Crítica | “Nação Zumbi” – Nação Zumbi

estrelas 3

No mundo da música uma tarefa difícil é agradar aos críticos e aos fãs. Se a banda não muda o estilo ou se arrisca, todos reclamam de falta de inovação. Se ela muda o estilo e se arrisca em algo novo, todos reclamam que a banda fugiu de suas origens. O que os fãs e críticos devem realmente avaliar é a qualidade do som, independente de outros fatores, mas isso é o que menos acontece. Esse caso é similar ao que aconteceu com o recente álbum homônimo da Nação Zumbi.

A banda teve um impacto grande no cenário musical do Brasil na década de 90, junto com seu frontman, Chico Science. A proposta era um som bem característico do Nordeste que misturava diversas influências: rock, hip-hop, samba e reggae, resultando no movimento Manguebeat. Infelizmente, a banda só conseguiu lançar dois álbuns com Science, o cantor foi morto em um acidente de carro em 1997. A banda não deixou que o incidente fosse seu fim, os vocais foram passados para Jorge Du Peixe, que ficou com a responsabilidade de ocupar a vaga do carismático cantor. Quase todos os fãs comparam os tempos antes e pós Chico, isso é inevitável, apesar de ser uma discussão bem equivocada. Jorge e Chico são diferentes: onde um erra, o outro acerta, e vice versa. A essência do grupo ainda é a mesma, mas o estilo da banda demonstrou mudar bastante com o passar dos anos. Só não percebeu que a banda é cada vez menos Manguebeat quem é surdo, a influência do rock ficou cada vez mais evidente e agora chega ao ápice da clareza em Nação Zumbi, que soa como um álbum de pop rock com influências regionais. No entanto, esse feito não é só de males como alguns fãs pensam, a banda inova em alguns aspectos e mostra que continua fazendo um som de qualidade.

Cicatriz, o single lançado em fevereiro, é um resumo do que viria a ser o álbum. A canção é destaque, claramente pelo seu pop rock que não abandona o regionalismo presente no som da banda. As inteligentes letras continuam presentes em faixas como a crítica de Bala Perdida, (Antes da hora, vi quando você passou/ pra se esconder em outro alguém) e na ótima melodia de Um Sonho. A banda não possui mais o manguebeat como principal característica, as alfaias estão muito menos presentes nesse disco, mas a dose certa do estilo ainda está presente, como no excelente arranjo de Foi de Amor, nos riffs de guitarra de Pegando Fogo e até no rock alternativo de Defeito Perfeito e Novas Auroras. O álbum possui uma grande surpresa: a tranquila A Melhor Hora da Praia, que possui participação de Marisa Monte, tipo de faixa que ninguém esperava escutar em um álbum da Nação Zumbi.

O som característico da antiga Nação Zumbi era o que fazia a banda ser única, abandonar um pouco essa sonoridade é claramente a maior falha do disco. O estilo comercial adotado deixa difícil afirmar que o que se vê é algo inédito, lembra muito a sonoridade pop rock/MPB de outras bandas e artistas brasileiros. O maior erro acaba sendo tentar inovar entrando em um cenário que não é novo. O álbum como um todo reforça isso, mas especialmente faixas como Cuidado, O Que Te Faz Sorrir e Nunca Te Vi desgastam bastante o álbum.

Nação Zumbi demonstrou um bom trabalho em seu disco homônimo, ainda que ele seja um pouco cansativo. A tentativa de misturar o rock com o Manguebeat não é tão benéfica como foi em Fome de Tudo (excelente álbum) e soa monótono em alguns momentos. No entanto, a qualidade musical que a banda continua proporcionando é notável e isso é o mais importante, por isso, ainda vale a pena apertar o play algumas vezes no novo disco.

Nação Zumbi
Artista: Nação Zumbi
País: Brasil
Lançamento: 5 de maio de 2014
Gravadora: Slap, Som Livre
Estilo: Pop Rock, Manguebeat

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.