Crítica | Natal em Julho

estrelas 5

A comédia clássica norte americana deve muito a um diretor que foi um dos maiores realizadores do seu tempo, o primeiro a escrever, dirigir e produzir seus filmes, um diretor que começou escrevendo roteiros nos anos 1930, e acabou se tornando uma das maiores estrelas de Hollywood para depois cair no esquecimento.

Preston Sturges teve uma das “carreiras cadentes” mais impressionantes do cinema. De seus roteiros ou peças de teatro, 45 se tornaram filmes dirigidos por cineastas como William Wyler, Howard Hawks, Rouben Mamoulian e Raoul Walsh; dos 13 filmes que dirigiu em sua carreira, ele escreveu todos, produziu oito, e já em sua estreia, levou para casa o Oscar de Melhor Roteiro Original. Sua perda de popularidade e a queda de público que teria os seus filmes estão ligadas a fatores que vão do seu perfeccionismo às mais diversas mudanças pelas quais passava o cinema dos anos 1940. Em pouco tempo, suas obras não faziam mais parte do seleto grupo de produções que falavam, tocavam e moviam o público, pois esse já direcionava olhares para outro tipo de cinema… o cinema moderno.

Ao olharmos para a filmografia de Sturges, percebemos o quão deliciosas são suas comédias, e como, diferente dos filmes de Frank Capra, suas incursões sociais ficaram como o tempo cada vez mais nas entrelinhas. Suas comédias continuaram a explorar o roteiro – de onde vinham os elementos para as gags visuais –, em um tempo onde a imagem passava a ganhar cada vez mais espaço em detrimento da fala (já no início dos anos 1950). Hoje nos encantamos com seus filmes pela fineza da comédia, pelo excelente roteiro e pela cuidadosa direção. No caso de Natal em Julho (1940), sua segunda película, é a simplicidade que se sobressai e ganha o espectador.

O filme traz a história de Jimmy, que espera ganhar um concurso feito por uma grande empresa de café. O desafio premiaria aquele que enviasse o melhor slogan para a empresa. Com o dinheiro do concurso, Jimmy pretende casar-se com sua noiva Betty, e dar uma vida melhor para a mãe e os sogros. Uma brincadeira feita por dois colegas de trabalho com um telegrama falso, torna-se o motor da comédia que se desenrola por pouco mais de uma hora de projeção.

A ascensão social é o que está evidente no filme. O poderoso diálogo inicial entre o casal protagonista nos mostra a competente direção de Sturges e suas ótimas sacadas para piadas, nesse caso, tirando do slogan criado por Jimmy, a sua deixa: “Se você não consegue dormir à noite, não pelo café. É pela cama.”. Além disso, o diretor nos expõe o desejo da juventude norte americana em relação à formação da família, casamento e posses. Jimmy é quem mais fielmente representa esse jovem burguês que tem em vista dar uma vida melhor para os seus – diferente do pai, como é ressaltado em uma de suas falas. O jovem então acredita que o árduo trabalho o fará “chegar lá”, a máxima falsa do capitalismo, máxima que é reproduzida indiretamente pelo gerente da empresa, durante uma conversa. O trabalho e a imagem social também são abordados com uma acidez muito bem disfarçada pelas ótimas e simpáticas atuações de Dick Powell e Ellen Drew.

A economia nos movimentos da câmera e a ágil e criativa forma para mudar de espaço cênico são algumas marcas do filme. A direção é precisa, e os cenários decorados com o típico exagero de cada espaço real: a mesa do chefe cheia de papeis, a cozinha bagunçada pela manhã, a rua suburbana abarrotada de gente e muita confusão. O consumo é a ação que fecha o ciclo de críticas, com o seu clímax exatamente na rua onde Jimmy mora. Toda a confusão gerada e toda a mobilização da polícia e donos da loja para salvar seus patrimônios e defender seus lucros é um exemplo de que o dinheiro e tudo o que ele possa comprar é mais importante do que ouvir e entender um trabalhador que foi enganado. Se pararmos para observar, o roteiro permanece atual.

As reviravoltas que acontecem ao final do filme não estacionam na plataforma do clichê “felizes para sempre”. A frustração e a negociação estão presentes nesses momentos finais, e embora a confusão da trama se “resolva” em um tempo elíptico pós-filme, a dificuldade de adaptação e todo o caminho percorrido até ali retiram qualquer nota de “mais do mesmo”. A delicadeza e comicidade com a qual Sturges finaliza a película só a faz mais engraçada e melhor. Natal em Julho fala de sorte, sobre um presente dado pelo Papai Noel do acaso, convencido de que a causa de sua insônia era a cama. Não o café.

Natal em Julho (Christmas in July) – EUA, 1940
Direção: Preston Sturges
Roteiro: Preston Sturges
Elenco: Dick Powell, Ellen Drew, Raymond Walburn, Alexander Carr, William Demarest, Ernest Truex, Franklin Pangborn, Harry Hayden, Rod Cameron, Adrian Morris, Harry Rosenthal, Georgia Caine, Ferike Boros
Duração: 67 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.