Crítica | Não Se Deve Profanar o Sono dos Mortos

Nao Se Deve Profanar o Sono dos Mortos

estrelas 3

As ressonâncias do sucesso de A Noite dos Mortos Vivos não demoraram em se estabelecer na produção cultural europeia. Conhecida no Brasil pelo título de Zumbi 3, graças ao mercado tosco de distribuição entre os anos 1980 e 1990 em território nacional, Não se Deve Profanar o Sono dos Mortos é uma interessante jornada pelo submundo dos zumbis.

Diferente da falta de explicação do filme referência, nesta produção, uma máquina agrícola que mata micróbios é a causadora dos males. Reanimados por radiação, os cadáveres locais levantam de seus túmulos e atacam as pessoas, numa busca sanguinolenta por carne humana. O filme começa com o hippie George (Ray Lovelock) deixando uma loja de antiguidades, indo em direção a um encontro entre amigos. No caminho, dá uma pausa para abastecer a moto, mas é surpreendido pela falta de habilidade na direção por parte de Edna (Cristina Gabo), uma mulher atrapalhada que danifica a sua moto e o deixa apenas com a opção de pegar uma carona.

A partir daí, peripécias vão deslocar os personagens de seus destinos e a luta pela sobrevivência se torna o foco central da narrativa. A forma do filme é primorosa: os zumbis possuem olhos avermelhados, graças ao excelente trabalho de maquiagem de Gianetto De Rossi; a cenografia capta, através de excelentes planos gerais, o cemitério utilizado pela produção, local “sagrado” e frequentado por turistas, haja vista que no espaço está enterrado a lendária figura de João Pequeno, parceiro de Robin Hood.

Os zumbis ainda não são ágeis, mas possuem características diferentes, como a ausência de dor ao serem atacados e o medo do fogo. Graças ao excelente trabalho de som do eficiente Giuliano Sorgini, Não se Deve Profanar o Sono dos Mortos ganha pontos extras, pois o sopro no microfone e os sons dos zumbis (extraída das memórias do diretor enquanto mexia no cadáver de seu pai momentos antes do enterro) são inquietantes e parte do angustiante processo de catarse proposto pelo filme.

O diretor Jorge Grau contou em entrevistas que estava interessado em filmar o macabro Cerimônia Sangrenta, mas o produtor lhe ofereceu um misto do filme com A Noite dos Mortos Vivos, de George Romero. Ao aceitar, o cineasta tinha a esperança de mais adiante, ter vigor para produzir os seus projetos pessoais. Além de orquestrar a narrativa, o diretor foi bastante presente na performance dos protagonistas, trazendo questões pessoais como uma espécie de realização de um filme-terapia.

Ele conta que quando criança, o seu pai agia de forma sádica, ao dizer que caso ele não se comportasse, criaturas malignas viriam puxá-lo pelos pés. No filme isso fica evidente nas cenas de perseguição, onde os personagens ficam a mercê dos monstros que habitam este terreno narrativo com final niilista. Ao pesquisar fotografias forenses, teve o insight de representar os zumbis como nas imagens dos cadáveres de acordo com a hora em que morreram.

No que tange aos aspectos da crítica sociopolítica, há na figura truculenta do inspetor, um importante personagem para o desenvolvimento narrativo, uma espécie de caricatura da ditadura e da opressão social nas relações de poder que dominam a sociedade. Os cenários poluídos e os ruídos urbanos denunciam o estado de estresse presente nos personagens, com um primeiro ato longo, preocupado em estabelecer o suspense, deixando a ação (e as mortes mais sanguinolentas) para o meio-final.

Sinistro e impiedoso, Não se Deve Profanar o Sono dos Mortos é criativo, dinâmico e inspira-se no clássico de George Romero, mas segue os seus próprios passos, e com isso, não fica devendo nada aos filmes que utilizou como ponto de partida.

Não se Deve Profanar o Sono dos Mortos (Itália, Estados Unidos – 1974)
Direção: Jorge Grau.
Roteiro: Juan Cobos, Sandro Continenza, Marcello Coscia, Miguel Rubio
Elenco: Arthur Kennedy, Aldo Massasso, Cristina Galbó, Fernando Hilbeck, Francisco Sanz, José Lifante, Paul Benson, Isabel Mestres.
Duração: 96 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.