Crítica | Não Pare na Pista – A Melhor História de Paulo Coelho

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estrelas 2

Não é tarefa fácil realizar uma cinebiografia do autor brasileiro com o maior número de livros vendidos no exterior. Não somente pela grande controvérsia que este representa na sociedade brasileira – que exibe, através de seu público leitor, uma relação ame/ odeie – como pelo próprio fato de Paulo Coelho, sabidamente, não ser aberto à ideia de ter seus livros adaptados – já que ele próprio não gostou dos resultados anteriores. Nos vemos, então, diante de Não Pare na Pista, a primeira obra que visa nos transmitir a chamada melhor história do autor.

Baseada, primariamente, em relatos do escritor, somos levados em uma viagem que se divide em três tempos: os anos 60, 80 e 2013, trazendo diferentes estágios da vida de Paulo. A escolha em mostrá-lo na atualidade se encaixa com harmonia nos primeiros minutos de projeção, mas, ao passo que avançamos na trama, tais sequências começam a soar desnecessárias, não trazendo um valor narrativo relevante e somente nos afastando do objeto de interesse do espectador, que é sua vida quando jovem. Para piorar, o mesmo ator que vive Coelho nos anos 80, Júlio Andrade, o encarna nos tempos atuais, atuando sob uma forte maquiagem que somente funciona para quebrar ainda mais nossa imersão, ao passo que visivelmente afeta a atuação de Andrade. Essa oscilação entre passado e presente acaba não nos convencendo na maior parte da projeção, quebrando constantemente o ritmo da trama – nesse sentido, o filme se beneficiaria de uma narrativa mais clássica.

Enquanto de um lado temos a falta de convencionalidades do outro há o exagero. A fotografia, aliada da montagem, nos traz uma estrutura digna de novelas globais, dispensando uma desejável criatividade na formação de seus planos e sequências. O mais que constante uso dos planos e contra planos acaba desvalorizando cenas inteiras, que contavam com o potencial de cativar o espectador facilmente. Tais características acabam cansando a audiência, que, ainda na metade da obra, já anseia pelo seu término. Ironicamente, contudo, é neste ponto que a projeção ganha uma sobrevida, chegando nos anos 70 e realmente cativando, por instantes, o espectador, que passa a testemunhar a história de Paulo ao lado do astro do rock, Raul Seixas (Lucci Ferreira). As sequências que envolvem a criação de músicas famosas como Al Capone são verdadeiramente empolgantes, facilmente provocando sorrisos nos fãs de Raul. Garantindo essa retomada de nossa atenção está a atuação de Júlio Andrade, que admite uma maior identificação com o personagem nesta época. Além disso, a harmonia entre Raul e Paulo se torna rapidamente palpável, mérito do trabalho de Lucci Ferreira como o rockeiro.

O mesmo não pode ser dito do restante da projeção, ao passo que exibe atuações robóticas, em conjunto com um trabalho de direção ainda amador de Daniel Augusto. São esses marcantes deslizes que tornam ainda mais claros os problemas do roteiro, que, a cada instante, busca enaltecer a figura de Paulo, colocando na trama uma visível jornada do herói que simplesmente não funciona. Tudo soa artificial no longa-metragem, em especial quando ouvimos a narração, em espanhol, no mestre de Coelho, atuando como uma voz de auto-ajuda mística, se espelhando claramente nos livros do escritor. Obras cinematográficas precisam, sim, exprimir as diferentes opiniões de seu realizador, mas, para que nos convença, é preciso de um texto que busque a identificação com o espectador e não somente jogue uma sucessão de fatos aleatórios esperando por um resultado positivo.

No fim, Não Pare na Pista é exatamente isso, uma grande colcha de retalhos visando uma história dinâmica de pontos chave da vida de Paulo Coelho. O resultado fica muito aquém de seu objetivo, soando como histórias contadas de boca em boca, caindo mais em uma fraca ficção que na realidade propriamente dita. O potencial existia e a obra conta com diversos trechos interessantes que poderiam ser melhor abordados, mas ficam perdidos entre sequências artificiais e desnecessárias. A melhor história de Paulo Coelho, de fato, não foi contada da melhor maneira.

Não Pare na Pista – A Melhor História de Paulo Coelho (Brasil/ Espanha, 2013)
Direção:
Daniel Augusto
Roteiro:
Carolina Kotscho 
Elenco:
Júlio Andrade, Ravel Andrade, Lucci Ferreira, Letícia Colin, Fabiula Nascimento, Enrique Díaz, Paz Vega
Duração
: 112 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.