Crítica | Nada a Perder – Contra Tudo. Por Todos.

“Contra TUDO. Por TODOS.” – Eu achava que essas frases eram aquela costumeiras bregas de materiais de divulgação, mas não é que eram os subtítulos do filme mesmo! Maior plot-twist da história.

A Igreja Universal do Reino de Deus, fundada por Edir Macedo, cresceu pelas décadas de uma forma avassaladora, reunindo milhões de fiéis ao redor do Brasil – e do mundo, visto que atua em países da África e até mesmo em Portugal. Dessa forma, era realmente difícil que um filme como esse, encomendado, senão pelo próprio, por homens e mulheres ao redor dele, fosse se aproximar de outro caminho que não a aproximação ou quase cruzamento da figura do bispo evangélico com a de Deus. O sucesso é garantido, seja pela adoração dos fiéis, que encontram na religião coisas belíssimas, indescritíveis nas palavras dos que não creem (como este que vos escrever), seja pela compra de centenas de ingressos e distribuição de tais, muitas vezes sem serem efetivamente utilizados. Todo universo envolto de Edir Macedo, enfim, é, digamos, polêmico. Há diversas controvérsias; intriga da oposição para aqueles que não acreditam na queda de homens, na falha de seres humanos. Macedo é um mensageiro, predestinado não a escalar árvores, mas passar montanhas, como mesmo diz a sua mãe, encarnada por Beth Goulart. Em seu filme, porém, Alexandre Avancini, que vem, “surpreendentemente”, da adaptação de Dez Mandamentos, novela que virou filme da Record (esta, posse de Macedo), não apenas fracassa em aproveitar o alto investimento e criar uma obra cinematograficamente interessante, como deixa na cara, para todos aqueles com senso crítico, de indagar o que se é oferecido, que Nada a Perder é uma propaganda de mais de duas horas da Igreja Universal e seu divino líder.

Podemos perceber isso na forma problemática como as adversidades são apresentadas. Edir Macedo, interpretado por três atores durante décadas de história sendo contada, sofre por inúmeras complicações em sua trajetória, sabotado por – quase – todos. Poucas ou nenhuma contradição são antagonizações convincentes, ou melhor, longes de maquiavelismos covardes para, no caso, invalidar a “concorrência”. É incrível, porém, que o longa-metragem não tenha coragem de utilizar o nome Globo em momento algum. Ao menos, outras contemplações são feitas, como a forma de mostrar que Macedo, e apenas Macedo, fazia o que fazia por paixão, com vontade. Os outros pastores são jogados para o lado, ora preconceituosos, ora descrentes da capacidade de homens moverem pedras. R. R. Soares (André Gonçalves), grande “rival” de Macedo e líder da Igreja Internacional da Graça de Deus, permanece na indistinta superficialidade vilanesca, contraditória aos desejos de Macedo, incapaz de acreditar no potencial de seu cunhado como pregador. No relacionamento com a sua esposa, Ester (Day Mesquita), o homem abruptamente revela facetas de uma personalidade mais imperativa, que grita com a sua mulher e a obriga a ser quem ele quer que ela seja. Tudo bem, eis uma controvérsia a ser dissertada sobre esse personagem, nuances sendo apresentadas. Nada a Perder revela que tem muita coisa a perder: a desmitificação de uma lenda. Ester, portanto, torna-se a mulher aparentemente submissa, visto que mais nada entre o casal é exibido nas telas, a não ser um pedido de casamento aleatório (o que, curiosamente, encontra paralelo com a realidade).

Mas até onde vai a jornada do líder para a eterna glória cinemática? A arte é parcial, mas a arte é mentirosa? Deixando tal debate de lado, e aceitando os desvios da veracidade, até os extremos, para fins narrativos, nada justifica a tenebrosidade que é a apresentação da primeira controvérsia envolvendo o nome do Bispo. Na incorporação de uma ficcionalidade descarada, que nem tenta ser realista, artificial meramente pela forma como três personagens distantes surgem em cena para criticar Macedo, temos um filme absurdamente tendencioso. Ora, a prisão dele em 1992 foi totalmente planejada, orquestrada por três, mas três, mentes “criminosas” – um juiz, um político e um padre. Todos os três atores, incluindo Dalton Vigh, estão péssimos ao incorporar figuras realmente díspares do público, feitas para serem assim, desarmoniosas. De tal forma, desqualifica-se uma prisão, definitivamente desproporcional com a realidade (não havia motivo para Edir Macedo, naquele momento, ser mantido preso), mas não tão maliciosa quanto a que aconteceu. Quase uma arquitetação, da forma como foi mostrada, do Willy Coiote para pegar o Papá-Leguas. Aliás, muitos dos policiais que prendem Macedo são versões do Capitão Nascimento. Por que diabos todos os oficiais estão armados, apontando a extensão de seus falos para o Bispo, durante a sua prisão? Se foi isso que aconteceu, ora, é mais que obrigação do roteiro nos apresentar uma boa argumentação que nos fizesse crer em como foi capaz aquele homem estar atrás das grades, preso. O amor dos fiéis funciona para os fiéis que já amam o seu líder. Mesmo o sentimento caminhando por uma única via, certamente é algo a ser não destroçado, mas talvez compreendido e aceitado. Para os que não já o amam, é in-crível.

Durante tudo isso, surge uma exceção a regra, mais tocante que o esperado, vide a beleza da canção que tal cena incorpora para si. Na trama, Macedo vai para o meio da praça e começa a pregar, cantando uma canção engrandecedora, salvadora. Em mãos hábeis, teríamos um grande momento dramático de redenção, de união com o transcendente, mesmo que já estragado pela repetição incansável de arco, uma constante assertiva de aceitação. Avancini, por meros segundos, brinca com tal possibilidade, mas recai em clichês, cafonices amadoras. Durante o suplício, a tristeza, a chuva inunda a cabeça de Macedo. A trilha sonora instrumental, por exemplo, é utilizada da maneira mais óbvia possível. Em determinada situação, entretanto, Otávio de Mesquita faz o completo oposto, colocando melodias leves para contrastar, equivocadamente, com uma cena relativa a doença, dor. A já citada exaltação enfurecida de Macedo com a sua esposa trouxe risadas do público, quando deveria trazer revolta. Se por um lado, graças ao orçamento invejável, temos uma reconstrução de época fascinante, os diálogos, no meio de tudo isso, ou são pregações redundantes, afirmações e reafirmações das crenças e dos louvores, ou são afirmações ou reafirmações que reiteram coisas previamente estabelecidas pela narrativa. Apenas um texto mal escrito mesmo. O dinheiro existe, mas onde está o talento? Onde está a capacidade de se construir uma cinebiografia coerente, que não uma peça episódica da vida de um homem que, no caso, contratou pessoas para criar uma peça episódica da vida de si mesmo. Uma espécie de biografia autorizada, assinada, concordada, aceitada, comprada, implorada para ser feita.

Tantas digressões surgem que uma exata contabilidade do que se perde ao fim de tanta idolatria é impossível. As mãos de Macedo, problemáticas de um passado de bullying, somem. A exemplificar, a deformidade de sua filha é nada mais do que um novo percalço na vida deste homem que Nada a Perder insiste em nos afirmar que é sofrido. Porém, o longa-metragem nos faz questão de engolir toda a trajetória de Macedo como se fosse importante para a história que quer ser contada cada pedacinho de sua vida. Uma enorme massagem do ego de sua memória. Quando quer retomar coisas do passado, uma narrativa cíclica, Avancini usa de flashbacks do que já fora mostrado porque o público não é inteligente o suficiente para conectar frases de efeito bobocas. Ademais, em cenas como os primeiros momentos de Macedo com Ester, Petrônio Gontijo aparece (envelhecendo 40 anos um personagem que envelheceu 10) e mostra não saber controlar um riso doentio, cheio de falas curtas e artificiais, despropositadas. É uma versão de thriller sobre slashers, no qual a mocinha é capturada por um senhor se passando de jovem com um sorriso retardado, mas por algum motivo encantador. Eu fugiria de medo se fosse ela. Outrossim, ainda temos espaço para um curta feito por um aluno de primeiro período de uma faculdade de cinema baseado em O Exorcista, um drama de tribunal em que o juiz é um incompetente e um filme policial cheio de não-suspense e não-inventividade, mas muita glorificação. Tudo genérico e breve, parte de um retalho de fases de um videogame no qual Macedo é o herói principal. Mas por que não uma obra religiosa honesta? Ao menos, bem executada. Enquanto isso não acontece para o grande público, a sequência de Nada a Perder é anunciada e a trilogia Deus Não Está Morto está prestes a ser completada. Será que vão mencionar os ataques do bispo evangélico a religiões afro-descendentes?

  • Observação: Há uma “cena pós-créditos” que nos transporta para a sequência do filme, marcada para 2019. Estou sentindo cheiro de franquia ou Edir Macedo se unirá aos Vingadores na continuação de Guerra Infinita, ao lado da Capitã Marvel?
  • Observação²: Há também uma revolução no cinema religioso (ou seria no cinema propaganda) que é a inclusão de uma reza no final da sessão. Sem brincadeiras. Espero que isso não seja um spoiler. O mesmo pode ser dito de uma espécie de presente que é dado, um símbolo até interessante de passagens da Bíblia. Outra forma de propaganda, mesmo assim.
  • Observação³: Sobre o presente que ganhei, apesar de não crer na religião, muito menos na instituição, guardarei-o com carinho pelo mesmo carinho das pessoas que o me deram. Se há amor nisso, na esperança de que o homem ainda provê o amor com amor, intenção positiva, nem que seja só nisso, ao menos valeu-me de algo a sessão e agradeço, esperando poder retribuir um dia o trabalho.

Nada a Perder – Contra Tudo. Por Todos. – Brasil, 2018
Direção: Alexandre Avancini
Roteiro: Emílio Boechat, Stephen P. Lindsay
Elenco: Petrônio Gontijo, Day Mesquita, Dalton Vigh, Leonardo Franco, Eduardo Galvão, Cesar Mello, Raphael Viana, Beth Goulart, André Gonçalves, André Garolli, José Victor Pires, Larissa Ferrara, Enzo Barone, Pedro Henrique Moutinho, Greta Antoine, Camila Czerkes, Paulo Coronato, Marcello Airoldi, Rafael Awi, Otávio Martins, Ana Elisa Mattos
Duração: 130 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.