Crítica | Nas Profundezas

Ainda inédito no Brasil, Nas Profundezas é um filme que consegue criar algo inovador e interessante dentro de um subgênero que já produziu uma lista gigante de tramas ordinárias. Juntamente com Águas Rasas, a aventura de duas irmãs que decidem sair de férias e curtir o litoral mexicano, mas acabam enrascadas numa situação trágica envolvendo tubarões, pode ser considerada a oxigenação de um estilo de filme que entrou em decadência há bastante tempo.

Dirigido por Johannes Roberts, cineasta responsável pelo horror Do Outro Lado da Porta, Nas Profundezas injeta ânimo numa aventura que traz as feras marinhas como os algozes de duas moças que pretendiam apenas extrair diversão de suas realidades conflituosas.  Elas são Lisa (Mandy Moore) e Kate (Claire Holt): a primeira terminou um relacionamento amoroso recentemente, e a outra, com o espírito mais jovial e aventureiro, planeja um passeio irreverente.

Depois da primeira noite no hotel elas seguem numa expedição para mergulhar numa gaiola e registrar tudo. Os tubarões são atraídos pelo sangue jogado na água por um dos tripulantes desta expedição turística. Com os tubarões próximos, ensandecidos pela alta quantidade do sangue no mar, elas entram na gaiola e descem alguns metros abaixo da superfície, numa das maiores aventuras de suas vidas. Fotografam, filmam e ficam encantadas com a possibilidade de contemplação da vida marinha tão de perto.

Os problemas começam quando ao subir, a corrente da gaiola se parte e elas despencam 47 metros abaixo da superfície. Abaladas, as jovens precisam ter bastante cautela, haja vista os tubarões que circundam o espaço, além de ter que lidar com outro conflito: o oxigênio que a cada minuto se esvai, numa contagem regressiva angustiante que torna a experiência aterrorizante par os personagens e para nós espectadores.

Com atmosfera claustrofóbica, Nas Profundezas cria o clima ideal para um suspense de primeira linha, sem exageros típicos do subgênero. Com 90% das suas cenas gravadas embaixo da água, a aventura de horror segue o estilo de Águas Rasas, com poucos diálogos e personagens lutando constantemente por suas vidas. Mais uma vez, o embate entre o homem e a natureza ganha uma versão cinematográfica digna, numa prova genial da possibilidade de se capitalizar em cima de ideias já conhecidas pelo público.

O desfecho do filme não chega a ser impactante como o trágico fim de O Nevoeiro, adaptação do conto de Stephen King para o cinema em 2007, mas chega perto. Há um episódio alucinógeno que nos promete um alívio temporário, mas que logo é desvendado, o que nos reforça o caráter trágico da existência destes personagens.

O roteiro, assinado em parceria com Ernest Rieira nos mostra como a ausência de excessos e a praticidade podem trabalhar juntas, em prol de uma narrativa, sem deixar de ter aprofundamento psicológico dos personagens e abordagens críticas em seu conteúdo. Ao longo de seus 87 minutos, Nas Profundezas nos faz rememorar os filmes do jawsplotation e perceber os erros e acertos de cada um deles, afinal, o que deu certo no subgênero está no filme, mas o que deu errado encontrou o caminho ideal: a lixeira do roteirista, consciente da história concisa e qualificada que pretendia contar.

Em setembro de 2017, um rumor sobre uma suposta sequência do filme foi veiculado num canal confiável, o Hollywood Reporter. Segundo informações, a continuação do filme, obviamente desconectada do primeiro, será realizada no Brasil. Será em Recife? Teremos nosso primeiro filme de tubarões autêntico? Se a notícia ganhar projeção e se materializar em um roteiro, teremos um filme que segue a Mar Aberto, franquia de três filmes sem nenhuma conexão aparente, mas que trazem o mesmo conflito em todos os seus exemplares: pessoas em situação problemática envolvendo abandono no mar, naufrágio e obviamente, ataque de tubarões.

Nas Profundezas (47 Meters Down) — Reino Unido/ EUA/ República Dominicana, 2016.
Direção: Johannes Roberts
Roteiro: Johannes Roberts, Ernest Riera
Elenco: Mandy Moore, Claire Holt, Matthew Modine, Chris Johnson, Yani Gellman, Santiago Segura
Duração: 104 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.