Crítica | Nasce Uma Estrela (1976)

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O mais interessante nesta versão da história de Nasce Uma Estrela é sua transposição ao cenário decadente dos artistas setentistas. Kris Kristofferson interpreta um clássico exemplo de artista que já passou de seu auge e hoje encontrasse num caminho rumo à decadência: é alcoólatra, fadado ao fracasso, enquanto Barba encarna uma cantora amadora, mas que desde os primeiros instantes em cena transpira o status glamoroso que a própria celebridade carrega. Não há uma tentativa de esconder que essa versão do clássico é mais próxima de uma maneira de consolidar Barbra Streisand num cânone artístico do que qualquer tentativa de validar-se artisticamente.

Comparando, é evidente que há pouco esforço em firmar John, rockstar decadente perto de Esther, uma presença única de corpo e alma. Ele beira o superficial e o estereótipo da época e não há um bom balanço em comparação à Barbra, que é o grande veículo do filme. É um cenário mais vivo e com melhores oportunidades de encenação, durante um contexto bastante interessante de ser explorado, mas é dependente demais da figura de uma estrela que acaba não compensando no final das contas.

Dramaticamente há menor dependência da musicalidade, comparado à versão de 1954, onde Judy Garland talvez tivesse maior peso a ser segurado que Barbra, mas há essa abordagem fria que pouco funciona. Tudo é trabalhado de forma descompensada, deixada de lado, um filme sem eira nem beira sobre artistas numa época anárquica da música. Falta sentimento e pessoalidade nesse trabalho concupiscente que demanda pulso mais firme que as versões de Wellman e Cuckor. Se Kristofferson interpreta um músico descompensado e louco no palco, muito reflete o trabalho de roteiro e direção do próprio filme.

Tenta-se romper com antigos regimes cinematográficos, mas não há noção de como fazer ao menos o básico. Há a preferência por uma estrutura de filme-show onde faça Barbra Streisand brilhar musicalmente, e é cativante o suficiente para satisfazer por momentos, mas o fascínio acaba assim que qualquer outra peça é posicionada ou qualquer drama é plantado. Duas horas e vinte é tempo demais para um filme tão incipiente que não é capaz de explorar a década de excessos que foram os anos 70, e o tédio bate a porta mais que o aceitável. Mesmo duas décadas depois, não é mais enxuto ou dinâmico que a versão de três horas estrelada por Judy Garland, que além de contar com o carisma da artista é composto brilhantemente em quase todos os aspectos.

Por mais que seja um projeto situado num contexto brilhante do cenário de rock dos anos setenta, Nasce Uma Estrela é largado demais, sem vetor guiando a condução do filme e busca uma estratégia egocêntrica de abusar da figura da Barba Streisand para atingir o sucesso. Não digo que não vá cativar em seus melhores momentos, mas há largos instantes onde pouco acontece, além de ser desorganizado e nitidamente feito sem qualquer carinho.

Nasce Uma Estrela (A Star Is Born) – EUA, 1976
Direção: Frank Pierson
Roteiro: Robert Carson, Frank Pierson, John Gregory Dunne, Joan Didion, William A. Wellman
Elenco: Barbra Streisand, Kris Kristofferson, Gary Busey, Oliver Clark, Paul Mazursky, Joanne Linville, Venneta Fields, Clydie King, Marta Heflin, Sally Kirkland, M.G. Kelly, Bill Graham, Rita Coolidge
Duração: 139 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.