Crítica | Narradores de Javé

estrelas 5,0

SPOILERS!

“Nenhum documento é inocente. Deve ser analisado. Todo documento é um monumento que deve ser desestruturado, desmontado. O historiador não deve ser apenas capaz de discernir o que é “falso”, avaliar a credibilidade do documento, mas também saber desmistificá-lo.”

Jacques Le Goff – História e Memória

Atenção: devido aos diferentes usos e sentidos que terão aqui, utilizarei a palavra “História” (com ‘H’ maiúsculo) para designar a “ciência”, o estudo da História Humana; e história (com ‘h’ minúsculo) como substantivo comum, referindo-me à trama/roteiro/enredo do filme. Outra coisa: muitas palavras estão escritas fora da norma culta, como são ditas no filme.

Desde Kenoma (1997), a cineasta paulistana Eliane Caffé já demonstrava características autorais e modos muito peculiares de narrar suas histórias. Atentar para essas características é muito importante para se entender o trabalho da diretora, que escreve ou co-escreve roteiros partindo de temas quase absurdos e com foco em dramas individuais, levantando impasses socioculturais que afetam uma comunidade. Em suas aventuras humanas, ainda podemos encontrar espaços cênicos longínquos, preferivelmente o interior ou os extremos do Brasil, o sertão nordestino e personagens que representam diversas tribos, tipos e estereótipos; boa parte deles, atores profissionais e não-atores escolhidos ou oriundos da região e comunidades-locações.

Em Narradores de Javé (2003), segundo filme de Eliane Caffé, observamos uma ousada precisão no trabalho com a “dinâmica social” e seu ciclo histórico. A câmera constrói através dos 100 minutos, todo o funcionamento e perpetuação de várias facetas da memória popular. Não só o filme se ergue, mas toda uma realidade ganha vida com a iminência de uma catástrofe que afetará a todos. A obra ironiza o fato de a criação da história local só se tornar necessária em um tempo pré-escatológico, onde o medo atormenta a todos, intensificando-se conforme os dias passam e as lembranças de uma “Idade do Ouro”, nas origens heroicas do povoado, contrastam com a triste realidade do presente. Direção de arte, fotografia e figurinos são pedras angulares (em excelentes mãos) na criação, no contexto e na representação visual desses espaços e tempos.

O filme nos fala sobre o Vale de Javé, que está ameaçado pela construção de uma represa para a nova hidrelétrica. A única condição para a permanência do povoado “no caminho da águas” seria o seu tombamento a Patrimônio Histórico. Sem documentos que possam dar conta do importante passado, os habitantes resolvem escrever a epopeia de Javé com base nos fatos e depoimentos dos nativos — conforme suas próprias lembranças ou histórias ouvidas — função que é incumbida ao “intelectuário” Antônio Biá.

Em Narradores de Javé, os próprios moradores se tornam historiadores e os depoimentos cedidos estão permeados de parcialidade e louvor a este ou aquele herói fundador, conforme parentesco ou mesmo devaneios de quem conta. Por sua vez, esses depoimentos devem passar pelo aval de Biá, que, sabendo escrever, torna-se o historiador-cientista, aquele que supostamente pode transformar as mentiras da história oral em verdades da história oficial. O embate entre a ciência e o imaginário popular é constantemente trazido à tona por este Heródoto-Tucídides de moral duvidosa.

De posse dos depoimentos (que ele não anota, “grava tudinho na memória” para depois passar para o papel “de modo melhor, floreado no estilo gróticos”), Antônio Biá fará um recorte e uma mescla de tudo o que ouviu, documentando de sua própria lembrança a história épica do povoado de Javé. O roteiro é inteligente e riquíssimo em camadas, de modo que se contarmos todos os seus níveis de construção, teremos uma longa lista de motivos enredísticos. Nessa linha de análise, o filme se mostra como uma eterna mutação e a palavra é o monumento-documento em destaque, a começar pelo título, que propositalmente evoca a grandeza dos moradores pela etimologia do nome “Javé”: do hebraico YHWH, ou Jeová, o nome de Deus. No artigo Memória, de Jacques Le Goff, há uma abordagem interessante no que diz respeito à importância deste nome para a história do povo judeu:

No antigo testamento é, sobretudo, o Deuteronômio que apela para o dever da recordação e da memória constituinte. Memória que é antes de mais nada um reconhecimento de Yhwh, memória fundadora da identidade judaica […] (2006: 438).

O Vale de Javé é, por si só, o vale da memória e dos ídolos das origens (só para relembrar um pouco de Marc Bloch). Os créditos de abertura trazem isso à tona e são embalados pela música do DJ Dolores — excelente em toda a obra –, enquanto aparecem entre diversos símbolos gráficos. Letras, vírgulas, pontos, reticências, caracteres orientais e outros modelos surgem na tela como se quisessem interferir na construção das palavras ou chamar a atenção para o fato de que tudo o que faz sentido “nas letras” é formado por aqueles símbolos “sem sentido” que ali pairam. E a construção da história se segue quando vemos que o ponto de partida para a saga também começa com uma narração (oral) de um antigo morador, que adverte aos ouvintes em um bar sobre a importância da leitura, um recurso metalinguístico que também fala ao espectador :

_ Eu mesmo, que não sou das letras, posso contar um reboliço que uma escritura foi capaz de fazer. Ó, foi um caos.

Sendo o filme a versão da memória de um nativo, estamos diante de uma história tão verdadeira ou tão falsa quanto as muitas outras narrações. O mais interessante é notarmos que, no decorrer da narrativa, Zaqueu (o narrador do tempo presente) é um dos que menos aparecem, o que nos faz concluir que boa parte do que ele relata foi ouvido de outro morador. Ou ainda — e aqui entra o recurso da inserção do espectador como agente vivo dessa história construída –, podemos pensar que quase tudo o que Zaqueu diz foi “dedurado pelo espectador”, recurso que empresta um dos mais inteligentes padrões de Orson Welles em Cidadão Kane, quando o moribundo homem sussurra “Rosebud” em um quarto sem ninguém e, na sequência seguinte, os jornalistas sabem que a última palavra que ele disse foi “Rosebud“. Como eles poderiam saber? Quem contou? Bom, a única pessoa que estava lá, além de Kane: o espectador. Mais uma vez, chamamos a atenção para os inúmeros níveis de construção da memória e da História contidas em Narradores de Javé, inclusive nessa premissa de ação do público sobre a trama.

Antônio Biá assume de bom grado o encargo de escrever um épico documental sobre o Vale. Sua figura é respeitada pelo povo e, por onde ele anda, um grupo de pessoas o segue, todos interessados em ter a sua versão registrada no Grande Livro da História de Javé. O “documento” ou “Livro da Salvação” ganha características de romance histórico coletivo: Biá é o escritor historiador-cientista que “floreia” os depoimentos que que vão constar ali e cada história tem o “nome, sobrenome e prenome” de seu narrador. Em sua marcha contra o tempo e pelo povoado, Biá aproveita para conseguir o máximo de vantagens e gozar de sua presença no povoado, já que estava banido nos arredores por ter mantido seu emprego nos Correios escrevendo cartas caluniosas sobre os moradores de Javé (onde ninguém sabia escrever). Quando é “convocado” para retornar, Biá está sentado à porta de sua casa… enchendo linguiça. Podemos aludir inúmeros significados mas penso desnecessário enumerá-los, dada a clareza desse símbolo.

Já no primeiro depoimento, nos deparamos com o nome elementar para o povo de Javé, o herói fundador do povoado: Indalécio. Segundo o primeiro narrador, Indalécio guiou o povo “que saiu fugido de suas terras no sul porque o rei de Portugal os expulsou para pegar o ouro”, até o vale. No depoimento seguinte, a figura de Idalécio é diminuída e até ridicularizada, sendo Mariadina a grande heroína fundadora, a guia do povo por ocasião da longa convalescença de Indalécio. Segundo o relato, Mariadina, “esquecida na história por ser mulher”, enfrentou com bravura as dificuldades do caminho, encontrou o Vale, “cantou as divisas” e estabeleceu ali o seu povo. Num outro relato, Indalécio, apesar da tremenda diarreia, guiava bravamente o povo pelo caminho agreste, até que encontrou uma feiticeira louca chamada Mariadina, que lhe profetizou a chegada ao vale. Em um dado momento do filme, Idalécio se torna Idalício e depois Indaleo, e Mariadina se torna Oxum. Qual dessas versões é a verdadeira? Qual delas merece e deve ser registrada? É se digladiando com estas dúvidas que Biá não escreve sequer uma página do livro-histórico e o futuro do Vale parece ser a inundação.

Eliane Caffé consegue fazer da construção da História uma comédia de altíssimo nível cinematográfico e intelectual, propiciada pela junção de elementos técnicos bem executados, desde o roteiro que ela assina cm Luiz Alberto de Abreu, à mise-en-scène mista de diversos estilos. O elenco inteiro é de uma “grandeza javeliana”, especialmente nas personificações de José Dumont e Gero Camilo, em atuações a serem aplaudidas de pé.

A fotografia de Hugo Kovenski e a câmera de Jorge Pfister mais do que iluminar, enfocar e dar corpo estético à obra, criam perfeitamente as diversas versões dos mundos paralelos ao filme, com nuances que vão da saturação de cor até sequências em filtros de aquarela e sépia, com direito ao uso de câmera digital e 8mm. Perceba que o filme também se constrói no sentido estético, tendo um modo simples de representação do presente — o tempo sem graça — e diversos modos para a representação dos muitos passados — o nostálgico tempo onde tudo era melhor. Em complemento formal, tanto a excelente edição de Daniel Rezende quanto a também notável edição de som de Miriam Biderman cimentam organicamente o que essas imagens apresentam, não deixando espaço para tempos mortos ou motivos musicais impactantes a perder de vista.

Quando Antônio Biá vê todo o Vale de Javé inundado pela represa e resolve, então, escrever a história do processo que o levou àquela desgraça, um outro mundo de possibilidades se apresenta e não há corte para o presente. O espectador fica ali, com as versões de quem levou ou não o sino da igreja para a carroça, e a voz off do narrador Zaqueu incentivando aos descontentes com sua história a contarem, eles mesmos, uma diferente.

Quem assiste ao filme não consegue sair do labirinto de palavras e a verdade e a ficção estão tão misturadas que é impossível escolher apenas um lado. Narradores de Javé é um exemplo da não existência da verdade absoluta em nada e do caráter caótico (por que não dizer?) da construção da vida, do cotidiano e daquilo que será lembrando pelos nossos descendentes e futuras gerações. O perigo da pergunta “qual versão é a verdadeira?” e a incerteza do que responder parecem ser as frases de ordem em todos os níveis quando se trata de falar de algum acontecimento muito tempo depois que ele se deu. Contar ou documentar uma história, através da História, já não parece algo assim tão simples.

Narradores de Javé (Brasil, 2003)
Direção: Eliane Caffé
Roteiro: Luís Alberto de Abreu, Eliane Caffé
Elenco: José Dumont, Nelson Xavier, Rui Resende, Gero Camilo, Nelson Dantas, Alessandro Azevedo, Maurício Tizumba, Benê Silva, Matheus Nachtergaele, Altair Lima
Duração: 100 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.