Crítica | Negação (2016)

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estrelas 2,5

Pense na seguinte afirmação: o Holocausto não existiu. Estranho, não? A negação de um fato histórico tão marcante como o genocídio de cerca de seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial pode parecer para a maioria de nós um absurdo, mas não para David Irving, escritor britânico que desenvolveu inúmeras obras literárias sobre essa teoria, que rejeita a existência de um extermínio judeu na Alemanha Nazista.  Embora o revisionismo seja reafirmado por vários supostos historiadores, a negação do Holocausto é majoritariamente criticada por entidades, escritores e pesquisadores e até mesmo criminalizada em vários países, como a Bélgica. Uma das críticas mais ferrenhas envoltas do negacionismo foi feita por Deborah Lipstadt, historiadora americana, que acabou também por condenar veementemente os pensamentos do britânico David Irving, em seu livro Denying the Holocaust (1993). Surpreendentemente, alguns anos depois, David processou Deborah e a publicadora Penguin Books, alegando difamação. Leva-se assim toda essa história para os tribunais ingleses, e agora, para as telonas.

Na trama, a historiadora Deborah Lispstadt (Rachel Weisz), após ser acusada de calúnia e, consequentemente, processada por David Irving (Timothy Spall), tem a missão, com a ajuda de uma extensa equipe de advogados, de provar que suas afirmações em seu livro não foram invenções e sim apontamentos baseados na verdade. Teria a defesa, então, que provar que o Holocausto de fato existiu? Seria um tribunal um lugar justo para se discutir o passado de milhares de sobreviventes judeus da Segunda Guerra? Várias perguntas, como essas, são abertas, embora o contexto não contribua para isso.

Adaptação do livro que Lipstadt viria a escrever anos após os eventos do filme, o longa tem como foco exclusivo o julgamento. É uma decisão questionável, pois assim feito coloca-se de lado os trabalhos de David Irving e um aprofundamento da mentalidade do escritor. Não há um interesse do filme em explorar a psiquê, claramente perturbada, de um homem que com suas palavras e estudos tenta passar uma mentira deslavada. Como assim não ocorreu o Holocausto? Sem fazer um estudo de personagem interessante para com o espectador, a obra, mesmo baseada em fatos reais, não consegue passar verdade. Por que esse homem iria ao ponto de negar algo presumidamente inegável? David acaba por parecer muito mais como um vilão de contos de fada, do que um ser humano em si, capaz de distorcer a realidade para que ela se adapte aos seus ideais políticos e ideológicos.

Por outro lado, o desenrolar das estratégias da equipe de advogados é perspicaz e funciona muito bem. Enquanto Deborah quer ser um ícone a favor da defesa da honra dos sobreviventes ao Holocausto, Anthony Julius (Andrew Scott), um dos homens à frente na defesa, evita ao máximo expor a situação, e garantir as chances de vitória. Repetitivo, porém, os embates entre Deborah e Anthony aos poucos perdem a gravidade e tornam-se enfadonhos. O filme, além disso, não traz em momento algum uma preocupação real para com o caso. Em nenhum momento tememos uma possível derrota. A tensão sobre o veredito, embora envolva uma ótima cena de questionamentos ao advogado de defesa, é extremamente mal conduzido e, por fim, leva a um diálogo, no mínimo, piegas entre Anthony e Deborah. Sela-se assim a mediocridade do longa.

Rachel Weiz busca, com o material que lhe é atribuída, trazer uma impressão mais humana e crível de sua personagem. O roteiro, de autoria de David Hare, faz completamente o contrário, elevando as qualidade da personagem ao extremo e tirando, de certa forma, os méritos à equipe de advogados. Por boa parte do filme, é induzido ao espectador um senso de antipatia aos homens e mulheres que teoricamente seriam os mocinhos. A presença de Andrew Scott é delegada a contrapor Deborah, enquanto David Irving deveria ser o real contraponto da personagem. Cabe à Richard Rampton (Tom Wilkinson) ser a voz da verdade dentro do tribunal e dizer, em meios a trejeitos imponentes, o que está preso na garganta de Deborah. Eficiente, o veterano ator consegue transmitir singelamente diversas características de seu personagem, desde a sua passagem em Auschwitz, lugar onde o primeiro conflito entre Deborah e Tom surge, até o encontro, mais pessoal, na casa da escritora.

O filme ainda tenta, desonestamente, atribuir a equipe de advogados uma intimidade mútua entre eles, sendo que além de Anthony e Richard, nenhum dos membros que compõe a defesa tem importância narrativa. A história diz que sem eles talvez Deborah e a empresa Penguin Books teriam sido julgados culpados. Mas o filme não. São todos nomes esquecíveis, que no final não passam de meros enfeites temáticos. Timothy Spall, outro gigante no elenco, consegue, em seus primeiros minutos, impor respeito, mesmo que seu comportamento seja totalmente leviano. Mas à medida que o filme progride, o personagem regride, ficando inerte perante os acontecimentos. Não há desenvolvimento de personagem algum, a não ser a breve contextualização inicial, que apesar de operante, não permite o personagem tornar-se aquilo que o roteiro o propôs a ser.

Vivendo em uma era onde as mais simples das verdades passam por questionamentos sérios de políticos, intelectuais e escritores, Negação poderia ser um tremendo filme relevante sobre a desconstrução da verdade para fins pessoais. Mas os excessos de ornamentos chamativos, incoerências e superficialidades tornam a obra, apesar de real, soar artificial, tendo que recorrer ao seu elenco para não soterrar as chances de completa frivolidade. Uma história de peso. Um tema atual. Um filme irrelevante.

Negação (Denial) — EUA/Reino Unido, 2016
Direção:
 Mick Jackson
Roteiro: David Hare
Elenco: Rachel Weisz, Tom Wilkinson, Timothy Spall, Andrew Scott, Jack Lowden, Caren Pistorius, Alex Jennings, Adrian Tauss, Alex Jennings, Cristopher Brandon, Harriet Walter
Duração: 109 min.

GABRIEL CARVALHO . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidades, movido por uma pequena loucura chamada amor. Já paguei as minhas contas e entre guerra de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia. Eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar, não é mesmo?