Crítica | Na Idade da Inocência

estrelas 3,5

Abordando mais uma vez uma de suas temáticas de maior interesse – como já fizera em obras como Os Incompreendidos e O Garoto Selvagem, François Truffaut nos traz mais um longa-metragem sobre a infância. Na Idade da Inocência, contudo, se diferencia de tais propostas anteriores do realizador ao nos trazer uma linguagem quase que documental, não abordando uma excentricidade como no caso de O Garoto Selvagem, mas nos trazendo um olhar íntimo sobre as crianças em seu lugar comum.

O filme não conta exatamente com um protagonista, ao invés disso foca em um grupo de jovens da cidade de Thiers, nos oferecendo breves olhares sobre situações dentro da vida de cada um, desde a sala de aula até situações de perigo e até mesmo relances de peripécias pelo amor. Com um foco oscilante entre os diferentes personagens, Truffaut consegue prender nossa atenção seja pelo humor ou a tensão, que se destaca pelo naturalismo de cada cena. Em ponto algum da narrativa conseguimos nos convencer que ali vemos atores e não apenas crianças, de fato, vivendo suas vidas, fruto, é claro, da direção precisa de François.

O diretor, porém, não deseja nos fixar no lugar comum e dispensa o olhar fantasioso sobre a infância, que torna cada um dos indivíduos pináculos da inocência – ao contrário do que o título sugere enxergamos na obra um retrato verídico de pequenos seres humanos, com sonhos, objetivos próprios – trata-se da área cinzenta que a psique humana se encontra e não da hipocrisia comumente vista onde a criança é tida como boa por excelência. Chega a ser assustador como diversas delas parecem como pequenos adultos. Para isso, a direção de fotografia de Pierre-William Glenn, que acompanhara o diretor em obras como o inesquecível A Noite Americana, preza por uma linguagem mais clássica, utilizando apenas alguns poucos movimentos de câmera e enquadramentos que não fogem do comum.

Despindo-se desse maniqueísmo e nos colocando como praticamente um interlocutor silencioso dentro da narrativa, o filme, através da montagem de Yann Dedet, utiliza alguns planos estáticos acompanhados por uma música de caráter mais alegre para nos situar dentro das inúmeras transições entre personagens, sem, assim, causar uma maior confusão no espectador. Essa medida, contudo, acaba prejudicando o ritmo da obra, que já anda em um terreno acidentado devido a ausência quase que completa de uma linearidade. Aos poucos o espectador deve se forçar a continuar assistindo, se prendendo nos inúmeros elementos positivos – já citados – que sofrem abalos pela fluidez prejudicada do longa.

Felizmente, mesmo com tal percalço, Na Idade da Inocência consegue marcar seu espectador, oferecendo um olhar pouco visto sobre a infância. Truffaut mais uma vez se prova como um exímio diretor, transformando o que vemos em tela na mais pura realidade. Está longe de ser o melhor do diretor, mas certamente vale a experiência.

Na Idade da Inocência (L’argent de poche – França, 1976)
Direção:
François Truffaut
Roteiro: François Truffaut, Suzanne Schiffman
Elenco: Georges Desmouceaux, Philippe Goldmann, Nicole Félix, Tania Torrens, René Barnerias, Chantal Mercier
Duração: 104 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.