Crítica | Não Era Você Que Eu Esperava

Contém alguns spoilers

Uma das coisas que mais gosto em Graphic Novels autobiográficas é a sinceridade com que os autores expõem problemáticas que normalmente são tabus para a grande maioria das pessoas. É quase o oposto do que acontece nas redes sociais, onde todo mundo é feliz e não enfrenta nenhum problema. Dito isso, é preciso bater palmas para Fabien Toumé, autor de Não Era Você Que Eu Esperava. Ele vai além do que podemos chamar de honestidade e abre o coração para contar através de uma simpática história em quadrinhos sobre os momentos divertidos, angustiantes, apreensivos, tristes e certamente difíceis encontrados na paternidade e que todo pai e mãe enfrentam com maior ou menor intensidade.

Se você ainda não possui prole, não sentiu o frio na barriga que é acompanhar o exame de translucência nucal, uma mera medida que pode significar indícios de Síndrome de Down ou outras anomalias de ordem cromossômica. Realizada no primeiro trimestre de gestação, não te dá uma resposta definitiva sobre a condição do bebê, mas é onde normalmente a maioria dos pais começam a ler, pesquisar e fazer cálculos estatísticos sobre a trissomia 21. E também onde começam a temê-la. E Fabien, que saiu aliviado dos exames e só descobriu após o parto sobre a condição da filha, não tem vergonha de contar sobre isto. Ele sabe que no íntimo todos pensaram ou pensarão nas mesmas coisas que ele. Todos enfrentaram ou enfrentarão os mesmos medos que ele. Mas a maioria tenta romantizar a situação, que de romântica não tem nada. A maioria gosta de falar do sucesso ou dos desafios superados, mas nunca dos medos e fraquezas do caminho.

A graphic novel transborda então as qualidades e defeitos do ser humano de uma forma bela, simples e muito sincera. Empatia é a chave para entender alguns pensamentos que passam na cabeça do pai antes, durante e depois da descoberta. A naturalidade com que ele conta os detalhes mais íntimos provoca um misto paradoxal onde nossos sentimentos insistem em julgá-lo mas perdoá-lo ao mesmo tempo. Sim, ele por vezes chegou a torcer para a menina morrer, só para não ter que lidar com isso.

Ce n’est pas toi que j’attendais não era você que eu esperava plano crítico

Também produzida pelo autor, a parte visual é singela e usa traços simples, não exatamente minimalistas, porém suficientes para transmitir os sentimentos tão intensos presentes em cada situação. Tons azuis depressivos, amarelos felizes ou vermelhos furiosos ajudam a nos colocar no clima destes sentimentos de Fabien, de sua esposa brasileira e até mesmo de sua filha mais velha, que também tem momentos interessantes ao contracenar com a nova criança que chega. Há algumas críticas sociais e uma nítida diferenciação do estilo de atendimento médico no Brasil e na França. Os cenários dos dois países também são caricatos, passando uma visão também honesta de como Fabien enxerga a terra pátria de sua esposa, ainda que nós brasileiros possamos nos constranger um pouco com alguns exageros nos traços tupiniquins.

Não Era Você Que Eu Esperava é, em seu cerne, uma sinceridade escancarada, capaz de provocar empatia e desconforto, sem deixar de informar, ensinar, explicar e te convencer de que, assim como tudo na vida, um filho com Síndrome de Down não é o fim do mundo. Pelo contrário, para Fabien, foi uma alquimia inesperada e inicialmente dolorosa, mas que transformou o insuportável em imprescindível. O inaceitável em essencial. Lidar da melhor forma possível com os problemas que nos surgem talvez seja mais recompensador do que esperar uma vida sem problemas ou desafios, fórmula default para se conceituar felicidade na sociedade moderna.

Não era você que eu esperava (Ce n’est pas toi que j’attendais) — França, 2014
Roteiro: Fabien Toumé
Arte: Fabien Toumé
Editora Original: Delcourt
Tradução: Fernando Scheibe
No Brasil: Nemo, 2017
Páginas: 256

BRUNO CAVALCANTI . . . [Ao som de Top Gear....] Localização: Terra - Via Láctea - Universo Observável. Sou um terráqueo padrão, que se entretém sabe-se lá do quê com livros, filmes, quadrinhos e games. Falante excessivo a 30 anos, só dispenso um bom papo se o assunto for pagode ou Big Brother. Adepto da paz, não gosto de polêmicas. Mas a DC é claramente melhor que a Marvel. Se for me dar um livro, abra-o antes e escreva uma dedicatória. Não dou muito valor ao plástico do lacre, já que ele sempre vai pro lixo. Agora, se o presente for pro meu filho de 2 anos, ele me disse aqui que prefere um carrinho. De preferência um Jipe. E de preferência azul.