Crítica | Na Mira do Atirador (2017)

estrelas 3

Thrillers de ação minimalistas são sempre curiosidades que exigem um roteiro e uma direção inteligentes para funcionar. O último lançamento de monta nessa linha foi Águas Rasas, que conseguiu ser muito eficiente ao colocar Blake Lively, sozinha, sitiada por um tubarão incansável. Com maior ou menor sucesso, outros filmes nessa veia também vêm à mente, como o muito comentado Enterrado Vivo e o clássico Encurralado que colocam um ou dois personagens em uma situação limítrofe.

Originado a partir de um roteiro não encomendado (spec script), o primeiro desse tipo comprado pela Amazon Studios, que cada vez mais investe em filmes para serem lançados no cinema, Na Mira do Atirador tem, claro, uma premissa simples. Ao final da Guerra do Iraque, em 2007, dois soldados americanos – um atirador de elite (sniper) e um “olheiro” (spotter) – são encurralados atrás de uma parede em processo de desmoronamento, no meio do deserto iraquiano, por um misterioso e extremamente preciso sniper inimigo e eles têm que tentar sobreviver à situação. É quase uma premissa de videogame de 8 bits, mas que o roteiro de Dwain Worrell (mais conhecido como um dos roteiristas da 1ª temporada de Punho de Ferro) consegue estendê-la e transformá-la em um texto que tem uma boa lógica interna, justificando o longa-metragem.

Mas o destaque fica mesmo para a direção de Doug Liman, responsável pelos sensacionais A Identidade Bourne e No Limite do Amanhã, além de outros menos relevantes. Usando constantemente uma câmera baixa, próxima ao chão, ele mantém o espectador como uma testemunha ocular principalmente do drama do sargento Allen Isaac (Aaron Taylor-Johnson), que é o foco quase exclusivo da fita. Ele, porém, não faz uso de movimentos bruscos ou de planos curtos, tentando chamar mais atenção para si do que para o que está em frente à câmera como muitos diretores atuais cismam em fazer. Muito ao contrário, seus planos são bem mais longos do que o que se costuma ver em filmes de ação, dando tempo para a trama desenrolar-se, mas sem fazer a história arrastar-se mais do que deveria. Com essa aparente “calma”, o diretor nos convida a contemplar Isaac em seus estranhos diálogos entabulados com o sniper iraquiano que entra em contato com ele via seu equipamento pessoal de comunicação, estabelecendo uma inusitada ligação que tenta expor os dois lados da guerra e, ao mesmo tempo, construir a narrativa que justifica toda a situação e os eventos ao final.

O texto, por vezes, porém, é simplista demais, tentando pintar um retrato maniqueísta do conflito que muitas vezes soa descompassado e artificial. São nesses momentos que o espectador passa a sentir a duração – ainda que curta – da obra, mesmo que Taylor-Johnson faça um esforço comendável de atuação transitando entre o soldado perdido, o estrategista militar e o caipira ignorante americano.

A grande pergunta que fica é: a proposta narrativa funciona de verdade? Afinal, o artifício que dá impulso a filmes desse tipo precisa ser mais do que apenas uma desculpa para clicar no botão “rec” da câmera, transcendendo  a pecha de “filme de uma tecla só” que só costumam prender o espectador por seu tempo de duração e, mesmo assim, com algum esforço, sendo apagado da mente logo em seguida. Tentando responder a pergunta, é sem dúvida interessante ver Liman lidando criativamente com as restrições impostas pelo roteiro e pelo orçamento de três milhões de dólares (que, confesso, pouco se justificam) e mantendo um ritmo constante em sua fita. No entanto, por incrível que pareça, em momento algum ele consegue gerar aquele tipo de tensão que poderíamos esperar. A ameaça invisível do atirador iraquiano é por vezes etérea demais, longínqua demais e o drama de Isaac, nesse processo, acaba ficando diluído. Ainda há muito o que se admirar, sem dúvida, mas é estranho ver o espaçamento que existe entre os momentos tensos que acabam esfriando a narrativa na medida em que passamos a entender o endgame do iraquiano. E mesmo essa revelação surpresa, que pode sim ter um quê de perturbadora, muito provavelmente não arregalará olhos e nem levará a exclamações genuínas da plateia.

Arriscaria dizer que é thriller anticlimático apenas. Não consegue ir além do jogo que põe em movimento, mas não decepciona se olharmos o conjunto dos trabalhos de Liman e de Taylor-Johson. Aliás, vale um parênteses sobre o ator: tendo ganhado destaque com o seu Dave Lizewski dos filmes da franquia Kick-Ass e repetindo o papel de super-herói como Mercúrio em Era de Ultron, ele vem conseguindo firmar-se em surpreendentes papeis como Ray Marcus, de Animais Noturnos (que lhe valeu o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante) e, agora, o sargento Isaac, demonstrando franca disposição de sair completamente de qualquer zona de conforto.

Na Mira do Atirador, no final das contas, diverte e traz um pouquinho de tensão, mas não consegue ser mais do que uma premissa interessante dirigida por um diretor competente.

Na Mira do Atirador (The Wall, EUA – 2017)
Direção: Doug Liman
Roteiro: Dwain Worrell
Elenco: Aaron Taylor-Johnson, John Cena, Laith Nakli
Duração: 88 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.