Crítica | Não Me Toque

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Não Me Toque é um filme difícil, em muitos sentidos.

Por sua proposta de descobrimento das pessoas envolvidas, ele é difícil porque nos coloca diante de situações que, para nós, não é necessariamente confortável. E por isso mesmo também nos coloca como parte do experimento de uma pesquisa particular sobre intimidade. Por sua liberdade ao pensar corpos, sexo, libido, desejos, convenções sociais e auto-estima, ele é difícil porque se torna um desafio cifrado, diante do qual a gente realmente não sabe o que fazer (e sim, todos entendemos que a experiência aqui vai bem além da pura contemplação). E por fim, por sua tênue fronteira entre realidade e ficção, ele é difícil porque nos confunde, nos tira as certezas, nos deixa com muito mais perguntas do que respostas, nos provoca. Eu quase não escrevi sobre a obra, que vi na 42ª Mostra SP, mas resolvi fazer uma abordagem diferente e peço que se você que está lendo viu o filme, compartilhe também, nos comentários, a sua experiência, leitura e visão geral da obra.

Em tela, temos Laura, Tómas e Christian, que, segundo as entrevistas dadas pela diretora Adina Pintilie, “estão propondo uma visão empática sobre suas vidas“. No conteúdo, uma constante luta diante da barreira anunciada no próprio título: não me toque. O longa não é um documentário, é um drama bastante realista, mas o flerte com esse gênero é mais que óbvio e a quebra da parede cinematográfica acontece até como parte do ciclo da fita, separando a diretora de seus objetos humanos de estudo. As perguntas são muitas, as sensações são muitas e o filme atravessa cada uma delas com grande urgência. Do meio para o fim da experiência, como não aparecem novos rostos nesse processo de descoberta, temos uma estranha impressão de loop narrativo, repetição que, para mim, atrapalhou bastante acompanhar a conclusão, que na derradeira cena — belíssima e revigorante, por final — volta aos trilhos, talvez apontando para uma “cura” em relação à questão do toque.

Diferentes corpos e idades; diferentes tipos e histórias pessoais; diferentes condições de saúde, sinais, marcas, cicatrizes e todos com o mesmo objetivo: encontrar a si mesmo com a ajuda do outro. Alguns depoimentos são do tipo que nos atinge em cheio, nos joga na cara verdades em relação à beleza, às regras de viver em sociedade e à percepção dos outros para o que somos e que nos faz rir de nervoso. O conceito de usar uma máscara pra ser aceito vem à tona, mas como toda a narrativa está ligada à interiorização das pessoas e o quão confortáveis elas se sentem próximas a outros corpos, a discussão acaba indo para uma trilha mais sensitiva.

A sugestão de uma questão paterna por parte de Laura Benson é o bloco mais solto do filme, o que me pareceu imprudência do roteiro, pois esse era um ponto-chave para escolher onde colocar a personagem. Na última cena, onde uma possível “libertação” acontece, vemos a atriz-personagem no hospital com um homem (seu pai?) e sua atitude ali indica (fisicamente, inclusive) a quebra de alguma coisa (do passado, talvez?). Notem que as sugestões são todas abertas e que não temos algo realmente sólido para seguir, a não ser a já referida e bela cena final. Evidente que linhas narrativas abertas podem ser propostas maravilhosas, mas não é o caso do presente filme. Durante todo o tempo a nossa experiência é tátil, tem a ver com fluídos, gemidos, pelos, órgãos genitais, expressões honestas do que se pensa, gosta ou desgosta de seu copo ou do corpo do outro. Diante de tanta abertura, uma linha narrativa que se mantém aberta ou enigmática demais me parece uma falha grave.

No todo, a experiência é poderosa. A obra falha, mas toca o espectador (o trocadilho é real!) e fazer com que ele repense algumas visões e até julgar uma segunda vez esta ou aquela atitude de um personagem do filme. Não Me Toque é um daqueles filmes onde a avaliação final, mais do que em qualquer outro tipo de obra, será fortemente influenciada pela experiência, entendimento ou rejeição de cada um. Como eu disse no início, não é um filme fácil. E justamente por isso, é um filme definitivamente importante.

para R.M. & Fe

Não Me Toque (Touch Me Not) — Romênia, Alemanha, República Checa, Bulgária, França, 2018
Direção: Adina Pintilie
Roteiro: Adina Pintilie
Elenco: Laura Benson, Tómas Lemarquis, Christian Bayerlein, Grit Uhlemann, Adina Pintilie, Hanna Hofmann, Seani Love, Irmena Chichikova, Rainer Steffen, Georgi Naldzhiev, Dirk Lange, Annett Sawallisch
Duração: 123 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.