Crítica | Nem Que a Vaca Tussa

“Eu desisti da faculdade de palhaço para isso?”

Uma nova vaca chega a uma fazenda, recepcionada calorosamente por todos os animais do lugar, menos por um, enciumado da personagem. Um novo brinquedo chega ao quarto de uma criança, recepcionado calorosamente por todos os brinquedos do lugar, menos por um, enciumado do personagem. Nem Que a Vaca Tussa possui uma premissa básica, em níveis extremamente iniciais, que se desdobram, porém, para intenções distantes, consideravelmente parecida com a de Toy Story, comparação necessária para compreensão do porquê da incapacidade da animação em envolver o espectador consigo. Maggie (Roseanne Barr), primeiramente, não é carismática. A desinteressante história do longa-metragem possui diversos fundos dramáticos – mal explorados -, a começar pela apresentação de uma protagonista que perdeu a sua casa, o seu verdadeiro pedacinho de céu. O começo entristecido, contudo, não possui continuidade. O comportamento apresentado, no novo lar, mais parecido com o do astronauta da saga de brinquedos, está separado da ingenuidade daquele personagem, que possuía uma ideia por trás mais propícia para peripécias espaciais, dando margem, em contrapartida, no caso de uma vaca que, aparentemente, nada sente em relação ao seu passado, a uma incompreensão do espectador por quem essa personalidade é na realidade, diante de um distanciamento de vertentes quase opostas, do dramático despropositado ao cômico despropositado. Uma grande palhaçada.

O relacionamento da personagem com as demais vacas também não convence. O começo, extremamente apressado, nos impulsiona para uma jornada sem a carga de engajamento que Toy Story, por exemplo, possuía, após o protagonista ser jogado da janela, embora, daqui em diante, a qualidade das histórias assuma considerações completamente diferentes. A pressa do começo é sentida, porque, paralelamente, não existe tempo nem para uma simpatia própria aos moradores dali – uma montagem musical furreca -, nem para um entendimento das mudanças acometidas pela chegada da personagem principal. O público precisa de um apego com a estrutura familiar subentendida daquele novo lugar – a canção atmosférica e a idosa fazendeira até que funcionam -, mas o enfoque é, exponencialmente, na rixa entre Maggie e uma outra vaca, a Sra. Calloway (Judi Dench), rabugenta sobre a vida, enquanto a protagonista é demasiadamente alegre acerca dela. Os opostos não se atraem, muito menos o público por qualquer um deles. As duas tornam-se enormemente menos interessantes, ao passo que a problemática maior é noticiada: a fazenda está prestes a ser leiloada e as vacas precisam sair em uma aventura, destinada a conseguir manter o Pedacinho de Céu para todos os animais. As reviravoltas surgem, ao passo que o mesmo homem que possibilitou a perda da primeira casa de Maggie, está ao encalço de heróis de faroeste, cavalos bombados e vacas abobalhadas.

A questão contraditória é que, por exemplo, durante o percurso do enredo, mais para frente, a chata Sra. Calloway comenta que a chata Maggie está pensando, nessa missão absurda – única ideia pensada, porém – apenas em uma vingança contra os criminosos responsáveis por levarem a sua família. Qualquer fundamentação inexiste para uma conclusão da espécie, até mesmo porque a personagem, ao deparar-se com o cartaz de procurado contendo o rosto do antagonista da fita – completamente esquecível, raso, apesar da sua canção própria -, não reconhece o homem, muito mais interessada na recompensa evidenciada, exatamente o necessário para que a trindade consiga salvar essa família, que qualquer caráter secundário. Os roteiristas, portanto, assumem problemáticas meramente superficiais, através de linhas de diálogo avulsas ao engajamento do espectador até o momento das respectivas falas, pretendendo evidenciar questões fantasmas, ao invés de fomentar novas – uma culpa ininteligível é transmitida à protagonista. O roteiro, escrito pelos mesmos diretores da animação, simplifica as possibilidades explorativas o máximo que se permite, embora, desonestamente, também indique, através de diálogos posteriores, complicações no enredo inexistentes em um âmbito emocional. A jornada não tem ambiguidade, apenas configurando-se como uma estrada simples pela estrada simples, preenchida por personagens irrelevantes à adição de substância ao cerne embasado, sobre, provavelmente, ameaças e família.

Nem Que a Vaca Tussa é uma das animações mais confusas da empresa em relação as suas temáticas, perdendo tempo em demasia para abranger soluções cômicas desinteressantes a um rodeio maior, esquecendo, quase que completamente, de camadas além da narrativa. A complexidade, nesses termos, de um roteiro repleto de firulas, não é relevante – a própria empresa já apresentou animações com simplicidade -, mas o raso atribuído à obra encontra-se em meio às emoções, aos personagens, aos discursos, ao suspense, às possibilidades futuras, ao envolvimento verdadeiro. O cômico é realmente sobressaído. Buck (Cuba Gooding Jr.), por exemplo, possui uma personalidade extrovertida que garante humor, mesmo que o exagero e, novamente, a antipatia acabe nos distanciando. Já Grace (Jennifer Tilly), mesmo narrativamente escanteada, é a única personagem verdadeiramente agradável aos nossos olhos e corações, já entediados de personagens enfadonhos na superfície e desinteressantes no roteiro. Nem a qualidade da animação consegue ultrapassar camadas de pasto estragado, porque, por exemplo, as cores extremamente fortes, marcando o espectador ao menos, são uma tentativa desengonçada dos animadores em justificar alguns cenários pessimamente acabados. Os traços, ao mesmo tempo, é um dos mais esquisitos que a empresa já desenhou. Qual a surpresa de que, após esse fracasso, a empresa abandonaria, por um tempo, a animação tradicional?

Nem Que a Vaca Tussa (Home on the Range) – EUA, 2004
Direção: Will Finn, John Sanford
Roteiro: Will Finn, John Sanford
Elenco: Roseanne Barr, Judi Dench, Cuba Gooding Jr., Randy Quaid, Jennifer Tilly, Steve Buscemi, Charles Dennis, Charles Haid, Carole Cook, Joe Flaherty, Patrick Warburton
Duração: 76 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.