Crítica | Nathan Never: Força Invisível

plano crítico nathan never força invisível mutante plano crítico

Força Invisível é uma história surpreendente em tudo. Primeira obra-prima do título Nathan Never, ela aborda temas adultos a partir da história da família De Haven, cuja filha Angel fugiu de casa e todas as pistas apontam para o mundo dos holofilmes pornográficos. Ao longo da leitura não pude deixar de notar alguns paralelos com os becos da Terra-2014, principalmente em Antes do Incal, onde a prostituição, o sexo entre humanos, robôs e mutantes e as mais variadas formas de fetiches e crimes sexuais e contra a mulher são cometidos e saem impunemente, já que os homens que gerem estes negócios têm proteção das autoridades (muitos deles usuários desses negócios) e da própria sociedade, que renega, condena e apoia, como “castigo divino”, as coisas ruins que acontecem com as mulheres que fazem parte deste negócio.

No início da história, temos a indicação de uma manchete da City News: Tempos Difíceis Para os Mutantes: a trágica realidade de quem é “diferente” e, na sequência, uma definição na mesma matéria, certamente trazendo a memória alguns personagens de O Monolito Negro: “diferentemente dos mutati (criaturas geneticamente engendradas em laboratório), os mutantes são seres humanos normais, nascidos com dotes paranormais cientificamente inexplicáveis”. Esse contexto dado pelo roteiro de Michele Medda é importante para preparar o terreno para a personagem de Angel/Marsha, a filha desaparecida que não suportava mais o lar repressor e fanático religioso em que vivia, com os pais devotos da Divina Presença, a seita do reverendo criminoso, charlatão e hipócrita Aristotele Skotos.

Com diversas referências ao filme The Horror Picture Show, críticas ao vasto mercado da pornografia (tanto a usuários – que de certa forma incentivam a produção – quanto aos empresários do ramo) e oposição de questões feministas, por parte de Legs, com a misoginia que reina nesta sociedade; e ainda alfinetadas bem aplicadas na hipocrisia de muitos religiosos, de muitos homens (que se escandalizam e se manifestam publicamente aos gritos, contra atos de escolhas e liberdades alheias, quando eles mesmos praticam, incentivam ou sentem prazer em coisas até piores) o texto mergulha na noite da periferia, dos níveis inferiores da cidade e vê quanta dor e sofrimento acontece por trás de cada espetáculo sensual, de cada filme pornográfico e de cada história individual que a mídia e a polícia tratam apenas como estatística, levantando, inclusive, o discurso de uma parcela da população sobre o fato de isto “ser pura e simplesmente uma escolha das mulheres que lá estão”.

plano crítico investigação força invisível quadrinho plano crítico nathan never

Contra qualquer abordagem rasa da discussão deste tema, Medda insere um tema delicado e árduo neste universo de Nathan Never, também nos dando a oportunidade de conhecer um pouco do protagonista e seus momentos de machismo (velados ou não), todos propositalmente inseridos e contextualizados pelo texto, tendo na voz de Legs uma sequência de boas respostas para as cobranças de “feminilidade ideal”; cantadas e submissão ou fraqueza feminina que aqui e ali aparecem vindo da boca de alguém. Alguns leitores até podem apontar que o motivo do afastamento de Legs da história, após ser hospitalizada, é, de certa forma, vítima daquilo que o texto critica, mas eu não penso assim. Vejo com algo plenamente orgânico o deslocamento do tornozelo da agente especial, até porque ela estava utilizando saltos e não por sua escolha, mas por indicação de Nathan, à guisa de disfarce.

A arte de Romeo Toffanetti mostra com grande pompa as silhuetas e sujeira dos lugares visitados pelos investigadores, integrando bem a libido humana aos corpos ou acessórios robóticos e cenários pichados, prédios abandonados, ferros-velhos e clubes. O artista também escolhe uma boa forma de ocultar determinadas cenas ou de mostrá-las parcialmente, indicando o horror que representam, como a cena de pornô snuff onde uma mulher é morta por uma luva robótica durante o sexo.

A sexualidade, a criminalidade, a religiosidade e temas centrais como estupro, conflito de gerações, feminismo, machismo, interação entre mutantes e humanos, hipocrisia e falso moralismo fazem de Força Invisível é uma tremenda história, com um final duro e melancólico que não salva ninguém. O leitor, assim como os personagens, fica destroçado com o que viu, especialmente por saber que, exceto o elemento futurista em cena, não há diferença para o mesmo assunto em nossa sociedade.

Nathan Never #5: Forza invisibile (Itália, outubro de 1991)
Sergio Bonelli Editore

No Brasil: Editora Globo (março de 1992)
Roteiro: Michele Medda
Arte: Romeo Toffanetti
Capa: Claudio Castellini
Letras: Francesca Piovella
100 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.