypton e apreciador da sétima, nona e de TODAS as artes. Quando tentado sempre rebato; "sou um Jedi, como meu pai antes de mim".