Crítica | Namor: As Profundezas

estrelas 5,0

Contém Spoilers

Uma crítica sem spoiler seria mais abrangente em termos de público, pelo menos se tratando de uma minissérie difícil de ser encontrada aqui no Brasil. Pecaria, todavia, em conteúdo, já que Namor: As Profundezas aborda alguns aspectos raros em histórias em quadrinhos, usando um escopo pequenino para criticar temas modernos. Longe de querer escrever uma tese de mestrado ou dez páginas de resenha, citar os spoilers é aproveitar a oportunidade para louvar as sutilezas que arte e roteiro conseguem trazer nessa obra que é, antes de tudo, um bem realizado suspense.

Tratando-se de Marvel, personagens que não estão na estante de cima da editora geralmente rendem boas histórias, experimentações das mais diversas e espaços para um foco distinto do clichê super-heróico. O selo Marvel Knights foi criado com o intuito de trazer narrativas mais adultas e de maior qualidade nesse sentido, como ocorreu com a trilogia das cores de Jeph Loeb e Surfista Prateado: Requiem. O roteirista Peter Milligan, que viria a escrever Hellblazer por anos e Liga da Justiça Sombria nos Novos 52 da DC, juntou-se ao excelente artista croata Esad Ribic, que já tivera participação na HQ citada do Surfista e ganharia ainda mais destaque ao dar vida ao Thor de Jason Aaron, na Marvel Now, para trazer aos leitores um dos primeiros heróis dos quadrinhos e, certamente, um dos que tiveram sua base de fãs diminuída com o passar dos anos: Namor, o príncipe submarino.

Mas Namor é só um mito na história aqui revista. Longe de ser um herói, um guerreiro ou um X-Men, o príncipe de Atlântida é uma lenda desacreditada pelos reais protagonistas da história, Doutor Stein e a tripulação de um navio que investigará a verdade por trás da lenda da cidade perdida. Com ares quase lovecraftianos, o roteiro expõe em seu texto um embate já conhecido: de um lado o cético doutor, que inicia a narrativa provando a inexistência do Pé Grande e se encontra cercado de estereotipados homens de fé, crentes em lendas e, na visão racionalista do protagonista, covardes; de outro, o mito já conhecido pelo leitor, o personagem que aparecerá uma hora ou outra, o ser superpoderoso que demolirá todo o pedestal em que Stein colocou seu método científico. A graça das cinco edições, previsíveis até certo ponto, é o modo como Milligan e Ribic trabalham a razão e a fé. É a primeira mescla que faz As Profundezas uma história memorável.

A profundidade do mar, servindo como metáfora para o limite da razão humana, consegue sugar o temperamento de Stein a cada número. De uma postura prudente e convicta, logo se cai na intemperança e na teimosia, algo previsto pelo próprio tripulante Nelson, talvez o mais tranquilo de toda a história, ainda na primeira edição: “Quanto mais fundo se vai, mais criaturas se insinuam na escuridão”. A dimensão de Namor, aqui servindo apenas pontualmente como símbolo do abismo em que nenhum homem ousa cair, toma proporções gigantescas em um roteiro que coloca o leitor sob um ponto de vista usualmente descartado nesse gênero – a lembrança da magnífica Marvels é inevitável. Mas Milligan e RIbic não abrem mão do terror psicológico: seja com silhuetas e sombras, seja com ângulos propícios, ora focados na imensidão do mar, ora na expressão ímpar de cada olhar que Ribic se aproxima, há escuridão em cada página dessa minissérie a partir do momento que a expedição começa. Até que Namor aparece.

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A sensação claustrofóbica cada vez maior tem seu pico em uma das melhores splash pages que já vi, muito pelo caminho que a precedeu. A primeira aparição do príncipe submarino é imponente e um dos melhores exemplos do poder da arte de Ribic. Confesso que todo o meu medo de tal evento estragar a história, pois já se espera tal acontecimento, se esvaiu para um real temor da figura ali colocada tomar lugar. Talvez, a principal questão é que tal aparição representa o embate esperado de Dr. Stein e seus demônios internos. Namor nada mais é do que o ponto final de um homem que caminhou até seu abismo. O “terrível protetor de Atlântida”, como é dito por um personagem, acaba por ser o guarda de uma outra distopia, aquele lugar até então inexistente para Dr. Stein, cercado de demônios internos e onde a deusa Ciência perde seu chão. Milligan trabalha tão bem sua crítica nietzschiana que consegue respeitar o estereótipo cético colocado em Stein e o faz recusar a tragédia ocorrida pela aparição de Namor: o doutor nega o que viu e o que tocou para seus companheiros crentes. Nas palavras do pensador alemão, “o homem ainda preferirá querer o nada a nada querer”. Namor representa o passo que Stein não tem coragem de dar.

Em um primeiro momento, a impressão trazida é a do orgulho ferido, mas encontrar o abismo de si mesmo apresenta-se apenas como um segundo e aterrorizante duelo, graças à sutileza da escrita de Milligan com os detalhes do passado de Stein. A recusa e a loucura decorrente mostram até onde o homem das ciências pode chegar e o dano que pode causar para evitar o enfrentamento que se mostra inevitável. Milligan traz temas caros à filosofia retomada nos últimos dois séculos e vistas em obras semelhantemente ambientadas, pois além de possuir uma casca de homem x natureza, Namor: As Profundezas aborda o desespero de seu protagonista de forma incomum nessa mídia, ao mesmo tempo que sabe o que o leitor espera, utilizando bem o distanciamento de crença de seu protagonista para criar uma possível dinâmica de admiração afastada do leitor em relação à jornada de Stein. É como se estivéssemos admirando uma crítica à Modernidade, à sua incapacidade que projeta o paraíso no futuro, ao espírito livre pregado por homens do conhecimento científico, novos ateus e progressistas que bradam para não assumir a própria ruína, tão centrados em si mesmos que não percebem a nova deificação feita. À fé na verdade, nas palavras de Nietzsche.

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A ligação com textos do filósofo alemão e tantos outros não é subjetiva. Peguemos, como último exemplo, a admissão da inexistência de Atlântida feita pelo doutor em uma conferência, na última edição. Com pânico e arrependimento nos olhos – representados belamente pelo traço e pelo foco pontual dado por Ribic – Stein mente à comunidade científica para amargar sua experiência na solidão. Não é só seu último momento nesse ambiente, mas também o instante decisivo em que olha para seu próprio abismo, em que sente a vertigem decorrente. Quando diz, nas páginas seguintes, que quase acredita em sua mentira, Stein nos passa a sensação do medo de enfrentar a escuridão, o sentimento de que a sua crença na ciência ainda não perdeu totalmente o chão…, mas ele sabe que não é possível esquecer o que ocorreu. Esse jogo contraposto da verdade para a ciência e da verdade interior de Stein, realizado por Milligan, se escancara nas duas últimas páginas, quando o doutor – ou ex-doutor – abandona seu diário e olha para o mar, com roupas semelhantes aos seus ex-companheiros de navio, aqueles mesmos tão ridicularizados pelo próprio Stein. O mar é o deserto aquático que se tornou sua existência. Sua vida até ali é a Atlântida utópica que se tornou distópica em um piscar de olhos.

“Que fui salvo pelo bolsão de ar, e não pela criatura que surgiu antes de eu perder a consciência” reflete Milligan, no pensamento de Stein. É nisso que ele quer acreditar. Na sua vida passada, no escape que a ciência proporciona ou, nas palavras de Nietszche, na “ciência como meio de autoanestesia”. Pois o protagonista ainda é como “(…) sofredores que não querem confessar a si mesmos o que são, com gente entorpecida e insensata que teme uma só coisa: ganhar consciência.”

Milligan e Ribic retratam um Namor como superior, além do bem e do mal. É o vazio das profundezas do mar que tanto bateu na cabeça de Stein que conseguiu penetrar, retirando-o a segurança de uma vida dedicada à pesquisa. A luz do conhecimento deixou de ser suficiente.

Sub-Mariner: The Depths (EUA, 2008-2009)
No Brasil: Namor: As Profundezas
Roteiro: Peter Milligan
Arte: Esad Ribic
120 páginas

ANTHONIO DELBON . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.