Crítica | Na Natureza Selvagem

“A felicidade só é verdadeira quando compartilhada.”

Contém spoilers.

Henry Thoreau, autor de obras interessantes como Desobediência Civil, disse, em uma de suas escritas, que a riqueza de um homem é proporcional às coisas que tem capacidade de abrir mão. Christopher McCandless (Emile Hirsch), movido pelas palavras de pensadores como esse – referenciado na obra aqui interpretada -, de ideais como esse, deixou de lado a maior parte dos seus bens materiais, desassociando-se da sociedade que o abrigava até então, para rumar à liberdade absoluta tão almejada. Consigo, apenas resquícios vagos do mundo que vivera outrora, em tempos não tão distantes, mas perdidos, diferentemente das literaturas de seu interesse, mantidas ao seu lado. O garoto, assim, vagou para o Oeste dos Estados Unidos, boa parte da jornada à pé, em uma constante contemplação “solitária” do verdadeiro mundo, entrecortado por construções de metal. Thoreau provavelmente consideraria Alexander Supertramp, identidade adotada pelo jovem em sua aventura pelo selvagem, um dos homens mais ricos que já existiram. Uma história que inspirou milhares de pessoas e que também inspiraria Sean Penn a dirigir uma versão cinematográfica dessa narrativa improvável. O diretor usa, portanto, de sua visão, certeira sobre essa “mitologia”, para explorar uma natureza indescritível por livros de ciência ou programas ambientais, verdadeiramente fascinante apenas aos olhos de aventureiros únicos como este.

A ótica lacrimejada do personagem, enxergando animais, emociona, contudo, o intrínseco da obra está nas relações humanas, que Christopher apenas entende e admira quando finalmente permite as viver em sua completude. A infância e adolescência conturbada do protagonista, em meio a uma organização familiar completamente falida, norteada por um casal disfuncional, não permitiu que o jovem se atrelasse muito aos seus pais. A presença de Jan Burres (Catherine Keener) e Rainey (Brian H. Dierker), por isso, torna-se essencial para a pressuposta desconstrução de pensamento do jovem, desgostoso com o homem, mas contente com o natural. Os dois entram em cena como vagas figuras paternas, que, diferentemente do garoto, seguem a vida se aventurando pelas estradas, não pela natureza propriamente dita. Os atores, se saindo bem nos seus respectivos papéis, convencem plenamente em termos de performance, principalmente Catherine, incorporando uma mãe carregada de frustração, pesar inerente ao ser humano. Já Hal Holbrook, intérprete de Ron Franz, apresenta-se como o verdadeiro ápice interpretativo do longa-metragem, dando crédito a um homem aposentado com um passado trágico, que enxerga em Christopher a possibilidade de, finalmente, ter um alguém para repassar sua experiência, um alguém para chamar de neto. O relacionamento entre os dois é muito bonito, tocante, sobre mútuo aprender.

As interpretações menores também são eficientes. Kristen Stewart, a exemplo, trabalha com decência o papel lhe conferido, da personagem, ainda mais inexperiente que o protagonista, Tracy Tatro. O mais importante dessa figura, no entanto, contrariando um olhar mais individual, apresenta-se na inocência de como Supertramp enxerga a menina, causando influências ainda maiores na construção do sentimento de empatia entre o espectador e o protagonista, observado de uma maneira singular e graciosa, quase pura. A natureza aventurada pelo garoto, paralelamente a isto, também é preenchida de significado. O sentimental olhar de Emile Hirsch para um simples veado, cheio de camadas – reiterando-se uma pontuação anterior -, atribui à jornada uma aproximação emocionante, do momento, ao que os mais ingênuos chamariam de felicidade. Se os relacionamentos que o personagem movimenta durante o seu grandioso trajeto – destaca-se também Wayne Westerberg (Vince Vaughn) – já superam uma visão mais “egoísta” – juvenil – da aventura do jovem, deixando para trás seus pais no caminho, a trilha sonora, surpreendentemente, ainda a engrandece. As composições de Eddie Vedder, do Pearl Jam, casam perfeitamente com o espírito da narrativa, sobre as intangibilidades de um mundo. A verborragia musical, para alguns, pode ser também interpretada como um complemento excepcional da aventura do garoto – uma retomada charmosa.

Mesmo assim, devemos no atentar ao bom trabalho do roteiro em expor as causas das atitudes de Chris, usando de uma narração um pouco expositiva, mas perdoável, da irmã de Supertramp, Carine McCandless (Jena Malone), para nos aproximar, mesmo que discordando, dos interesses e justificativas envoltas da decisão extremamente radical tomada pelo protagonista. As maiores implicações críticas a Christopher McCandless, por outro lado, abordam um possível aspecto “suicida” de sua viagem, visto que o garoto adentrou o Stampede Trail – intercalado narrativamente com o passado – completamente despreparado. Como aborda Jon Krakauer, autor do livro Na Natureza Selvagem, dando, obviamente, base ao filme homônimo, a arrogância investida, por muitos, sobre a imagem do aventureiro oriunda-se de um desejo inalcançável do jovem, o ousando a desbravar um espaço em branco do mapa. Segundo Krakauer, como em 1992 existiam poucos, senão nenhum lugar desconhecido pelo homem, o dilema fora resolvido com a elegante ideia do abandono de um guia, de um mapa. Uma ironia, nos dias atuais, na forma como os turistas vivenciam o famoso ônibus contraria imensamente a idealização de uma vida avulsa ao materialismo cancerígeno da sociedade – os curiosos, infelizmente, já depredaram intensamente o Fairbanks Bus 142, arrancando pedaços do transporte com o intuito de ter-se uma recordação do momento, porque, para eles, as memórias não bastam.

As memórias e os sentimentos, imateriais,  porém, são muito mais puros, verdadeiros, que qualquer uma dessas coisas possíveis de serem tocadas, detentoras de uma data de validade, portanto, frágeis ao que o humano representa. Uma ilustração perfeita da obra como um todo, no final das contas, é Wish You Were Here, do álbum homônimo da banda de rock progressivo Pink Floyd. A canção, por muitos, é considerada um clamor pelo retorno de um amor, como literalmente poderia se entender pelo título, queria que você estivesse aqui. Os leigos, imersos em vossos direitos de livre interpretação, não percebem que a faixa, ao mesmo tempo que pode ser sobre o romântico, também não poderia ser mais atmosférica ao filme – e à vida insuperável de McCandless. O jovem, nesses dois anos de sua trajetória pelo mundo, destrocou cinzas quentes por árvores, o ar quente pela brisa fria, o conforto frio por mudanças. Em um mundo que não consegue distinguir campos esverdeados de trilhos gelados de aço, Chris conseguiu ir além e aprendeu, superando estratosfericamente frases prontas sobre como o viver há de ser, a distinguir sorrisos de máscaras, o paraíso do inferno, céus azuis da dor. O jovem deixou de correr no mesmo velho chão; de nadar em um aquário. Aqueles velhos mesmos medos de antes foram embora. Na Natureza Selvagem enxerga o natural como uma maneira de despertar a humanidade dentro do ser humano, a entender-se como o que há de verdadeiro.

Os que acreditam que a morte trágica desse grande protagonista – conclusão, novamente, engrandecendo a história e, em razão disso, soando negativa para aqueles que creem em um engrandecimento, contudo, do suicídio – diminui a magnitude da experiência do personagem principal, pela natureza selvagem, estão enormemente equivocados. O término de uma jornada, pelo menos aos olhos do cineasta em questão, não encerra com antecedência pessimista, abruptamente, um encontro do personagem com o conhecimento almejado. O seu fim permite novos significados ao banal, característica a como muitos, entretanto, associam a morte do jovem, mas o garoto, ao menos, teve a coragem de largar aquele papel principal dentro de uma cela, para tomar o papel de figurante dentro de uma guerra. Uma “guerra” contra a ambição desgovernada e a globalização totalitária, indo de encontro ao mais humano possível sobre o homem. Contra a ganância que acaba combatendo a compaixão, dentre outras virtudes. Na Natureza Selvagem faz justiça a uma história acidentalmente curta de um garoto grande em dimensões e desejos, que tirou partido das coisas pequenas, soube aproveitar o tempo ao lado das pessoas que o acaso o fez se encontrar, compartilhando da felicidade com elas e inspirando, postumamente, mudanças na vida de milhares de desconhecidos, graças à expansão de sua lenda pelas mãos de Jon Krakauer e, agora, pelas mãos habilidosas de Sean Penn.

“Tive uma vida feliz, e agradeço ao Senhor. Adeus e que Deus vos abençoe todos.”

Na Natureza Selvagem (Into The Wild) — EUA, 2007
Direção:
Sean Penn
Roteiro: Sean Penn, baseado no livro Into the Wild, de Jon Krakauer
Elenco: Emile Hirsch, Marcia Gay Harden, William Hurt, Jena Malone, Catherine Keener, Brian Dierker, Vince Vaughn, Zach Galifianakis, Kristen Stewart, Hal Holbrook
Duração: 148 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.