Crítica | Natal Negro (2006)

Natal Negro

estrelas 3

Enquanto as refilmagens de Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo eram discutidas por produtores, roteiristas e demais realizadores, a releitura do clássico slasher Noite de Terror, de 1974, chegou aos cinemas estadunidenses. No Brasil, o filme ganhou o obscuro destino das videolocadoras, haja vista o confuso esquema de divulgação e distribuição na época. Não é nem preciso observar detidamente para ter a certeza de que a produção não merecia destaque, afinal, diferente da sua versão anos 1970, a releitura cheia de apetrechos contemporâneos consegue ser inferior, mesmo com tantos recursos e possibilidades da indústria cinematográfica contemporânea.

Dirigida por Glenn Morgan, cineasta que também assina o roteiro, numa parceria com Roy Moore, esta versão, intitulada Natal Negro aqui no Brasil (tradução literal), é a versão natalina do clássico Halloween. As afinidades com Michael Myers são imensas. Vale ressaltar, entretanto, que o filme de 1974, inspiração para a refilmagem de 2006, pode ser considerado como uma das obras que sustentam a gênese do slasher, subgênero que alcançou o boom, bem como o olhar dos investidores, nos anos 1980. Sendo assim, Michael, Freddy e Jason devem muito ao psicopata Billy, pois este chegou bem antes para espalhar o horror entre um grupo de jovens numa noite comemorativa de acordo com nosso calendário cristão.

Filmado em 29 dias, Natal Negro nos apresenta logo na abertura o assassinato de uma garota em um dos cômodos da fraternidade estudantil Delta Alpha Kappa, clássico das narrativas juvenis estadunidenses. Após o assassinato o filme corta para o amigo secreto das moças entediadas da fraternidade. Paralelo a isso (repare quanta coisa de uma vez…), no Clark Sanatorium, o psicopata Billy Lenz (Robert Mann) está próximo a receber a sua ceia de natal, bem como a visita do papai noel, quando de repente consegue driblar a segurança, deixar seus primeiros rastros de sangue e fugir do local do crime, provavelmente rumo ao local onde as moças esperam a noite do natal passar, afinal, há um entrelaçamento da sua história de vida com o local.

Eu estarei em casa para o Natal”. Esta frase é reafirmada várias vezes, principalmente nos trotes telefônicos recepcionados pelas jovens incautas.  Entendemos, mais adiante, os motivos da repetição exaustiva desta afirmação. Billy tem uma relação com a casa porque nasceu, cresceu e moldou a sua psicopatia no local. Há uma lista bastante desagradável de fatos que o levaram a ser quem ele é: presenciou a morte do pai pelas mãos da mãe criminosa, foi abusado sexualmente, mantido no sótão como um animal e provavelmente é pai da sua irmã, criança que é proibido de ter qualquer contato.

A sua lenda é algo bastante presente no cotidiano da fraternidade. Nos festejos natalinos, todo ano, alguém coloca um presente oferecido para o rapaz, num desses jocosos resgastes memorialísticos custeados pela miséria alheia, algo tipicamente comum ao que se convencionou dizer da cultura estadunidense. Pelo menos de acordo com o que os filmes nos mostram.

Durante a noite, antes da histeria se estabelecer e a lista de mortes aumentar, somos apresentados às vítimas em potencial: Sr. Mac (Andrea Martin, atriz que esteve na versão original), Kelli (Katia Cassidy), Dana (Lacey Clobert), Lauren (Crystal Lowe), Megan (Jessica Harmon), Clair (Leela Savasta), Heather (Mary Elizabeth Winstead) e Melissa (Michelle Trachtenberg). Soma-se ao elenco Leigh (Kristen Cloke), irmã da garota assassinada na abertura, pessoa que sequer imagina o destino da irmã e o que lhe espera durante esta noite de pura tensão (apenas interna, entre personagens, porque na relação com espectador, o filme deixa bastante a desejar).

Telefonemas com sussurros e ameaças surgem constantemente, uma sensação de perigo iminente se estabelece, a trilha de corpos sugere que o assassino é astuto e consegue, tal como um ser mitológico, circular por vários lugares ao mesmo tempo. Isto, no entanto, é melhor explicado no primeiro trecho do desfecho, algo, que por sinal, é um dos grandes problemas do filme: o epílogo é demasiadamente absurdo, numa cena hospitalar que nos remete ao ótimo Halloween 2.

Com excesso de subtramas, explicações exageradas e algumas mortes deslocadas, Natal Negro é um daqueles filmes razoáveis e suportáveis, mas descartáveis e esquecíveis. Há mortes tão coreografadas e absurdas que é até constrangedor para o espectador mediano. Imagina uma sequência envolvendo uma pedra pontiaguda de gelo que se derrete e atravessa o crânio de uma personagem, justamente centralizada em seu olho. Consegue imaginar? Pois bem, parece que estamos na franquia errada. Glenn Morgan, apesar de ter assumido Premonição, deveria compreender que o material desta vez era outro. Rumores sobre uma sequência surgiram, mas nunca mais tocaram no assunto.

Natal Negro (Black Christmans) – EUA – Canadá /2006
Direção: Glen Morgan
Roteiro: Glen Morgan, Roy Moore
Elenco: Michelle Trachtenberg, Mary Elizabeth Winstead, Lacey Chabert, Katie Cassidy, Kristen Cloke, Andrea Martin, Crystal Lowe, Oliver Hudson, Karin Konoval, Robert Mann, Jessica Harmon, Leela Savasta, Cainan Wiebe
Duração: 114 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.