Crítica | Nathan Never: O Monolito Negro (1991)

E se… 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, fosse motivo de uma disputa envolvendo religião, mutantes perseguidos e segregados, sequestros e uma investigação de emergência feita por um agente especial da Agência Alfa? Esta é a longa pergunta que fazemos ao ler O Monolito Negro, porque estes são realmente os temas que vemos na história.

Escrita por Antonio Serra, Michele Medda e Bepi Vigna, a trama começa com uma interessante notícia do jornal City News, trazendo a manchete Um Olhar Discriminado: o problema da integração social dos mutati. Duas ações iniciais nos são apresentadas. Primeiro, a perseguição de um homem que carrega uma maleta com algo precioso. Depois, uma ação de Nathan Never, Legs e Sigmund ao desmantelar a venda de remédios que são como uma droga para os mutati (termo para “mutantes”. O singular para esta palavra, neste Universo, é “mutato”). Apenas a primeira ação parece que fará parte da grande história e nossa impressão de fato se concretiza quando notamos que o roteiro ronda uma religião criada por Marcus Hackman, às bordas do deserto do Território, um lugar chamado Sun Valley.

Novamente estamos diante de algo do futuro, mas com relações perfeitamente ligadas ao nosso presente. O fanatismo religioso, o charlatanismo de líderes religiosos, o surgimento de seitas e pessoas sem escrúpulo algum, dispostas a enganar os outros e ganhar muito dinheiro com isso (Skotos já tinha assumido essa vertente em Agente Especial Alfa) são a grande crítica do roteiro aqui, mas tudo isto tem um ponto metalinguístico delicioso, que é a ligação com o filme de Kubrick, do qual é encontrado uma cópia em celuloide, uma cópia procurada por Marcus Hackman, que sabe que o filme pode trazer o fim à sua religião e possibilidade de faturamento de milhões às custas de crentes incautos e com extrema vontade de acreditar em uma força superior capaz de lhes falar o que fazer.

Nathan Never - Globo #2 - plano critico monolito negro

No futuro, um filme é um mito religioso.

Existe uma série de referências a obras do cinema, inclusive com algumas brincadeiras, como Rocky 56 e Inferno na Torre 6, mas também cartazes, letreiros e citações para Duna, Aliens, Top Gun, Psicose, Barry Lyndon, Laranja Mecânica, ao diretor George Méliès, aos quadrinhos de Martin Mystère, aos Beatles, Bob Dylan, Caruso e à ópera I Pagliacci. Isso serve como aproximação cultural do leitor ao mundo do colecionismo de Nathan Never e um outro fanático pelo passado da Terra (destaque para o século XX) e também torna a leitura rápida e cheia de fan services agradáveis, sempre colocados em momentos corretos da trama, sem atrapalhar o desenvolvimento nem nada do tipo.

Infelizmente o bloco do religioso Marcus H. não recebe a atenção que deveria, o que realmente incomoda porque a trama gira em torno dele. Colocado por trás das cortinas, o charlatão aparece algumas vezes fazendo pregações e depois surge no momento de ação final, para recuperar a única cópia do mundo que sobrou de Uma Odisseia no Espaço. O momento é tenso, nos faz pensar bastante sobre preservação do nosso patrimônio cultural e nos põe para pensar como seria um mundo sem determinados filmes ou referências artísticas… um mundo onde tudo o que conhecemos hoje são apenas lendas e histórias de pessoas mais velhas contadas para as novas gerações (para uma abordagem profunda e inesquecível sobre esta temática, indico fervorosamente o romance Um Cântico Para Leibowitz) e onde as poucas peças que sobram de uma civilização passada estão se destruindo ou sendo destruídas.

O Monolito Negro é uma história quase improvável de investigação. A ação de Nathan não se dá pela agência, mas pela vontade de resgatar uma amiga, sobrinha de suas vizinhas, que fora sequestradas pelos capangas de Marcus H. A arte de Germano Bonazzi não tem o mesmo apuro que em Agente Especial Alfa mas ele faz um ótimo trabalho mostrando os espaços pobres e os renegados deste mundo do futuro, tão condenado e tão viciado quanto o nosso. Ao que parece, determinadas atitudes humanas tendem a permanecer intactas, independente do tempo. Infelizmente.

Nathan Never: O Monolito Negro (Il monolito nero) — Itália, Julho de 1991
Sergio Bonelli Editore
No Brasil:
 Editora Globo, dezembro de 1991
Roteiro: Antonio Serra, Michele Medda, Bepi Vigna
Arte: Germano Bonazzi
Capa: Claudio Castellini
100 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.