Crítica | Nasce Uma Estrela (1954)

“Só queria te olhar mais uma vez.”

A história é bastante curiosa e merece ser relembrada. O clássico Nasce Uma Estrela, de 1937, antes mesmo de tornar-se realidade, havia sido apresentado, originalmente, quando ainda era um mero roteiro de cinema, ao cineasta George Cukor, porém, desistindo, na época, do projeto, por perceber muitas similaridades com a obra que, anos antes, comandou, intitulada Hollywood, também sobre os males da indústria cinematográfica. Duas décadas depois e o artista, finalmente, assumiu uma nova versão daquele projeto que, de certa forma, sempre foi seu, em um determinado campo de pensamento, relativo a inspirações narrativas. George Cukor entendeu essa história, definitivamente, como ninguém. A incursão não é meramente superficial. O conceito por trás é poderosíssimo. Um projeto de ordem discursiva encontra-se escondido, mas presente, na refilmagem daquela mesma história contada por William A. Wellman, tempos precedentes. O seu Nasce Uma Estrela, datando de 1954, é, possivelmente, o maior representante desse enredo atemporal, sobre a estrela em ascensão e a estrela em decadência. A duração é estendida, o estrelato é mais aprofundado, as mazelas diagnosticadas de maneira abrangente e o contexto suficiente para uma reinterpretação. O artista tem ao seu lado, como a Esther Blodgett de sua história, jovem almejando o sucesso na indústria, Judy Garland, uma decisão extraordinária. Os acertos começam na própria pré-produção de Nasce Uma Estrela, uma despedida às estrelas de cinema.

Muito além do arco-íris, dos sonhos das aventuras vividas em O Mágico de Oz, que encantaram milhões de pessoas pelo mundo, a protagonista dessa obra-prima musical, Judy Garland, na vida real, sem os amigos extraordinários de um mundo fantástico, do cinema infantil, passava por problemas sérios, envolvendo abuso de drogas e bebidas. O cinema em seus bastidores, sem a vertente luxuosa dos tapetes vermelhos. O discurso da indústria a destruía, considerada uma mulher feia ou uma mulher gorda. O peso da balança sempre a atacou. Nasce Uma Estrela é o renascimento dessa artista, o grande papel de uma vida destruída pela “arte”, como se apresentou, do classicismo, ao mundo moderno. A contratação da artista, para esse respectivo papel, trabalha com a realidade, em uma espécie de metalinguagem. “O nariz é o problema”, exclama um médico, enquanto averígua as feições da mulher, ainda à beira do estrelato. No que Wellman retratava brevemente, mesmo com a eficiência de cenas interessantes, a obra de George Cukor é mais cuidadosa. A entrada na indústria, auxiliada por Norman Maine (James Mason), artista que é salvo pela protagonista de pagar um vexame – em cena divertidíssima -, não representa um verdadeiro estrelato. O nome assinado, disposto em um estúdio de cinema, nada mais significa do que um nome, que, ainda assim, pouco é relevante quando comparado àquele que ela se torna – a morte de Esther Blodgett, a possível estrela, e o nascimento de Vicki Lester, a real estrela.

O trabalho de George Cukor, em pontuações específicas, é intencionalmente mais frio do que os dos demais cineastas. O novo nome, identidade de um mundo de aparências, surge abruptamente. Ninguém o sugere em cena, como antes aconteceu. O nome é meramente um nome, em meio a outros. Quando vai de encontro a quem havia de encontrar, as pessoas que encontram, enquanto pergunta pelas coisas, desnorteada em meio à desordem, a respondem, diante de perguntas e questionamentos, com considerável desumanidade, mesmo estando, aparentemente, “contentes em tê-la convosco”. A arte não é a escalada da humanidade, mas sua derrocada, onde até mesmo a mais pura das coisas consegue se transformar em uma máquina de fazer dinheiro, robótica, automática. Esther Blodgett, contudo, é realmente a mais pura das coisas, ao menos, o cineasta a entende assim, permitindo Norman Maine compreender a artista dentro dessa mulher, muito mais do que um rosto bonito, mas um talento inigualável, que consegue reconhecer, por exemplo, apenas ouvindo na televisão. O longa-metragem não trabalha com a ocasião, mas quer o seu público verdadeiramente acreditando na capacidade imensurável de Esther – e, consequentemente, de Garland -, até mesmo porque, após o primeiro encontro entre o casal – “só queria te olhar mais uma vez” -, ambos se distanciam, tendo que ser necessário o retorno do artista em decadência aos passos que antes trilhou.

O distanciamento nos faz acreditar mais no relacionamento quando ele é retomado posteriormente. George Cukor, nesse momento do seu filme, investe em montagens composta por fotografias, um processo artístico diferenciado, mas extremamente interessante para tornar aquelas situações parte da história e não meros reencenamentos do que aconteceu verdadeiramente – mesmo que nunca tenha acontecido. As fotografias tornam os acontecimentos mais críveis, como um retrato da sociedade cinematográfica, além, é claro, de evidenciar a existência dos fotógrafos de celebridades, todos em pleno plantão, presença adoecida de uma indústria auto-destrutiva. Os momentos mais íntimos tornam-se composições em preto e branco, quebrando com o olhar do cinema como um processo de encenação. As coisas que acontecem, acontecem. Chegando à metade da obra, antes da primeira intermissão, o espectador também percebe estar diante de uma mulher destinada a seguir seu sonho, mesmo sem ser às custas do auxílio do artista que lhe prometeu o estrelato. Quando Norman é separado da garota, Esther continua a correr atrás de seus sonhos, movida por promessas que reacenderam aqueles mais juvenis. A artista, caso não tivesse decidido por esse caminho, nunca teria se apaixonado por esse homem e nunca teria se tornado uma estrela. A criação de causa e consequência é enormemente complexa, brincando com o destino, com o aleatório e com a vontade própria em um jogo emaranhado de possibilidades.

O relacionamento detém de uma conexão enorme com o público, justamente por trabalhar sugestões e sutilezas, que moldam um conjunto absurdamente incrível. Nasce Uma Estrela não é a obra mais humana das quatro versões existentes desta mesma história – a produção de 2018 provavelmente possui esse título. Um filme de um outro tempo, separado dos personagens apresentados. A câmera os olha de uma distância considerável, mas não torna o romance menos verdadeiro. O trabalho de narrativa romântica é ímpar, dado a graciosidade impetuosa de Judy Garland e o charme arrebatador de James Mason – o álcool, aliás, não é o problema, mas um desdobramento, subentendendo um dilema mais rico. Os diálogos simplesmente fluem, enquanto ambos contracenam com imensa química. A seguinte personagem se apresenta: Judy Garland, no papel de sua vida, o epítome de uma carreira desastrosa, que, por felicidade, conseguiu mostrar ao mundo o talento dessa artista, encantando o mundo com a sua voz insuperável. As mesmas batidas do longa-metragem de 1937 são reutilizadas, sem muita distinção, apenas adições. A questão é que, se as decisões funcionavam perfeitamente bem antes, George Cukor as fazem funcionar, impossivelmente, ainda melhor agora. A belíssima fotografia, os figurinos arrebatadores e a maquiagem estelar. O cinema em seu maior espetáculo, para destruir o espetáculo como o conhecemos. O amor entre os dois funciona diante da cena em que Norman retira toda a maquiagem de Esther. O interesse está nos olhos, não na purpurina.

Ao mesmo tempo, como o cineasta possui uma habilidade enorme de condução, até mesmo de um filme com três horas de duração, sabendo controlar a magnitude do projeto e não extasiá-lo com sua grandiloquência, a qual encanto-me extremamente, Nasce Uma Estrela possui uma condição cinematográfica de épico musical sobre a indústria, proveniente desse outro tempo, das eras douradas de outrora, perfeitamente cabível para, nesse ponto, criticar fervorosamente a indústria. A contradição é ácida. Os grandes cenários são construídos para serem desmitificados. Nenhuma dessas versões criticou o ambiente produtivo tanto quanto a obra de Cukor. Quando Esther alcança o estrelato, arrematando o seu primeiro sucesso, justamente apresenta-se em uma obra, disposta nas telas, sobre o estrelato, onde, em uma espécie de diálogo com a sua própria carreira, conversa com o espectador, através da música, sobre a fama da noite para o dia, como se aquela fama fosse realmente da noite para o dia, mas não um processo lento e problemático – as insinuações às vantagens sexuais não poderiam ser mais atuais. Um longa-metragem mais preocupado com a carreira da estrela que apresenta, Nasce Uma Estrela é transformado em um musical e nenhum outro sub-gênero conseguiria abraçar as temáticas dispostas em sua essência tão bem. George Cukor distancia a câmera, mas eleva ao máximo a emoção e o poder da cena conclusiva. O espetáculo sobre os bastidores do cinema que nada possuem de espetacular.

Nasce Uma Estrela (A Star is Born) – EUA, 1954
Direção: George Cukor
Roteiro: Moss Hart, Robert Carson, William A. Wellman
Elenco: Judy Garland, James Mason, Jack Carson, Charles Bickford, Tommy Noonan, Lucy Marlow, Amanda Blake, Irving Bacon, Hazel Shermet, Lotus Robb, Bess Flowers, Mae Marsh, William H. O’Brien, Dub Taylor
Duração: 181 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.