Crítica | Natal em El Camino

É véspera de Natal e um grupo de pessoas aleatórias se encontra dentro de uma loja de conveniências em uma situação de reféns, a qual não passa, na verdade, de um grande mau entendido. Na busca pelo seu pai, Eric Roth (Luke Grimes) adentrará uma jornada de maus bocados, no melhor estilo das coincidências malucas que acometem, sem soar forçadas, os filmes dos irmãos Coen. A maior graça deste protagonista, todavia, é ver a sua interação com Larry (Tim Allen), enquanto o resto envolvendo Eric acaba entrando espontaneamente na corrente sanguínea do espectador, sem denotar nenhum esmero mais apurado da direção para manipular adequadamente os sentimentos do público. Por assim ser, as ideias do filme, apesar de serem porcamente mal aproveitadas, funcionam parcialmente graças a Tim Allen, que, sumido, traz uma de suas melhores atuações. Um homem angustiado pelo passado é encarnado pelo ator, o qual arremata uma interpretação certeira e dura de um alcoólatra suicida. Muito mais curto do que deveria, a obra, porém, não dá espaço para que nenhum vínculo seja forjado organicamente, com a troca de passados dentro da loja sendo expositiva e pouco engajante.

Por outro lado, o melhor que pode ser tirado deste produto natalino da Netflix é o humor negro que esporadicamente atinge-nos em cheio. Ao interpretar o policial problemático Carl Hooker (Vincent D’Onofrio), D’Onofrio permite que o filme não se contente inteiramente com a obviedade que permeia o restante da projeção. Seu personagem transmite uma graça subjacente perturbadora, sendo que muito sobre o passado do tira é omitido. Por que ele está naquela situação depressiva? O que o levou a ter tanta raiva de vendedores de metanfetamina? Esse é o único momento do roteiro que o mesmo permite-se ser subentendível. Até quando cita-se eventos prévios da forma mais didática possível o argumento funciona e o artifício escolhido não aparenta ser tão barato quanto é. Nessa mistura mais desaforada, o filme traduz um lampejo de intenção organizada, aliada a uma comicidade inerente a alguns personagens e uma direção de David E. Talbert proficiente, a qual sabe extrair por completo o potencial de alguns momentos. De alguns, pois a maioria sucumbe devido as problemáticas do filme.

Complicando toda a estrutura do filme e induzindo o espectador a caminhos inconclusivos, o roteiro de Chris Wehner e Theodore Melfi não sabe a história que quer contar. Toda as subtramas, com exceção da principal, são desfocadas, tecendo escadas subjetivas que não dizem a que vieram, sem contribuir em nada para o verdadeiro andamento da obra. O longa dá a entender uma importância para a mãe de Kate (Kimberly Quinn), mas tudo não passa de uma caracterização da filha que poderia ter sido muito bem desfeita, visto que não interfere em nada na narrativa. O mesmo pode se dizer da própria Kate (Michelle Mylett) e seu filho, os quais, se trazem alguma espirituosidade à narrativa graças às atuações de um bom elenco, não vão nenhum pouco além disso. Natal em El Camino possui um recheio de estofo, com personagens que não passam por nenhum desenvolvimento. O pior é que as boas ideias residem dentro da argamassa de superficialidade, mas são reduzidas a tentativas de mau gosto de nos fazer sentir algo por uma obra consideravelmente insensibilizada.

A exemplificar, o filme dá um jeito de colocar uma repórter de nome Beth Flowers (Jessica Alba) em cena, sem dar, porém, para a personagem, e consequentemente, para a atriz, nada a acrescentar narrativamente. Alba, portanto, é totalmente desperdiçada, sendo que seria necessário ao menos algum envolvimento no miolo da obra para que sua presença saísse de participação especial para papel factual. O fato da personagem estar grávida já antecipa logo de cara o que acontecerá no final do filme, soando previsível, e trazendo à tona novamente uma insensibilidade do longa, que nos faz sentir nada diante de um acontecimento presumidamente importante. Por parte do elenco de policiais, com exceção do já comentado Carl Hooker, nenhum outro tira adiciona camadas substanciais ao discurso do filme que já não haviam sido providas pelo personagem de D’Onofrio. Mesmo assim, a contribuição de Billy Calhoun (Dax Shepard) e Bob Fueller (Kurtwood Fueller) é sentida no tom cômico da obra atribuído à falta de organização e preparo das forças policiais, as quais terminam gerando confusões hilariantes, muitas vezes, no entanto, trágicas. No sentido trágico, contudo, o que sobra é a covardia do roteiro em desfazer uma de suas ações no último segundo, a qual, ainda que não funcionasse anteriormente, deixa de existir em toda a sua imprevisibilidade nessa tentativa de consertar o inconsertável.

O pior de tudo é que Natal em El Camino tem uma aura mais solene que poderia ter sido muito melhor aproveitada. Pessoas aleatórias lidando com a vida e seus problemas. O Natal é um mero enfeite estético de toda essa bagunça. Infelizmente, tudo o que pode se resumir da obra são boas intenções mal arrumadas que remetem, enfim, a uma grande bagunça. As intenções, contudo, ficam ainda mais problematizadas por acabarem entrando nos espectadores de mau jeito, enfiadas devido o espírito natalino, mas amarguradas pela própria natureza esquecível do filme. Uma natureza diferente da qual o longa, por um minuto qualquer, temperou que não seria a dele.

Natal em El Camino (El Camino Christimas) – EUA, 2017
Direção: David E. Talbert
Roteiro: Chris Wehner, Theodore Melfi
Elenco: Luke Grimes, Tim Allen, Vincent D’Onofrio, Dax Shepard, Kurtwood Fueller, Jessica Alba, Michelle Mylett, Emilio Rivera, Kimberly Quinn, Jimmy O. Yang
Duração: 88 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.