Crítica | Não Aceitamos Devoluções

estrelas 2,5

Em seu primeiro longa-metragem, o mexicano Eugenio Derbez cai no risco de nos trazer mais uma comédia comum, ao melhor estilo Até que a Sorte nos Separe. Porém, por pouco, o diretor nos traz uma obra levemente distante de tais produções cinematográficas, misturando o humor descerebrado com um tocante drama familiar. Não Aceitamos Devoluções certamente não inova, mas consegue prender seu espectador.

A trama, por mais que não seja a principal causadora de tal qualidade do filme, retrata a vida de Valentín Bravo (Eugenio Derbez), um bon-vivant que somente se interessa pelas mulheres aleatórias com quem acorda cada dia. Entretanto, sua vida é revirada quando uma dessas donzelas, Julie (Jessica Lindsey) aparece em sua porta com uma menina ainda bebê, alegando que esta é a filha de Valentín. Dito isso, a mulher volta para seu táxi e desaparece, deixando a garota com seu pai. Claramente desconcertado, o Don Juan decide ir atrás de Julie, que voltara para a Califórnia.

Neste ponto o longa foge de um clichê imediato, ao invés de retratar a busca pela mãe durante toda sua duração, tal jornada é resumida a um pequeno trecho da história, que acaba se transformando no motivo pelo qual Bravo decide cuidar de sua filha e morar em Los Angeles. A partir daqui, a obra utiliza transições criativas, já destacando o trabalho de montagem de Carlos Bolado e Santiago Pérez, que conseguem esconder a não tão fora do comum fotografia. Esta, sim, conta com planos visualmente belos (principalmente os mais abertos), mas, em sua maioria, caem na mesmice clássico-narrativa. Ainda assim, nada que salte aos olhos.

A maior qualidade de Não Aceitamos Devoluções está na relação entre Valentin e sua filha, Maggie (Loreto Peralta), já com sete anos. A química entre ambos é palpável e o crédito vai tanto para ambos os atores quanto para a direção de Derbez, que consegue não só dirigir a si mesmo como trazer uma convincente interpretação de Peralta em seu primeiro trabalho como atriz. Por mais surreal e fantasiosa que seja a vida da menina, a enxergamos com naturalidade, visto o encaixe orgânico dos dois em seus papéis.

Essa imersão bem construída na audiência, contudo, é quebrada pela comédia forçada, inserida aqui e lá na projeção e pela vilanização da figura na mãe no terço final da obra. Ao invés de seguir um caminho mais discreto, o roteiro peca pelo exagero ao tentar construir um final mais dramático, quando este poderia ter sido eficaz através de uma visão mais madura da relação conturbada entre Valentín e Julie. Para piorar a situação, ainda temos a presença de uma personagem desnecessária, a noiva de Julie, que acaba soando como uma forma de crítica à mãe por ela ter um relacionamento homossexual. A mulher não ocupa nenhum papel relevante dentro da trama e serve somente como o estopim de uma piada sem a menor graça.

No fim, contudo, Não Aceitamos Devoluções consegue cativar seu espectador, nos trazendo, nos minutos finais, de volta a uma trama mais delicada, deixando o humor forçado para trás. Por mais que o encerramento se estenda por um período desnecessário, o amor entre o pai e a filha se mantém dentro da mente de sua audiência, conseguindo nos prender, mesmo diante de uma obra que se arrisca cair no lugar comum das comédias descerebradas.

Não Aceitamos Devoluções (No se Aceptan Devoluciones, México – 2013)
Diretor: Eugenio Derbez
Roteiro: Guillermo Ríos, Leticia López Margalli
Elenco: Eugenio Derbez, Loreto Peralta, Hugo Stiglitz, Andrés Vázquez, Jessica Lindsey, Sammy Pérez, Arcelia Ramírez, Daniel Raymont, Jeannine Derbez, Karla Souza.
Duração: 115 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.