Crítica | Narcos – 2ª Temporada

estrelas 4

Enquanto a primeira temporada de Narcos relatou a ascensão do império do narcotraficante Pablo Escobar – a ponto do homem ser preso em um complexo construído por ele próprio, regado a luxo -, a segunda, como o esperado, relata a sua queda, iniciando onde a primeira terminou, com a fuga de Pablo da prisão, e culminando com sua captura e morte, em Medelim, num esforço conjunto das autoridades colombianas e americanas, em 2 de dezembro de 1993. Assim como na temporada anterior, os novos 10 episódios disponibilizados pela Netflix – num total de 20 capítulos – mantém a qualidade vista inicialmente, concluindo, de modo redondo, a saga de um homem que se tornou uma lenda.

Os episódios inéditos conservam a estrutura narrativa apresentada na primeira temporada. Por meio da narrativa em off de Steve Murphy (Boyd Holbrook), o espectador é imerso, num tom quase documental, no gradual processo de desmantelamento da organização de Pablo (Wagner Moura) após sua fuga da prisão. Com o fiasco representado pela fuga do criminoso, a pressão internacional por sua captura cresce e, com a consequente perda constante de aliados, que já não enxergam o narcotraficante como alguém com o prestígio necessário para se manter no mercado – principalmente depois que um atentado a bomba em um shopping, repleto de civis, é associado a ele -, Escobar vê-se sozinho, reduzido a uns poucos capangas leais e afastado de sua família, suscetível à captura.

Pode-se dizer que os novos episódios até se saem melhores, em certos aspectos, do que os anteriores. Além do óbvio foco dos roteiros na reta final da vida de Pablo, os textos conseguem, também, distribuir melhor o tempo de cena para outros personagens importantes, como o próprio Steve Murphy e seu parceiro, Javier Pena (Pedro Pascal), o primeiro pela luta para manter sua esposa na Colômbia e, no caso do segundo, explorando o conflito do lado emocional contra o profissional do agente, a partir do seu envolvimento com uma prostituta. O próprio Escobar – que, a exemplo da temporada anterior, continua sendo interpretado de modo competente por Wagner Moura – ganha um foco interior com mais recheio, com flashbacks ainda inexistentes, mas com sua infância, pelo menos, enfim sendo abordada, em mais de uma ocasião, além de um bem conduzido diálogo do criminoso com o pai.

Outro ganho da temporada é que ela parece avançar de forma ligeiramente mais autônoma, mais segura quanto ao próprio formato, não sofrendo, como a anterior, de uma constante repetição verbal de certa ideologia. Não, os episódios deixam que o próprio rumo dos acontecimentos, tal como são relatados, digam ao que vieram. Tampouco Padilha parece continuar tentado a construir novos jargões, como que mais liberto, em relação à temporada anterior, de sua obra de maior sucesso até então: Tropa de Elite. Já em termos de ambientação, a série continua dispensando comentários. Mais do que isso, transita sem dificuldade entre as línguas castelhana e americana, conferindo grande realismo ao que se passa na tela – ao contrário das produções nas quais se apresentam personagens de um país conversando num idioma distinto do de sua pátria.

Com o nono episódio sendo o que mais sofre em termos de ritmo – como se 10 episódios esticassem a temporada quase além do necessário – e com a série só não atingindo pleno potencial por continuar se concentrando mais no fato do que no emocional – embora a nova temporada tenha chegado mais perto de tal equilíbrio -, Narcos encerra a saga de Pablo com competência, sabendo, é verdade, homenagear quem tanto sofreu com o reino de terror do narcotraficante e deixando claro que, apesar de morto, os efeitos de sua cocaína permanecem no mundo até hoje. Pena que, morto o homem, ainda resta a lenda.

Narcos- 2ª Temporada — EUA, 2016
Showrunners: José Padilha, Eric Newman
Direção: Andrés Baiz, Josef Kubota Wladyka, Gerardo Naranjo, Batan Silva
Roteiro: T.J. Brady, Steve Lightfoot, Curtis Gwinn
Elenco: Wagner Moura, Boyd Holbrook, Pedro Pascal, Joanna Christie, Paulina Gaitan, Diego Cataño, Paulina García, Raúl Méndez , Jorge A. Jimenez
Duração: 520 min (aprox.)

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.