Crítica | Nebraska

nebraska

estrelas 4,5

O mais recente filme de Alexander Payne, Nebraska, segue sua fantástica fórmula de apresentar assuntos simples, mas relevantes, de maneira contemplativa, que nos faz pensar. Sua obra anterior, Os Descendentes, tratava da vida em família, traição e, de certa forma, a proteção à natureza.

Em Nebraska, ele volta ao tema principal de As Confissões de Schmidt, de 2002: o envelhecimento e suas consequências. E ele faz isso focando sua atenção em uma quixotesca missão encabeçada pelo desmemoriado idoso Woody Grant (Bruce Dern) acompanhado de seu filho David (Will Forte) para trocar uma carta que Woody recebera prometendo a ele um milhão de dólares. Todos, menos Woody, morador de uma cidadezinha do meio-oeste americano, sabem que é pilantragem, mas seu filho Dave aproveita essa ilusão do pai para passar mais tempo com ele e, de certa forma, ajuda-lo e se ajudar também a ter um propósito na vida.

Quando Woody e David saem a caminho do “grande prêmio”, um tocante e lindíssimo road movie começa. A fotografia em preto e branco de Phedon Papamichael, parceiro constante de Payne, realça a monotonia da vida de todos os personagens e não tenta embelezar as paisagens e as pessoas. Vemos o mundo como ele talvez realmente seja: sem cores, sujo e, em última análise, sem esperanças. Mas a falta das cores ajuda, também, a chamar atenção para o forte laço que une pai e filho – Don Quixote e Sancho Pança – tornando evidente o calor do amor existente entre os dois e também entre eles e o irmão mais velho, Ross (o excelente Bob Odenkirk, de Breaking Bad) e a mãe e esposa Kate (June Squibb, baixinha, atarracada e absolutamente cativante).

Quando a dupla chega na cidade natal da família Grant, onde todo mundo se conhece, a “lenda do milionário Woody” acende ambições e rivalidades, pois todos acreditam que ele realmente está para se tornar um milionário. Vemos a própria família de Woody – seus vários irmãos e sobrinhos – se juntar não para celebrar a união de todos, mas sim para tentar tirar uma casquinha do “ouro dos tolos”. Vemos o antigo sócio de Woody, Ed Pegram (Stacy Keach) reaproximar-se unicamente para dizer que ele lhe deve dinheiro e que, com a grana do prêmio, Woody finalmente poderá saldar a dívida.

É um microcosmo do mundo real, sem nenhum tipo de verniz, mas com um evidente tom de doçura e enternecimento. Payne faz uma obra de tom pessoal que celebra a família acima de tudo (como em Os Descendentes) e uma velhice tranquila, entre amigos e familiares. Afinal de contas, mesmo com todos os problemas que vemos Woody passar, a família continua sendo família e isso fica muito evidente na divertida sequencia em que Woody, Kate, Ross e David saem em marcha para recuperar um item há muito roubado de Woody.

O veterano Bruce Dern tem a atuação de sua carreira. Indicado ao Oscar somente uma vez em 1979 por Amargo Regresso, esse grande ator acabou amealhando o prêmio de melhor nessa categoria em Cannes por Nebraska, o que o coloca com boas chances de repetir o feito na cerimônia do Oscar de 2014. E, realmente, ele merece. Desmemoriado e descabelado, mas perfeitamente natural, Dern consegue chamar atenção para si sem grandes esforços e, mesmo calado, toma conta do cenário facilmente, não sem ajuda da direção de Payne, que sabe explorar ângulos e montar cenas que passam a exata mensagem que quer sem ajuda de diálogos. Uma delas é a sequência na casa do irmão de Woody em que vemos toda a família sentada vendo TV, sem absolutamente mais nada para fazer. Woody está literalmente em casa, mas também desconfortável em não seguir adiante com sua viagem. São pequenos detalhes que tornam esse filme mais do que memorável.

E Will Forte, apesar de não ter chance diante de Dern, consegue passar uma ternura incrível sem ter que apelar para choros ou histrionismos. Ele provavelmente vê, no pai, seu próprio futuro e, durante toda sua viagem, fica evidente em seu rosto a dúvida se é isso que ele quer de verdade e, se não for, o que ele pode fazer para mudar. A sequência final, quando os dois vão recolher o prêmio e o que acontece a partir daí mostra exatamente o que pode ser o futuro para ele, mas deixarei o leitor tirar suas próprias conclusões.

Nebraska é um pequeno filme de grandes ambições que fará qualquer um refletir e contemplar o futuro e os familiares ao seu redor. Payne nos dá a missão de decidir o que fazer a partir das colocações que faz e temos que agradecer pela “puxada de orelha”.

Nebraska (2013)
Direção: Alexander Payne
Roteiro: Bob Nelson
Elenco: Bruce Dern, Will Forte, June Squibb, Bob Odenkirk, Stacy Keach, Missy Doty, Kevin Kunkel, Angela McEwan
Duração: 115 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.