Crítica | Nasce um Monstro

  • Filme cinco de sete da Maratona de Horror que relatei em detalhes aqui

Confesso que, mesmo depois de assistir Nasce um Monstro pela segunda vez (a primeira em um cinema) e matutando para escrever a presente crítica, não sei se fico horrorizado ou morro de rir com a premissa deste clássico setentista dirigido por Larry Cohen, seu quarto longa de uma carreira nessa cadeira que seria marcada por obras B com bom apelo popular. Afinal, o roteiro que ele escreveu é simples: um bebê monstro mutante nasce e sai matando todo mundo que vê pela frente, enquanto a polícia de uma cidade inteira e seu pai saem ao seu encalço.

Toda a atmosfera do filme é séria, feita para tentar realmente assustar e deixar a plateia tensa, mas, ao abordar seu roteiro desta forma, com tomadas com fotografia escura, usando a câmera para substituir o tal bebê monstro como Steven Spielberg faria de maneira muito mais eficiente logo no ano seguinte com Tubarão, Cohen acaba tornando seu filme um pastiche dele próprio. E isso mesmo que o espectador seja capaz de aceitar a premissa totalmente fora de esquadro, que exige passividade absoluta de forma que o bebê com garras e dentes, que já sai do útero da mãe massacrando toda a equipe médica na sala de parto (o que acontece off camera, claro), ganhe algum semblante de verossimilhança.

A partir desse momento inicial, que conta também com policiais que aceitam de imediato que um bebê mutante nem bem nasceu mata com requintes de crueldade e canibalismo mais de cinco adultos, é uma ameaça a ponto de colocar toda a força policial atrás dele, com seu pai (John P. Ryan) renegando a prole e sofrendo, com isso abalos psicológicos fortes. E, como se isso não bastasse, o bebê parece ter laços psíquicos com sua progenitora e sua família a ponto de tentar chegar a seu lar, procurando proteção depois de matar pessoas aleatórias no meio do caminho, inclusive um entregador de leite. Cabe aqui novamente falar de Tubarão, mas agora de sua terceira continuação, Tubarão 4, em que o bicharoco persegue a família Brody como se tivesse um radar vingativo em sua mente do tamanho de um amendoim. Claro que no filme do peixão a coisa é ainda pior, pois é um animal e nem é o mesmo dos filmes anteriores, que morreram, tornando tudo bem mais ridículo e aleatório. Por outro lado, aceitar que um bebê mutante começa a stalkear o irmão que nunca conheceu em sua escola é um pouco demais para a saúde mental de qualquer espectador.

A fotografia noturna ou em locais fechados é uma constante na projeção, o que ajuda a minimizar a exposição dos efeitos práticos que dão vida ao monstrinho. No pouco em que ele aparece, o resultado até que não é dos piores, ainda que seu tamanho e musculatura me façam perguntar como é que raios ele conseguiu sair da barriga de sua mãe sem rasgá-la por inteiro no processo. Mas talvez esteja querendo demais, já que um bebê do tamanho normal tornaria seus ataques homicidas ainda mais patéticos, já que os adultos, aparentemente, não conseguem impedir sua aproximação e seus pulos atrás de jugulares.

Em termos de elenco, o único ator de alguma nota é mesmo Ryan, já que é nele o foco da narrativa. Sua construção como um pai perturbado que vai perdendo tudo em razão da atenção da mídia para seu filho monstro é boa se aceitarmos a premissa difícil de engolir, com um bom momento catártico ao final que o vê mudar sua postura em relação ao rebento. No entanto, seu trabalho dramático é limitado pela duração do filme que, mesmo com 91 minutos, parece durar quase três horas, tamanha é a quantidade de repetições temáticas. Dessa forma, ele acaba ficando sem espaço para desenvolver seu personagem sem recorrer a histrionismos ou a diálogos que explicam em detalhes o que está sentindo, cortesia de um roteiro que não tem muito o que dizer e pela novidade (monstro bebê) que  cansa logo nos primeiros cinco minutos.

Nasce um Monstro, portanto, é um daqueles clássicos do horror que provocará angústia na mesma proporção que risadas descontroladas do espectador, o que limita sobremaneira sua eficiência como “filme de monstro”. Afinal, se a obra tem dificuldade de vender sua premissa ou de trabalhá-la de maneira a evitar que ela caia no ridículo, resta, apenas, uma mera curiosidade setentista que não agregará muito a quase ninguém.

Nasce um Monstro (It’s Alive, EUA – 1974)
Direção: Larry Cohen
Roteiro: Larry Cohen
Elenco: John P. Ryan, Sharon Farrell, Andrew Duggan, Guy Stockwell, James Dixon, Michael Ansara, Robert Emhardt, William Wellman Jr., Shamus Locke
Duração: 91 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.