Crítica | Na Ventania

estrelas 4,5

A ocupação da União Soviética aos Estados bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia) se deu como uma consequência natural ao Pacto Molotov–Ribbentrop (ou germano-soviético), firmado em agosto de 1939, colocando paz temporária e garantindo terras para o Terceiro Reich e o Império Soviético. Menos de um ano depois, Stálin já havia ocupado as três nações e as tinha incorporado à URSS, situação que permaneceu até final junho de 1941, quando Hitler iniciou sua ofensiva contra os comunistas, cruzando a fronteira da Estônia no início de julho daquele ano. É entre as famosas “Deportações de Junho” (14 de junho de 1941) e a chegada dos nazistas ao país (algo entre 7 e 9 de julho de 1941) que os primeiros momentos do filme Na Ventania (2014) se passa.

Primeiro longa-metragem do diretor Martti Helde, Na Ventania começa estabelecendo um espaço de testemunho histórico, mostrando ao espectador a motivação para o roteiro e o que, de fato, a obra pretende mostrar. Estes letreiros iniciais são importantíssimos para que desavisados ou espectadores que clamam por narrativas de caráter literário, didático ou de documentário informativo entendam a proposta da obra e não cobrem dela mais do que se dispõe a dar. Seria correto classificar o longa como uma poesia em imagens sobre o Holocausto Soviético, um filme contemplativo sobre o que um regime político criminoso pode fazer a nações e a milhões de pessoas em nome de algum tipo de “união social” que não vem, jamais.

Na noite de 14 de Junho de 1941, mais de 40.000 inocentes foram deportados da Estônia, Letônia e Lituânia. O objetivo da operação secreta, ordenada por Stálin, era a limpeza étnica dos povos nativos nos países bálticos. Entre os milhares estava Erna Tamm, cujas cartas da Sibéria inspiraram esta história.

Posto o princípio histórico e a interpretação desse momento através de uma abordagem lírica e então poética, o espectador entenderá a escolha do preto e branco para a fotografia (magnificamente executada por Erik Põllumaa) e o modelo de quadros ou pinturas vivas (tableau vivant) para a disposição dos atores em cena. Após uma apresentação de um passado quase idílico, onde vemos parte do cotidiano do casal Erna e Heldur, entendemos que algo muito ruim está para acontecer. É a noite das deportações. A partir desse momento, à exceção de dois blocos (uma lembrança do rio onde a protagonista passara momentos felizes e a sequência final), tudo o que veremos na tela será a exposição de atores e atrizes em ação suspensa, como que congelados na História através de uma memória pessoal da qual somos convidados a fazer parte.

O filme não é o primeiro a realizar isto no cinema, mas certamente é um dos que usa por mais tempo essa técnica. O leitor pode encontrar aplicações notáveis do tableau vivant ao longo da história do cinema de uma forma mais pontual em Dias de Ira (1943) e Minha Bela Dama (1964); de forma moderada em A Hipótese do Quadro Roubado (1979) e de forma ampla no magnífico O Moinho e a Cruz (2011). A diferença dessas obras para Na Ventania, é que muito mais do que uma direção milimétrica e estupenda fotografia, estamos diante de uma memória de guerra, de deportação, de campos de trabalho forçado e eugenia social contadas através de um monólogo de leitura, onde as cartas da refugiada Erna Tamm são lidas como se estivessem sendo escritas naquele momento.

Ao optar por não dramatizar a História ou a memória histórica — note-se que não há um único diálogo no filme –, o diretor Martti Helde se distancia o máximo possível do evento e nos mostra uma saga de sobrevivência como se visitasse, por um breve momento, cada um daqueles espaços. Um museu da deportação. E talvez como uma representação falha da memória, esses eventos estão imóveis, expostos tal qual fotografias de uma prisioneira política lembrando de eventos que, pelo conteúdo, podem enquadrar-se em temáticas vistas em Vá e Veja (1985), Underground – Mentiras de Guerra (1995) ou O Filho de Saul (2015), onde não só o horror da guerra, mas as agruras impostas pelo regime aparecem, bem como a divisão de lados entre os cidadãos, a luta pela sobrevivência, algumas lascas de sentimento e o definhar da humanidade naqueles que sofrem.

Novamente, devemos estabelecer o paradoxal “distanciamento na semelhança” entre Na Ventania e essas obras citadas. Porque mesmo com os fuzilamentos, as condenações sem julgamento, a miséria e as centenas de outros estados deploráveis dos soviéticos oprimidos pelo regime de Stálin, vemos que a leveza e postura de Erna permanecem com ela. O sofrimento, neste filme, serve como um espaço para a reflexão e crítica. O depoimento talvez esteja floreado pela memória e pelo passar do tempo (para ler mais sobre esse efeito na relação entre História e Memória clique qui), mas jamais se coloca como glamourizado pelo cineasta. As imagens mostradas, os diferentes pontos de vista, a escolha por planificar a fita inicialmente com planos fechados que aos poucos se abrem até grandes planos gerais para em seguida fecharem-se novamente no indivíduo, a trilha sonora lacrimosa, toda a estética do filme ajuda a contar uma história entre silêncios e apontamentos pessoais da protagonista. Aí temos uma longa jornada, não apenas de uma mulher forte, mas de uma nação (ou de muitas nações) inteira.

Infelizmente, Na Ventania é um filme cifrado para quem não conhece pelo menos um pouco desse período da História e para quem não tem olhos mais atentos para as muitas funções de uma estética ousada como a que se utiliza aqui. É perigoso até saírem da sessão reclamando de que a obra “não fala nada” e que ela é apenas “uma história visualmente impactante”. É preciso respirar fundo, ouvir o silêncio e perceber que a maneira escolhida para expor o conteúdo de algumas cartas não foi à toa.

Essa forma irá desaguar em poesia e, como sabemos, esse gênero literário, principalmente quando evocado em imagens, fala muito mais por síntese do que pelo embate entre tese e antítese. Não espere discussões entre partidos políticos, diálogos críticos ao comunismo e ao Holocausto Soviético ou gritos de horror daqueles que atravessavam a Sibéria para os campos de trabalho. Ou as reuniões da Luta Armada. Ou as conversas de gabinete do governo. Na Ventania é um filme de memória e, tão frágil e tão incerto quanto esta, se mostra imóvel, como se quisesse dizer algo que o tempo não permite mais ou que a própria memória não sabe dizer. Com o tempo, até o horror é levado pelo vento. E talvez aí surja a esperança para a junção de hemisférios diferentes, onde o reencontro (entre almas ou entre vivos e a paz? — o final do filme nos deixa em suspenso sobre isso) pode acontecer. Talvez aí a poesia termine. E o sonho, ao vento, enfim comece.

Na Ventania (Risttuules) — Estônia, 2014
Direção: Martti Helde
Roteiro: Martti Helde, Liis Nimik
Elenco: Laura Peterson, Tarmo Song, Mirt Preegel, Ingrid Isotamm, Einar Hillep
Duração: 90 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.