Crítica | Narcos – 3ª Temporada

estrelas 4

– Contém spoilers apenas das temporadas anteriores.

Trocar um dos personagens centrais de uma história – independente da mídia, seja literatura, cinema ou televisão – não é algo fácil e muito raramente vemos alguma obra com a coragem o suficiente para fazer algo assim. A morte de Pablo Escobar, na segunda temporada de Narcos, já era inevitável desde o começo da série, a não ser que José Padilha e Eric Newman decidissem fugir da História por completo, algo que dificilmente seria feito, mesmo esta sendo, claro, uma obra de ficção e não um documentário preso à fidelidade de cada um dos eventos relacionados ao narcotráfico na Colômbia. Além disso, apesar do foco dado ao bandido, é preciso ter em mente que essa é uma série sobre a guerra contra o tráfico de drogas e não sobre Escobar, aspecto que, claro, garante a possibilidade de que sejam feitas inúmeras temporadas.

Esse terceiro ano do seriado, portanto, mostra como ele pode muito bem sobreviver sem a presença de Pablo e, consequentemente, Wagner Moura. Essa, porém, é apenas uma das muitas mudanças demonstradas, que são capazes de alterar o tom da série por completo. Atmosfera diferenciada essa que já se apresenta logo no primeiro episódio, que coloca em jogo o novo objetivo de Javier Peña (Pedro Pascal) e o DEA na Colômbia (agora sem Steve Murphy): acabar com o cartel de Cali, cujos métodos são completamente diferentes daqueles de Escobar, visto que priorizam alianças políticas e econômicas ao invés da violência utilizada pelo seu ex-competidor. Narrada, agora, por Peña, acompanhamos essa operação contra os traficantes, a qual, por razões políticas, precisa ser muito menos “explosiva” que a vista nas duas primeiras temporadas.

Um dos pontos que mais chamam a atenção é a forma como os líderes do tráfico de Cali são melhor colocados como vilões de fato do que o próprio Escobar. Sim, Pablo realizou ações monstruosas, mas a série fazia questão de mostrar seu lado familiar, brincando com o seu antagonismo, fazendo ele parecer quase o protagonista da história. Isso não ocorre aqui, não existe aquele olhar típico de Scarface ou Os Bons Companheiros, que primeiro faz essa vida criminosa soar atrativa para, depois, mostrar o quanto a pessoa é destruída por ela (junto de centenas de inocentes). Logo cedo, os “Cavalheiros de Cali”, como se chamam, são colocados como vilões e ponto. Esse ponto é salientado pelo uso mais pontual da violência, que, dessa forma, ganha mais força por não ser banalizada.

E o que aconteceu com a visão do espectador sobre o “outro lado”? Ela é transferida para Jorge Salcedo (Matias Varela), responsável pela segurança do Cartel, que, ao longo da temporada, possui seu próprio arco, muito bem delineado. Mesmo se tratando de um criminoso, porém, Salcedo se diferencia dos demais dessa organização criminosa: primeiro por querer sair fora, segundo por se recusar a portar armas, questão que deixa bastante clara a sua disposição em relação à violência. É preciso notar como todo o arco do personagem torna essa guerra ao tráfico mais e mais angustiante, ao ponto que torcemos para que ele, enfim, consiga sair dessa vida. Dessa maneira, o tráfico é retratado como ele deve ser: como algo a ser combatido, motivado por pessoas que apenas visam o lucro, em detrimento da vida de terceiros.

Essa vilania do cartel de Cali é apenas aumentada pela sensação de incerteza perpetuada ao longo da temporada, tão bem formada pelo nosso desconhecimento da completa esfera de influência desses criminosos. Se antes Peña e o DEA não podiam confiar em ninguém, isso é elevado à décima potência na terceira temporada, que, desde o início, deixa bastante claro que os métodos dos “cavalheiros” envolve comprar tudo e todos, desde políticos, passando por juízes, até policiais. Sim, isso já existia no comando de Escobar, mas não em uma escala tão grande quanto aqui. Esse ponto garante o suspense de todas as operações mostradas, já que não há como sabermos se elas irão dar certo ou não, questão muito bem trabalhada pela montagem paralela, que, até o momento certo, deixa a dúvida no ar, contribuindo para a formação dessa angustiante narrativa.

A temporada, porém, não deixa de apresentar seus deslizes. O primeiro a ser levantado é a falta de uma maior construção de Peña, que poderia ter ganhado um foco maior, ainda mais agora que seu antigo parceiro não está na jogada. Não fosse a excelente interpretação de Pedro Pascal, sentiríamos como se ele fosse só mais um agente. Mais cenas envolvendo o psicológico e o próprio lado pessoal do personagem poderiam substituir, facilmente, alguns dos trechos focados em Miguel Rodriguez (Francisco Denis), cuja construção é interrompida de uma hora para a outra, dando mais espaço para Jorge Salcedo, como se tivessem mudado de ideia no meio da temporada sobre quem construir, de fato. Isso nos faz sentir como se determinados trechos fossem pura enrolação, apenas dilatando a duração da temporada como um todo. em razão das quebras de ritmo.

Dito isso, nesse terceiro ano de Narcos, a série troca as loucuras realizadas por Pablo Escobar por algo repleto de incerteza e angústia, nos fazendo torcer ao máximo pelo agente Peña e os outros integrantes do DEA, além de Salcedo, claro, personagens esses, que, com o caminhar da narrativa, se tornam os únicos que não queremos ver mortos ou atrás das grades. Mesmo com seus pontuais deslizes, essa temporada demonstra toda a sua força através de seu forte suspense, fazendo, verdadeiramente, nos importarmos com o destino dos indivíduos retratados. O seriado original da Netflix, pois, não somente demonstrou que consegue viver sem a presença de Escobar, como nos entregou sua melhor temporada até então, deixando-nos esperançosos em relação ao seu futuro – se ele for renovado, claro.

Narcos – 3ª Temporada — EUA/ Colômbia, 2017
Showrunners: José Padilha, Eric Newman
Direção: Andrés Baiz, Gabriel Ripstein, Josef Wladyka, Fernando Coimbra
Roteiro: Carlo Bernard, Doug Miro, Eric Newman, David Matthews, Andy Black, Ashley Lyle, Bart Nickerson, Jason George, Santa Sierra, Clayton Trussell
Elenco: Pedro Pascal, Damián Alcázar, Alberto Ammann, Francisco Denis, Pêpê Rapazote,  Matias Varela, Javier Cámara,  Arturo Castro, Eric Lange, Andrea Londo, Kerry Bishé, Edward James Olmos, Shea Whigham, Brett Cullen, Miguel Ángel Silvestre
Duração: 520 min (aprox.)

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.