Crítica | Não Devore Meu Coração

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Não Devore Meu Coração tem como cenário principal o Rio Apa, a fronteira líquida entre Brasil e Paraguai. Lá, a realidade cruel de um conflito de gangues e a mitologia indígena dividem as águas, acendendo uma paixão juvenil e acirrando a hostilidade entre os dois povos.

O filme segue essas duas veredas que ora se atam ora se desatam, embora possuam o mesmo destino moral. O fato é que elas são diversas. A história de amor meio folclórica, meio fantástica dos adolescentes Joca e Basano corre paralelamente à trajetória acidentada de Fernando, integrante de um grupo de motoqueiros. Entre uma narrativa que surge como lenda e outra que aposta na veracidade, Não Devore Meu Coração é corajoso porque os dois caminhos poderiam não se cruzar de maneira orgânica e o público naturalmente teria um foco de predileção, repartindo o filme em dois. Felizmente, isso não acontece e os seguimentos díspares encontram unidade.

O diretor Felipe Bragança surpreende ao estetizar a divisa Brasil-Paraguai. Não esperamos aquele visual (que lembra a fotografia de Drive de Nicolas Winding Refn) numa ambientação rural e fronteiriça. Até mesmo em um humilde cemitério desponta na tela uma improvável cruz néon, fazendo-nos crer que a beleza não precisa rimar com realidade. Assim como a trilha climática de sintetizadores e o uso elegante e reiterado do zoom, o filme tem enquadramentos lindos e bem pensados.

O maior defeito de Não Devore Meu Coração são os diálogos. Excessivamente expositivos e explicativos, possuem algo de teatralizado. Nas falas cujas intenções são poéticas, nada soa autêntico ou natural. O peso da encenação em demasia cai sobre o filme e prejudica sua exibição. O filme é inspirado em contos breves do escritor Joca Reiners Terron e parece ter herdado pouco da sutileza do autor mato-grossense.

O projeto é interessante e cinematograficamente bem realizado, mas perde — e muito — ao escolher atores desaquecidos e frases ilustrativas para contar sua história.

Não devore meu coração – Brasil, 2017
Direção: Felipe Bragança.
Roteiro: Felipe Bragança.
Elenco: Eduardo Macedo, Cauã Reymond, Zahy Guajajara, Ney Matogrosso, Cláudia Assunção, Leopoldo Pacheco.
Duração: 106 min.

MAURÍCIO ROSA . . . Maurício Rosa é um cara do século 19 ou dos anos 70 ou do futuro, mas, definitivamente, não é um homem do aqui e agora. É poeta ocasional e brinca com as palavras para produzir textura e afeto. Tem 26 anos e persegue uma dramaturgia para o desenredo desse mundo. Pisciano, destro, cinéfilo e eterno amante das mulheres da arte.