Crítica | Navio Fantasma

Ambientes assombrados fazem parte de um subgênero tão prolífico quanto os filmes de exorcismo, tubarões e psicopatas mascarados. Produzido pela Dark Castle Entertainment e a Village Roadshow Pictures, esta aventura de horror e morte contou com uma grande equipe de técnicos em efeitos especiais: Brian Cox, Steven Boyle, Angelo Sahins, Julian Summers e Sebastian Foxx.

A ideia era entregar ao público um filme surpreendente, mas infelizmente as intenções ficaram apenas no planejamento: Navio Fantasma é um filme repleto de estilo, mas com uma construção dramaticamente estéril, provavelmente oriunda de uma preocupação excessiva com o espetáculo de sangue e pavor estabelecido em seus primeiros instantes. Coproduzido pelos Estados Unidos e Austrália e lançado em 2002, esta história pouco intrigante foi concebida pelos mesmos realizadores de A Casa da Colina e 13 Fantasmas, refilmagens de clássicos de William Castle.

O flashback com a morte dos passageiros e a condução inicial dos conflitos que levaram o navio ao abandono é, de fato, surpreendente. A eficiente edição de Roger Barton transforma a direção de fotografia de Gale Tattersall e a composição musical de John Frizzell em um conjunto de imagens interessantes, mas que acionam a nossa curiosidade para algo mais substancial em seguida, o que não acontece graças ao roteiro falho da dupla formada por Mark Hanlon e John Pogue, bem como a direção pouco eficiente de Steve Beck.

Depois da intensidade da abertura, os demais momentos dos 91 minutos de filme nos mostram uma equipe de profissionais em regastes de navios que, a bordo do rebocador Arctic Warrior, investigam o caso de um navio abandonado na costa do Alasca. Juntos eles descobrem que a embarcação faz parte do que restou de uma luxuosa embarcação italiana intitulada Antonia Graza. Com a descoberta surgem os primeiros problemas: todos os envolvidos correm perigo de vida, tamanha a carga das forças sobrenaturais que dominam o espaço, no entanto, as possibilidades financeiras são altas, o que culmina na eliminação de qualquer compreensão do que se passa diante dos seus olhos, mas que muitos se negam a enxergar.

Apesar de muito parecido com o pôster de Navio da Morte, clássico do terror da prolífera década de 1980, Navio Fantasma não é uma refilmagem, ato comum na época em que foi lançado. A embarcação fantasmagórica que completou 35 anos recentemente tratava de um navio militar assombrado que foi palco para sádicos interrogatórios dos nazistas contra prisioneiros na época da Segunda Guerra Mundial.

A referência maior é a “história real” do Mary Celeste, por sinal, citada em determinado momento da narrativa. Segundo relatos históricos, um navio foi encontrado à deriva na direção do estreito de Gibraltar em 1872. Os sinais de abandono criaram uma aura misteriosa, principalmente pelo relato de bordo ter sido realizado dez dias antes da descoberta. Com conclusões precárias, a investigação abriu margem para interpretações variadas, dentre elas, efeitos da evaporação do álcool na tripulação, maremotos, trombas d’agua, ataques de lulas gigantes e presença sobrenatural, sendo a última interpretação a escolha para o desenvolvimento do roteiro.

A história fez tanto sucesso que Arthur Conan Doyle publicou em 1894, uma versão literária para o acontecimento. Os “fatos” que envolvem o filme parecem mais interessantes que a sua versão cinematográfica, repleta de liberdades criativas desperdiçadas. A elegância da abertura, como já citado, não é mantida; a presença de uma criança fantasma, capaz de revelar os segredos da embarcação, surge como uma tentativa de causar “comoção+pavor” sem funcionalidade, além dos diálogos banais irritantes e quase desprovidos de função narrativa.

Quando lançado, um crítico do Los Angeles Times fez um divertido jogo de palavras com o filme, alegando que bastava trocar uma consoante para dar o verdadeiro sentido ao que tinha acabado de assistir. Para o especialista, “ship” deveria ter sido trocado por “shit”, isto é, Navio Fantasma (Ghost Ship) era para se intitular Merda Fantasma (Ghost Shit).  A abordagem é vulgar, sabemos, mas não menos divertida e coerente, haja vista a qualidade narrativa deste filme exuberante na superfície, mas oco dramaturgicamente.

Navio Fantasma (Ghost Ship) — EUA, 2002.
Direção: Steve Beck
Roteiro: Mark Hanlon, John Pogue
Elenco: Julianna Margulies, Gabriel Byrne, Ron Eldard, Desmond Harrington, Isaiah Washington, Alex Dimitriades, Karl Urban, Emily Browning, Francesca Rettondini
Duração: 104 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.