Crítica | Narcos – 1ª Temporada

estrelas 4

Comparar a nova série do Netflix com Tropa de Elite com certeza não é um equívoco. A narrativa, que de cara nos insere em uma Medellín tomada pelo tráfico, possui, sim, características idênticas às do fenômeno do cinema nacional que alçou voo ao também diretor de dois episódios e produtor executivo desta produção, José Padilha, com dez episódios de quase uma hora cada um em sua primeira temporada.

Essas características incluem um narrador em off, que em Narcos é o agente Steve Murphy (Boyd Holbrook), enviado à Colômbia pela Agência Antidrogas Americana (DEA) para auxiliar no desmantelamento do cartel de Pablo Escobar e em sua captura, missão que aceita prontamente ao lado da esposa depois de perder o parceiro para o tráfico de cocaína nos EUA, durante uma ação armada. Também como em Tropa de Elite, inimigos estão além do ser palpável e ganham vida pelas engrenagens sociais, da própria cocaína à corrupção, à violência e, por extensão, ao medo. Sem falar na eventual repetição de sentenças – que a certo ponto incomodam por beirar à impressão de tentar, sem conseguir, igualar-se à eficácia dos jargões do filme do BOPE, mas em geral estão presentes em momentos propícios – e na ironia constante do narrador, extensão de um retrato que, não se engane, é tão crítico à política americana quanto à colombiana em sua exposição, no que a questão comunista talvez confira o maior apelo emocional, ainda que passageiro, ao espectador nesse contexto.

A última semelhança com o sucesso nacional de Padilha é, sem dúvida, o caráter ideológico da produção, infelizmente também o ponto que mais incomoda na temporada. Não pela ideologia em si, que envolve a defesa de que o bem e o mal são relativos e de que para pegar um cara ruim às vezes é necessário fazer algo ruim, mas pela exposição verbal repetitiva de tais pontos de vista, como uma imposição ou pregação, quando o desenrolar da trama, por si só, nos diz claramente ao que veio – problema esse, aliás, também perceptível no próprio Tropa de Elite. Narcos, porém, não está meramente restrito a uma receita que deu certo e mostra perícia em uma linguagem baseada no biográfico, recurso óbvio dada a proposta da produção, e no subgênero de filmes de máfia, com um ou outro diálogo ponderado, por vezes tenso e que eventualmente termina em violência e mesmo em morte. A temporada começa no final dos anos 70, quando a cocaína de Escobar inicia sua ascensão, e termina no princípio dos 90 em circunstâncias convenientes para isso, que aqui não se revelam em nome da fuga de spoilers (embora quem esteja suficientemente inteirado da biografia do traficante possa intuí-las, considerando-se a iminência de uma segunda e, pela lógica, última temporada).

Só que, apesar de inspirada no real – inclusive com imagens de arquivo -, a própria série deixa claro que toma suas liberdades, inclusive aludindo ao Realismo Mágico ou Realismo Fantástico, assim brincando com todo mito construído entorno de Escobar. Muitas peças que a trama encaixa, no entanto, criam elos tão lógicos que nos perguntamos o quão distantes estão da verdade.

Os primeiros quatro episódios são sólidos ao extremo, iniciando nossa imersão em Medellín, em seu povo e no funcionamento do tráfico da região naquele período, sempre com trilha e canções típicas, apresentando-nos à trajetória de mudanças na vida de Murphy – que de uma vida estável se vê em território colombiano desconhecido e, logo descobre na pele, hostil, por um autodeclarado senso ingênuo de patriotismo. São episódios baseados em fases e eventos importantes da vida de Escobar, como sua trajetória fracassada na política e o incidente na Suprema Corte Colombiana.

Já o quinto episódio e a segunda metade da temporada perdem o vigor inicial, com maiores ou menores problemas de ritmo. A problemática, veja bem, nem é tanta a gratuidade de uma cena ou outra para ocupar tempo de episódio, embora isso também ocorra, mas uma deficiência que já prejudicou muito Padilha em seu RoboCop: a dificuldade da produção em interiorizar personagens, que, no caso de Narcos, acaba mergulhada no factual, no dito recurso documental, no discurso, enquanto que o lado mais intimista dos personagens, a expressão do que os motiva em suas ações acaba ficando em segundo plano. Um exemplo muito palpável é o próprio Murphy, que a princípio descobrimos até como conheceu a esposa, mas acaba esquecido em meio a tantos elementos quando já estamos de todo absorvidos por seu drama ao chegar à Colômbia. Essa inconstância narrativa também acontece com o parceiro de Murphy em Medellín, Javier Peña (Pedro Pascal), outro personagem maravilhosamente introduzido, e mesmo Pablo Escobar, apesar de ótimo na pele de Wagner Moura, que em alguns momentos realmente nos convence de sua loucura e até de que é colombiano, ora manda, ora é carinhoso, ora persuasivo, ora explosivo, mas não tem de fato uma identidade construída em tela, um claro ponto de apoio, apego ou motivação, quase nada descobrimos de sua infância ou de sua citada luta para chegar aonde chegou. Até a evocação ao fantástico cai num equívoco de tom quando usada para justificar o mero sequestro de um agente ao final da temporada.

Mesmo problemática, entretanto, com um elenco ajustado, a segunda metade da produção se sustenta, concentrada em retratar o reino de terror de Escobar sobre as autoridades e a população que tanto o amou (ainda há no país quem o veja como um deus pelo auxílio que prestava aos pobres, assim como parte do ódio que inspirou se mantém igualmente viva). Com sacadas espertas, como brincar com o provável conhecimento prévio do espectador quanto à presença de Escobar na história ou criar um gancho entre episódios com o atentado ao avião da Avianca, recurso pouco atraente se tivéssemos de esperar pelo episódio seguinte, visto que o fim do avião é de conhecimento público, Narcos é mais um acerto do Netflix, que tem entre seus méritos tornar a Colômbia personagem ativa em sua beleza e calamidade.

Narcos- 1ª Temporada (Idem, EUA – 2015)
Showrunner: José Padilha
Direção: José Padilha, Guillermo Navarro, Andi Baiz, Fernando Coimbra
Roteiro: Carlo Bernard, Chris Brancato, Zach Calig, Paul Eckstein, Samir Mehta, Doug Miro, Nick Schenk
Elenco: Maurice Compte, Wagner Moura, Joanna Christi, Boyd Holbrook, Pedro Pascal, Stephanie Sigman, Roberto Urbina, Ana de la Reguera, Danielle Kennedy, Diego Cataño
Duração: 520 min (aprox.)

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.