Crítica | Na Teia de Aranha (2001)

estrelas 3

É interessante como certas produções, não só pelo gênero ao qual pertencem — como o suspense, por exemplo, que tende a despertar, no mínimo, curiosidade –, mas também por uma premissa atraente, apesar de terem tudo para dar certo, perdem, se não todo, boa parte do seu potencial narrativo simplesmente por não conceder a ela o devido recheio a uma massa tão deliciosa. Afinal, uma narrativa não sobrevive apenas com uma introdução intrigante e com uma ou outra reviravolta, é necessário desenvolvê-la, aprofundá-la adequadamente para que o público passe a se identificar com os personagens e a se importar com o desenrolar da trama.

É nesse recheio que falha Na Teia de Aranha, adaptação cinematográfica de livro de James Patterson, sequência do filme Beijos que Matam, de 1997, também baseado em obra do mesmo autor. Em Na Teia de Aranha, pela segunda vez, Morgan Freeman encarna o detetive Alex Cross, que vive, aparentemente, recluso depois de um acidente durante uma operação policial. De fato, a culpa de Cross é explicitada no começo do longa, mas, fora uma menção ou outra ao acidente em pontos específicos da produção, o trauma do detetive não é aprofundado de modo algum; ponto que, se por um lado, evita a armadilha de um melodrama ineficaz, representa uma das características da referida apatia da narrativa.

O marasmo de Cross é interrompido, contudo, quando o professor de informática Gary Sonegi (Michael Wincott) sequestra a filha de um senador americano, burlando a vigilância metódica de uma escola para filhos de políticos. O professor, porém, não cobra pelo resgate, nem faz qualquer exigência específica, apenas entra em contato com Cross e o convida a entrar no caso. O detetive, então, alia-se a uma agente do Serviço Secreto americano, Jezzie Flannigan (Monica Potter), uma das encarregadas da vigilância na escola quando se deu o sequestro, e iniciam uma caçada ao professor. Como dito, tal premissa poderia configurar-se em um ótimo thriller, com tantos pontos de interesse para trabalhar, mas nem mesmo Freeman, com sua ótima presença de câmera, consegue elevar a produção do seu status de regular, beirando o indigesto. O pobre desenvolvimento de personagens não só não ajuda, mas é, com certeza, o maior problema. Tome-se como exemplos, além do próprio Cross, Flannigan, que, o espectador fica sabendo, tinha uma forte ligação com o pai morto, mas porque ela deixa isso explícito em palavras, quase que exclusivamente, e o roteiro não estimula a atriz a convencer emocionalmente o público acerca de tal ligação e a relacioná-la, mesmo que indiretamente, com a perda da menina que ela era encarregada de vigiar.

Do vilão, por sua vez, nem se fala. Sim, o personagem aparece em cenas interessantes, que fogem do clichê, ao longo da trama, mas elas, por si sós, não bastam para disfarçar sua retratação rasa. É, claramente, um maníaco bem humorado, que Wincott encarna com competência, todavia, outra vez, o roteiro não ajuda, quase não o fazendo falar além de juras proféticas, privando-o de qualquer discurso mais elaborado que exponha mais claramente sua motivação e sequer justificando direito a obsessão do homem pelo detetive. A trama também possui mais de uma reviravolta interessante – principalmente, claro, a última delas, como se espera -, mas os personagens envolvidos simplesmente são tão rasos que o que quer que aconteça com eles, ou o que quer que revelem, a certa altura desperta pouco ou nenhum interesse. Já os momentos finais, são completamente previsíveis, sabe-se exatamente como o conflito terminará, mas o ato teima em estender-se, insistindo numa tentativa de estimular a agonia do público por figuras tão desinteressantes.

A trilha sonora orquestrada é discreta, adaptando-se bem às cenas, possuindo um ou outro momento interessante durante certas sequências de ação. No mais, é apenas um típico filme para meramente distrair em um dia chuvoso, com pipoca e, como oferta o vilão à sequestrada, numa das melhores tiradas bem humoradas do roteiro, com um chazinho de limão.

Na Teia de Aranha (Along Came a Spider), EUA – 2000
Direção: Lee Tamahori
Roteiro: Marc Moss (baseado em obra de James Patterson)
Elenco: Morgan Freeman, Monica Potter, Michael Wincott, Dylan Baker, Mika Boorem, Anton Yelchin, Kim Hawthorne, Jay O. Sanders, Billy Burke, Michael Moriarty
Duração: 104 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.