Crítica | Nas Profundezas do Mar Sem Fim

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Nas Profundezas do Mar Sem Fim é um filme sobre perdas. Após o avassalador sumiço de um dos filhos, o casal protagonista entra num processo de degradação do casamento e da família, num ciclo constante de culpa que ocupa boa parte dos 106 minutos de duração do filme. Como lidar com a perda? É possível se recuperar da ausência de um filho? A culpa, tal como apontou Freud em O Mal-Estar da Civilização, é responsável por gerar depressão e doenças neurológicas. Será que os personagens estão cientes disso tudo?

Dirigido por Ulu Grosbard, a produção tem como direcionamento o roteiro escrito por Stephen Schiff, baseado no romance homônimo de Jacquelyn Mitchard. O papel da mãe, diferente do conflito de mágoas calcificadas no passado das personagens de Divinos Segredos, é lidar com a responsabilidade de ter perdido o filho durante a realização de um trabalho, bem como o peso da culpa pelo acontecimento, numa situação que não mexeu apenas com a matriarca da família, mas com outros membros que a compõem, além de amigos próximos e pessoas circunvizinhas.

O ponto de partida de Nas Profundezas do Mar Sem Fim é à saída de Beth Cappadora (Michelle Pfeifer) para um evento em Chicago. Ela deixa o esposo Pat (Treat Williams) em casa e segue com os três filhos para o reencontro de amigos numa cidade próxima. No local, por um brevíssimo descuido, o pequeno Brian, de três anos, o filho do meio, desaparece. Inicialmente calma, a personagem vai gradativamente adentrando a seara do desespero ao passo que diante das buscas preliminares, não há sinal algum da presença do garoto.

A polícia é acionada e o trabalho se ergue repleto de detalhes e cuidados, principalmente por conta do gerenciamento dedicado da agente Candy (Whoopi Goldberg), uma das responsáveis por informar que infelizmente, a investigação, após muito tempo de falsas pistas e buscas sem sucesso, precisará se encerrar. É a partir dai que a mãe, diante de tamanha dor, entra em depressão e arrasta todos os membros da família para o campo do obscurantismo. Ao se fechar em si e em sua dor, Beth aliena-se dos outros filhos, principalmente do mais velho, Vincent (Jonathan Jackson), jovem que também carrega a culpa por ter deixado o irmão escapar por alguns instantes de suas mãos.

Diante da situação exposta, a família coleciona uma série de acontecimentos infelizes. São festas de Natal e Ação de Graças estragadas por discussões e desentendimentos, o afastamento do casal por conta das frequentes discussões, o preço a pagar pela alienação dos filhos que cresceram, em especial, Vincent, que sempre carregou a sensação de ter feito algo errado, bem como outras celeumas que gravitam em torno da vida dessas pessoas, até que certo dia, um acontecimento inesperado se revela.

Nove anos se passaram. Ninguém esqueceu a situação, mas as coisas estão abaixo da superfície, prontas para explodir a qualquer momento. A família mudou para Chicago e numa nova perspectiva, precisa lidar com a chocante revelação: será que o menino que se ofereceu para cortar a grama do jardim, morador do final da rua, é o pequeno Ben, agora mais velho e com feições diferentes, mas traços que uma mãe atenta pode calcular? Nervosa, Beth discretamente faz uma fotografia do menino, entra em contato com a agente Candy, para que a verdade seja revelada: sequestrado, o menino cresceu acreditando ser Sam, criado por George Karras (John Kapelos), homem que sequer sabia do rapto do garoto por sua esposa falecida há alguns anos. A justiça age por meio de decisões que favorecem Beth, mas será que o garoto quer mesmo fazer parte desta velha-nova família?

Narrador linearmente, o filme possui direção de fotografia correta, assinada por Stephen GoldBlatt, design de produção que nos faz mergulhar bem no final dos anos 1980, para logo mais, nos colocar diante dos anos 1990, graças ao trabalho eficiente de Dan Davis, profissionais que juntos, trabalham na boa edificação desse drama familiar que às vezes emociona com o acompanhamento musical simples de Elmer Berstein.

Lançado em 1999, Nas Profundezas do Mar Sem Fim é um drama sobre como as pessoas precisam saber lidar com as perdas na vida, além de tratar da necessidade de reconstrução de suas trajetórias depois do estabelecimento de uma tragédia. A culpa, como apontado rapidamente no parágrafo de abertura dessa análise, é uma resposta às atitudes ou situações que o indivíduo considera inadequada diante dos padrões estabelecidos pela sociedade que está inserido, uma espécie de sentimento por algo que não deveria ter sido feito. Beth e Vincent são os personagens que mais carregam o peso da culpa, algo que os corrói e alimenta as mágoas. No final das contas as coisas entram em ordem, mas o caminho percorrido não é nada fácil.

Nas Profundezas do Mar Sem Fim — (The Deep End of The Ocean) Estados Unidos, 1999.
Direção: Ulu Grosbard
Roteiro: Stephen Schiff
Elenco: Cory Buck, Jonathan Jackson, Michelle Pfeiffer, Ryan Merriman, Treat Willians, Whoopi Goldberg
Duração: 109 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.